I Concurso de Contos, Histórias e Poesias

Vencedores

    25 de janeiro de 1984. Um velho ventilador de teto espalha mais barulho que vento naquela quente enfermaria de mulheres. Uma menina de nove anos dorme. O sono é intranquilo. Vira-se de vez em quando, deixando a mãe preocupada com a possibilidade de que venha sair o cateter, que está preso em um dos braços, por onde lhe são infundidos soro e medicamentos. Guardiã e atenta, sentada em uma cadeira improvisada, Cidinha contempla enternecida a filha. Diligente, desvia os olhos apenas para examinar o frasco de soro; está atenta ao volume e a cada gota que cai. Seguidamente lhe põe a mão na testa. “Graças a Deus, a febre não voltou”, pensa. Estava ali apenas como acompanhante, mas, quando chegou, recebeu também atendimento de emergência; trazia arranhões e hematomas no rosto, nos braços e no pescoço, havia um corte no lábio superior, o olho direito estava circundado por uma grande mancha roxa, na orelha esquerda sobressaíam três pontos cirúrgicos, postos ali para cingir um corte que dividira o lóbulo ao meio. Para a lesão maior e mais profunda, não recebera tratamento: uma ferida na alma, cuja dor se tornara intermitente e perturbadora, como a estridulação dos grilos nas noites invernosas. Ela ergue a cabeça, atraída por umas palavras vindas de uma TV suspensa num suporte de ferro preso à parede: “… só assim, teremos liberdade plena”… Era um político exaltado que, de cima de um palanque, discursava para uma multidão. Políticos e artistas de televisão o sucediam. Eram muitos os discursos, mas todos se encerravam com as mesmas palavras de ordem: “Diretas Já!” De quando em quando, a plateia era focada, podendo-se ler em muitas das faixas exibidas: “Parabéns, São Paulo, pelo seu aniversário!”

    A multidão ovacionava cada discurso. Ela sentiu inveja daquelas mulheres que apareciam em meio à imensa plateia. Mostravam-se atentas e felizes. Se estavam ali sorridentes e preocupadas com o rumo do país, por certo, os problemas de cada uma eram de pequena monta, a ponto de serem postos em segundo plano. Todas elas podiam usufruir dos maiores bens: a paz e a liberdade. Podiam ir atrás de seus sonhos. Ela, não! Sonhar, não podia! Como também não podia livrar-se de seu pesadelo, do jugo de seu impiedoso marido, que lhes infligia, a ela e à filha, suplícios e privações havia tempo.

    Sentia-se culpada pelo sofrimento da filha, a quem dera nome de Anair. Muito se lamentava por ter aceitado se casar com Fabiano, que não tardou a se mostrar inescrupuloso e sádico. Nos primeiros meses do casamento, a lubricidade desmedida inibia a perversidade, mas, com o passar do tempo, a gravidez foi-se acentuando e os desejos libidinosos foram se arrefecendo, sobrando ao marido apenas o espírito selvagem e mesquinho. O sofrimento veio lhe bater à porta, com mala e cuia. A princípio, os suplícios eram amenos e espaçados; ele se contentava em ofendê-la apenas verbalmente; alguns empurrões, só de vez em quando, mas a coisa foi-se amiudando e tomando outro rumo. As bebedeiras se tornaram frequentes, e as agressões físicas também.

    Fabiano não trabalhava. Vivia a dizer que não carecia de trabalhar, que não era jumento para carregar fardos; o bom mesmo era viver do suor dos que tiveram o azar de nascer pobres. Vivia da renda advinda de duas propriedades. Ultimamente cultivava o hábito diário de rumar, após o almoço, para o Bar Pedra Branca, de Lenimberg Benevides, onde se dedicava ao carteado. Dali só saía à boca da noite, indo invariavelmente para o Refúgio do Amor de Mundinha Pedrosa. Quando, por uma razão muito forte, fugia desta rotina, Mundinha Pedrosa e suas colaboradoras não conseguiam disfarçar o descontentamento; em cada semblante estava estampada a tristeza e o desalento. A desconfiança, isto é, a insegurança, recaía na possibilidade de o fazendeiro ter-se bandeado para o cabaré da Lolita. “Praga ruim! Cascavel invejosa!”, exasperava-se Mundinha Pedrosa. No entardecer seguinte, quando o eminente cliente aparecia cheio de ânsia, desejando recuperar o que deixara de fazer na noite anterior, a alegria do estabelecimento recrudescia. Esse bem-querer ao cliente tinha uma razão: ele era um benemérito da casa, um provedor. A maior parte da renda que recebia, ele destinava àquele empreendimento, que lhe dava como retorno a imensurável devoção de Maria Ternura, que, apesar do nome, não negava sua predileção pelo amor selvagem. “Carícia é pra virgem! Umas bofetadas no corpo sempre me aquecem a alma”, defendia ela. Este gosto dissoluto atraía o fazendeiro. Achava que Maria Ternura era decisivamente diferente de sua esposa, era uma mulher de verdade. “Ela trepa porque gosta!”

    Ele regressava para casa quase sempre nas duas primeiras horas da madrugada. E lá estava Cidinha para lhe esquentar a comida e ouvir insultos requentados: “Aonde eu fui amarrar meu cavalo, quando casei contigo? Tu não sabe satisfazer um macho, eu não troco a Maria Ternura por ti! Tu é uma puta sem- vergonha!”… Diante do silêncio da esposa, ele invariavelmente partia para cima dela. Puxava-lhe os cabelos e cobria-a de tapas. Muitas vezes, surrava-a com o cinto que trazia à cintura. A filha, atraída pelo barulho, sempre vinha correndo ao socorro da mãe, mas nada podia fazer; quase sempre terminava caída no cimento duro e frio da cozinha. Às vezes, o sangue lhe brotava do pequeno e afilado nariz.

    Com o passar do tempo, temendo pela integridade da filha, ela optou por se evadir, já não esperava pelo momento da flagelação. Ao terminar de esquentar o jantar, cuidava logo de pular a janela que dava para o quintal, que, por prevenção, resolvera deixar apenas encostada. Nas primeiras vezes, Fabiano vinha em seu encalço, mas ela logo pulava a cerca do quintal que dava para a rua lateral. Ele, indisposto a tamanho esforço, como um cachorro que deixa de correr atrás de uma presa que se mostra mais veloz, desistia da perseguição. Ao contornar a esquina da rua, ainda resfolegando, ela ia-se pôr à frente da casa, na calçada. A preocupação maior era com a filha. Ficava todo o tempo a olhar pela fresta de uma das janelas. Guerreiro, o cachorro de Antônio de Paulo, vinha sorrateiramente lhe fazer companhia. Dos quintais, vinham os cantos de galo. Ela não os tolerava; eram cotidianos como seu sofrimento. Um latido se fazia ouvir ao longe, e, de pronto, Guerreiro se punha de pé, à espreita. Quando desconfiava de que alguém se aproximava, envergonhada, corria até a varanda da casa à frente, onde também se protegia dos implicantes serenos da madrugada. Guerreiro latia ameaçador, mas o transeunte, sem lhe dar ouvidos, logo desaparecia em uma das esquinas. Ela e o companheiro voltavam a estar juntos. Antônio de Paulo saía e fechava a porta por fora, estava indo para o trabalho, na Padaria do Quim. O vizinho a olhava, dirigindo-lhe um sorriso morno. Não podia ajudá-la, pois não queria encrenca com o vizinho. Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher! Guerreiro, sempre servil, agora seguia o dono, cheirando e irrigando os postes que ia encontrando; ela ficava ali, naquele território que o cão companheiro demarcara havia tempo, à espera de que sua pequena viesse lhe dar conhecimento de que o pai finalmente dormira.

    Amanhecia e logo ela se punha de pé. Tinha que cuidar de fazer o café e de pôr o feijão no fogo. Fabiano continuava no seu sono de anjo, despertando apenas quando as réstias de sol que adentravam pelas telhas começavam a se verticalizar.

    Ao despertar, como se esquecido de tudo, chamava-a e, possuindo o seu corpo sempre permissivo, estuprava-lhe a alma. A filha, frente à porta do quarto que se fechava, sorria na esperança de que o amor subjugasse a fera.

    As noites iam se sucedendo e os suplícios se repetindo. Ela questionava a Deus o porquê de tanto sofrimento, daquela distopia. Teria Ele a castigado apenas porque quisera dar à luz a filha? Teria sido Ele tão impiedoso a ponto de condená-la a um sofrimento sem fim, como Zeus fizera a Prometeu? O desespero começava a sufocá-la, já não sabia o que fazer, para quem apelar. Lembrou que já havia recorrido àqueles que, talvez, pudessem ajudá-la. Procurado, o padre aconselhou-a a ser mais paciente com o marido, pois uma separação seria muito pior para ela e a filha. Lembrou-lhe o religioso o que dissera por ocasião da cerimônia de casamento: “Que o homem não separe o que Deus uniu!” O padre comprometeu-se a aconselhar Fabiano, que, procurado pelo vigário, creditou à embriaguez o seu comportamento exasperado, prontificando-se a mudá-lo, mas tudo continuou como antes, de modo que, depois de muito hesitar, decidiu procurar o delegado, que, de imediato, mandou chamar o reclamado. Naquele começo de tarde, depois de ser admoestado pela autoridade policial, ele não foi ao bar; da delegacia, foi direto para o Refúgio de Amor de Mundinha Pedrosa. Deitou-se com Maria Ternura, mas não transou. Estava irritado, não havia engolido tamanha ousadia. Regressou mais cedo para casa. Cidinha pagou duramente pelo atrevimento. Espalhados pelo corpo ficaram alguns cortes provocados pela fivela do cinto e, na mente, o eco de uma ameaça: “Se tu voltar a falar com alguém, principalmente com o delegado, ou com o juiz, ou com o promotor, seja lá com quem for, eu te mato, égua safada! Tá me ouvindo? E isto também vale se tu ainda vier com aquela história de separação!”

    Ela foi se convencendo de que só a ela caberia o encargo de carregar aquele fardo tão pesado. Na verdade, não podia creditar o seu sofrimento à vontade de Deus; no fundo, estava apenas colhendo o fruto amargo de uma semente que ela mesma semeara. Rendia-se à fatalidade de seu destino. Só não sabia que o pior estava por vir, que não há limite para um sádico. Mais uma madrugada chegara, e tudo acontecia como esperado: jantar requentado, ofensas verbais, tentativa de agressão e fuga através da janela, mas, ao chegar à frente da casa, ouviu os gritos da filha, que chorava e pedia por socorro. Pela fresta da janela, viu que Fabiano, de cinto na mão, açoitava a pobre menina. Tomada pelo desespero, começou a bater à porta: queria adentrar em casa; precisava livrar a filha das garras daquele miserável. A porta logo se abriu, e ela correu em direção à filha. Não pôde. Foi segurada pelos cabelos e, depois de caída no chão, foi alvo de uma série de chutes. A menina gritava, implorando em vão ao pai que parasse.

    Meia hora depois, Fabiano dormia na cama tranquilamente, enquanto ela procurava acalmar Anair, beijando-lhe a testa e acariciando-lhe os cabelos. Um fogo lhe queimou a alma e o coração fremiu, ao ver as marcas da violência nas costas da filha; era como se a pequena houvesse sido torturada no tronco, feito escravo fujão. Entorpecida, pegou uma peixeira, que, por precaução, a escondia do marido todas as noites, e foi até o quarto. Ele ressonava e mexia levemente os lábios: parecia sorrir. Não hesitaria, seria daquela vez, deixaria, enfim, de viver naquele estoicismo aparente de esposa subjugada. Erguendo o braço como uma guerreira, mirou-lhe o peito esquerdo. “Bastará um golpe”, pensou. Um acesso de tosse arrastada da filha segurou-lhe o punho armado; naquele mundo de cão, o instinto mais acurado era o de sempre proteger a cria. Correu até a pequena e assustou-se, ao vê-la regurgitar o pouco que comera no jantar. Ao ver vestígios de sangue, ficou apavorada. Desesperada, pediu ajuda a Iracema, esposa de Antônio de Paula. Depois de alguns minutos, ela e a filha eram atendidas no hospital municipal. Após a análise das radiografias, o médico atestou que nada demais grave ocorrera com a menina. Um corte na boca fora a origem do sangue expelido. Recomendou sua internação por 48 horas. Ficaria em observação por este tempo, quando lhe seriam ministrados anestésico e anti-inflamatório.

    Um relâmpago clareia a enfermaria, e um trovão estronda logo em seguida para as bandas do nascente. Cidinha lembra-se do velho Totonho, que, nestas ocasiões, dizia: “Isso é o rei Sol soltando fogo pelo nariz e resmungando com raiva, por ter seu brilho escondido pelas nuvens cinzentas”, e acrescentava: “Meninos, vocês estão vendo como estou certo, ao dizer que as mulheres são mais poderosas que os homens?” Com os olhos fechados, ela pensa: “Você estava enganado, Totonho!”

    “Este calor grande só podia ser chuva”, diz uma enfermeira gorda, que adentrara a enfermaria às pressas, para fechar a janela e desligar a TV. Após uma sucessão de raios e trovões, a chuva começa a cair fina, e engrossa em seguida. A água escorre pelo vidro da janela, ofuscando-o. Apesar de ainda ser dia e de uma lâmpada de mercúrio estar acesa, uma penumbra invade o ambiente.

    Com a TV desligada, Cidinha volta os olhos para a janela e vê que a chuva, açoitada pelo vento ensandecido, se esforça para abri-la, querendo talvez um refúgio. Fecha os olhos e lembra-se dos gritos de sua velha mãe: “Chega, minha filha! Fecha logo as janelas da frente, antes que a casa fique inundada!” Acostumara-se, como sertaneja, a esperar as chuvas com o coração festivo e com a ânsia de quem espera a visita de uma amiga há muito ausente. Conhecia muito bem a sua história, pelo menos pensava assim. Como todos que se sentem desgastados no presente e sem expectativa de um futuro promissor, ela volta-se para o passado e, para ver tudo com nitidez, fecha os olhos.

    Lembrou-se de Dadá, seu primeiro e único amor. Ela e ele tinham histórias semelhantes: ambos eram filhos de retirantes e foram adotados na seca de 1958. Ela, pelo casal de fazendeiros proprietários da fazenda Pereiro, localizada no município de Curral Velho, no sertão paraibano. Ele, por um casal de moradores da mesma fazenda.

    Maria Aparecida foi o nome que a mãe adotiva escolheu para a filha da retirante. Com a vinda dos dias, dos meses e dos anos, esse nome encurtou para Cida – na boca de quem com ela apenas convivia – e Cidinha – na boca de quem lhe devotava carinho.

    “Por onde ele anda agora? Será que casou?”, pensou. Lamentava-se por ter maculado o corpo ao se entregar, forçada pelas circunstâncias, a quem não amava. A alma, não! Não a entregou nem a entregaria a ninguém; ela seria para sempre de seu bobo Dadá!

    Em seguida, foi a vez de se lembrar do falecimento dos pais adotivos. A mãe, que falecera por último, deixou-lhe a triste percepção de estar sozinha no mundo aos 16 anos. Chagas, seu único irmão, nunca lhe devotara atenção.

    Um sorriso veio-lhe abrandar a tristeza ao se lembrar do momento em que, pela primeira vez, ela e Dadá deram concretude a um sentimento que, até então, ambos pensavam ser apenas fraternal, já que conviviam desde os tempos de criança.

    Sentados sobre o capim ralo, sobraçando os joelhos, os dois contemplavam silenciosamente o espelho d’água do açude prateado pela lua cheia. O açude estava cheio no início de março daquele chuvoso ano de 74. Ouviam apenas o cricrilar dos grilos e coaxar dos sapos. De repente, Cidinha ficou de pé, tirou rapidamente o vestido e, apenas de calcinha e sutiã, correu em direção às águas. “Vamos tomar um banho?”, desafiou. Dadá pôs-se a se despir freneticamente. Ao tentar tirar as calças, levou dois tombos. As pernas estavam bambas, e o coração prestes a sair pela boca. Cidinha, com água pelo pescoço, se divertia com a cena. Dadá mergulhou e emergiu bem à frente dela. Abraçou-a e beijou-lhe demoradamente a boca. A água fria ajudava-lhes a dissipar o calor da alma. Ela sentia a volúpia do acelerado Dadá. Depois de algum tempo, ele a levou nos braços até a margem. Depois de deitá-la sobre a camisa, estendida sobre a grama, retirou o que ainda lhes restavam de roupa. A nudez de Cidinha fez-lhe acelerar as batidas do coração. Ele, enfim, deu início à realização de um sonho recorrente. Na negritude dos olhos dela, ele só via lubricidade; no azul dos seus, ela – viajando nas nuvens – via o céu de perto.

    “Desgraçada Sofia!”, murmurou Cidinha, contraindo os músculos do rosto. Ela lembrava-se agora da vil mentira inventada pela esposa de Chagas. “Os dois são faces da mesma moeda. Os dois se merecem!”, pensou!

    Sofia, ao ouvir da boca do filho, Fabiano, que Cidinha e Dadá estavam se encontrando às escondidas, veio dissimuladamente dizer que tinha um segredo a lhe contar.

    – Que segredo é esse, Sofia?
    – Tu e o Dadá são irmãos de sangue.
    – O quê?!

    Tomada pelo terror momentâneo da súbita confissão, dada a factibilidade dos fatos elencados por Sofia, Cidinha terminou por se deixar convencer. Desesperada, em razão do suposto encesto cometido, ela só desejava ficar longe de Dadá. Para afastá-lo de vez, aceitou namorar e logo se casar com Fabiano, o filho de Sofia e Chagas, que vivia a cortejá-la.

    Dadá logo partiu rumo a João Pessoa, levando consigo pouca roupa na mala e muita amargura na alma. Da carroceria do caminhão-misto, observava cruzes em movimento nas margens da estrada. Cogitou que uma delas poderia ter sido a sua, caso sua mãe biológica tivesse seguido viagem há 16 anos. Se isso houvesse acontecido, por certo não estaria agora carregando sua cruz no coração. Chegara a fazenda Pereiro trazido pelo flagelo da seca; agora, partia tangido pelo flagelo de um amor proibido. Ele rendia-se à sina de retirante. Achava aquele lugar e o coração de Cidinha não lhe foram nada mais que abrigos passageiros.

    Cinco meses após o casamento, apareceu na fazenda uma senhora que dizia ser a mãe de sangue de Cidinha. Depois de um emocionante encontro com a filha, a mulher partiu. Indignada e revoltada por ter a certeza de que não era irmã de Dadá, Cidinha cobrou de Sofia a razão que a levara a agir com tamanha vileza.

    – Eu apenas pensei que vocês fossem irmãos, pois as histórias de vocês eram muito parecidas – disse Sofia, encolhendo os ombros.
    – Tu é uma safada! – Vociferou Cidinha, com os olhos intumescidos.
    – Tu me respeita, Cida! Tu é minha cunhada, mas eu tenho idade de ser tua mãe.

    Cidinha e Fabiano deixaram a casa da fazenda e foram morar numa casa que a família possuía na sede do município. Pouco tempo depois, Anair veio ao mundo.

    Agora, nove anos depois, Cidinha estava naquela enfermaria com a filha, lamentando-se por ter jogado a felicidade fora em razão de uma sórdida mentira. Ela chorou desesperadamente; não deixava de pensar em Dadá.

    Ao voltar para casa, as coisas continuaram como antes.

    Cidinha só não sabia que Dadá voltara a Curral Velho. Ele estava ali para assumir a chefia da Coletoria do Estado. Há cerca de um ano, depois de se concluir o curso de Ciências Contábeis, ele fora aprovado no concurso de fiscal da Secretaria de Fazenda do Estado da Paraíba.

    Ninguém da cidade conhecia Dadá, ou melhor, o doutor Francisco Antônio Rodrigues Nascimento. Ao tomar conhecimento do sofrimento e da rotina de Cidinha, ele ficou com o coração em desassossego.

    Tomado pela insônia, ele se revirava na cama; levantava-se e voltava a se deitar, mas não conseguia dormir. Olhou para o relógio, já passava das duas da madrugada. Trocou o pijama pela roupa de passeio e desceu as escadas. “Aconteceu alguma coisa, doutor Nascimento?”, perguntou o recepcionista do hotel. “Não aconteceu nada, apenas vou caminhar um pouco, aproveitar o vento fresco.” Em pouco tempo, estava sentado na calçada da casa de varanda à frente da casa de Cidinha. Começou a serenar. Ele buscou refúgio na varanda. Ouviu soluços vindos da esquina. Viu Cidinha entrar na varanda e se recostar de cócoras na parede à sua frente. A penumbra impediu que ela o visse, sentado no chão, bem junto à parede.

    – Amo muito você, Cidinha! – a voz de Dadá saiu baixinha, quase inaudível.
    – O quê? Quem tá aí? – assustou-se Cidinha, pondo-se de pé e correndo para a calçada.
   
– Sou eu, Cidinha! – respondeu Dadá, saindo da varanda.

    Cidinha achava que estava delirando. Ficou parada como se olhasse para um fantasma. Não opôs resistência quando foi abraçada. Apenas deu vazão às lágrimas que rolavam em abundância pelo rosto já molhado pelas águas do sereno, que começava a engrossar. Ouviu os gritos da filha. “Meu Deus, é a Anair!”, disse com aflição. Desenvencilhou-se dos braços de Dadá e correu. Pôs-se a bater desesperadamente na porta. A filha gritava: “Me ajuda mamãe!” Dadá buscava forçar a porta com o ombro. Fabiano, como fizera de outras vezes, abriu a porta e agarrou Cidinha pelos cabelos, mas não teve como segurá-la. Com o impacto do murro de Dadá, ele foi ao chão. Dadá o arrastou para a calçada e, em sequência, passou a lhe desferir murros no rosto. Dadá batia e gritava: “Covarde!” Guerreiro, com latidos preguiçosos, assistia ao martírio de Fabiano. Antônio de Paulo e Iracema abriram a porta. O vizinho se esforçava para tirar Dadá de cima de Fabiano, o que só veio conseguir com a ajuda de um transeunte. Fabiano estava desmaiado e com o rosto ensanguentado. Antônio de Paulo bateu à porta de Zé Galdino. Este tirou o jipe da garagem e levou Fabiano para o hospital. Cidinha ficou aliviada ao ver que a filha não sangrava, nem trazia a marca do cinto às costas. “Ele apenas puxou os meus cabelos, mamãe.”

    – Esse é o Dadá, Iracema – falou Cidinha.
    – O senhor não sabe como é grande o meu prazer em conhecer o senhor! – disse Iracema, apertando a mão suja de sangue de Dadá. – O senhor fez o que cada uma das pessoas desta rua tinha muita vontade de fazer.

    Dadá, sentado na sala, esperou que Cidinha saísse do quarto da filha.

    – Você vai se separar do imbecil do Fabiano agora! Daqui a dois anos, depois do divórcio, a gente casa. Enquanto isso, vamos morar juntos. A minha preocupação é com a Anair, porque ele, só por safadeza, talvez venha querer ficar com ela, mas ele não vai conseguir nada! Eu prometo a você, meu amor!
    – Ele não vai fazer isso, Dadá! Ele não vai poder! – Claro que poderá, Cidinha!
    – Não, Dadá! Você quer saber por quê?
    – Diga, Cidinha!
    – Porque ele não tem os olhos azuis como os dela.
    – Você quer dizer…

    Cidinha confirmou com a cabeça. Ela voltara a chorar.

    Dadá saiu correndo rumo ao quarto de Anair. Ajoelhou-se à beira da cama e pôs- se a lhe acariciar o rosto. Cidinha ajoelhou-se e o abraçou por trás. O silêncio que se seguiu só foi quebrado com o canto de um galo insone.

    Fabiano continuou a morar na mesma casa. A saída de Cidinha e de Anair para viver com Dadá lhe trouxe grandes dissabores. Chateado, intensificou sua presença no Refúgio do Amor de Mundinha Pedrosa; entregava-se à bebedeira e aos braços de Maria Ternura, que depois de muita insistência e de ser presenteada com uma pulseira de ouro, aceitou passar o resto de uma noite na casa do cativo cliente. Ele pediu que ela fizesse um café. Não tendo o pedido atendido, ele passou a ofendê-la.

    – Quem tu pensa que é, puta safada?
    – Tu tá me estranhando, Fabiano?
    – Estranhando? Tu não passa de uma rapariga desclassificada! Tu não serve nem para lamber as botas da Cidinha! Ela, sim, é uma mulher de respeito!
    – Fabiano, já deu! Tô indo embora!

    Ao levantar-se, Maria Ternura foi agarrada pelos cabelos e jogada ao chão.

    Fabiano pôs-se a flagelá-la com o fatídico cinto. Descarregou nas costas dela toda a sua frustação de homem abandonado pela mulher. Minutos depois, Mundinha e uma de suas meninas a apararam nos braços quando a viram adentrar cambaleante.

    Ao chegar ao Refúgio do Amor de Mundinha Pedrosa na noite seguinte, Fabiano foi recebido com alegria pela dona da casa. Ele perguntou por Maria Ternura.

    – Ela tá se arrumando.

    Fabiano se virou ao ouvir que fora um homem a lhe responder. Viu que era o soldado Brandão, temido pelos presos em face de seu sadismo. Assustou-se ao vê- lo caminhando em sua direção com o cassetete na mão.

   
– Covarde de uma figa, que só sabe bater em mulher, tu vai saber agora como é bom apanhar! – esbravejou Brandão.

    Fabiano não demorou a ir ao chão. Implorava que não o matasse. Jurava que nunca mais bateria em uma mulher. Ele não se dava conta de que seu grande erro fora bater numa mulher de muitos homens. Caído ao chão, balbuciou palavras inaudíveis, até ficar imóvel. O sangue escorria-lhe pelo nariz e pelos ouvidos.

    Cidinha foi procurada pelo delegado. Apesar das agruras sofridas, ficou triste ao saber que Fabiano havia morrido no cabaré ao brigar com um estranho que passava pela cidade.

    Outono.

    Sim, outono, mas estou proibido de ir lá fora e ver as folhas caindo. Imagino-as, porém. As folhas caindo… as folhas caindo… as folhas caindo nos jardins, nas ruas… entretanto, como disse, não posso vê-las, não posso pisá-las e nem posso fotografá-las como costumo fazer todos os anos.

    Outono.

    O tempo não para e logo chegará o inverno tossindo friagem para todos os lados. Virá nos abraçando e nos apertando com os dedos gélidos e endurecidos, arranhando nossos rostos, ferindo nossos olhos e enferrujando nossos ossos.

    Outono.

    Quase tudo parado.

    Agora, no quadro que assisto, surge uma garota atravessando a rua a puxar um cachorrinho.

    Um carro chegou, parou e aguarda o semáforo abrir para continuar. Nos meus olhos: a garota, o cachorro e o carro. O céu com algumas de nuvens. Eu olhando pela janela. Nada mais neste instante. Eu olhando pela janela. Há dias que não chove e o nariz coça. Os olhos, às vezes, lacrimejam. Eu olhando pela janela. Há dias que não saio de casa… eu olhando pela janela, olhando pela janela, olhando pela janela…

    A menina chega ao outro lado da rua e começa a caminhar pela calçada.

    O cachorrinho late e brinca com os arbustos ao redor. Balança o rabo alheio aos problemas do mundo. Ergue a perna e faz xixi num poste.

    A coisa anda feia no mundo. As notícias entram pela boca dos meus ouvidos ou pela porta dos meus olhos por meio da internet, da TV, do rádio… Por enquanto, nada de bom. É a tal da pandemia. O Covid-19. Tento entender. Tento entender a doença. Tento entender as mortes. Tento entender a quarentena. Quarentena?… Eu estou cumprindo a minha quarentena. Não sei se os outros estão. Não sei o que acontece nos outros pontos da cidade.

    Daqui onde estou não posso ver a cidade toda. Minha visão é limitada ao pequeno espaço da minha janela. Durante os dias tenho visto poucas pessoas caminhando pelas calçadas. Às vezes, muitos carros. Nesta tarde de domingo, por exemplo, o movimento está bem tranquilo.

    As pessoas que normalmente iriam se trancar à noite em casa, daqui um mês mais ou menos, comendo pinhão e bebendo vinho, com largos cobertores sobre as pernas, ao lado dos aquecedores ou das lareiras, já estão fazendo isto. Estão obrigadas a ficar em casa, presas em seus lares durante a noite, e durante o dia também. Não pelo frio, mas pelo conselho dos médicos e das autoridades locais. Ficar em casa. É o que resta fazer. Não há outro meio: agora é se recolher ou sair e se infectar com este tormento arrepiado que veio para tirar o sossego de todos.

    A confusão é geral.

    Foi tudo muito rápido – um raio, um foguete.

    Surgiu e tomou conta.

O vírus letal chegou e anda solto por aí, dando risadas da nossa fraqueza, mais livre do que uma pandorga em tempo de vento brando. Pequenino, arisco e violento. Chegou sem dar aviso. Infelizmente é assim. Não tenho como dizer o contrário. É o mal que hoje assola o mundo.

    É como se fora o terror descido à Terra numa espaçonave extraterrestre para disseminar o medo e a solidão entre os homens. Os monstrinhos selvagens e perversos estão soltos por todos os lados. Basta abrir a boca com descuido para o diabinho se alvoroçar, entrar e se sentir o dono do pedaço.

    Quando entra – é difícil de sair. Quando entra – às vezes nunca mais sai.

    Por todos os cantos: da China aos Estados Unidos, da França à Alemanha, de Portugal ao Brasil, da Índia à Rússia – em todos os lugares, em todos os cantos… as pessoas estão encolhidas, acabrunhadas e assustadas.

    O que fazer?

    Ora, seria este um sinal dos tempos? A quebra apocalíptica dos Sete Selos? As trombetas dos Sete Anjos? O monstro que subiu do mar com dez chifres e sete cabeças? A queda da grande Babilônia?…

    Seria?

    Teria Nostradamus profetizado algo nesse sentido?

    Oh!… quem me dera poder dizer alguma coisa com segurança. Mas, infelizmente, nada sei. E de religiões, ou de Nostradamus, ou de qualquer crença, profeta ou vidente, posso afirmar que sei menos ainda. Respeito a todos. Mas que a situação está meio complicada, isto realmente não posso negar. Todos estão vendo.

    Não sei de onde vim nem sei para onde vou. Sei que aqui estou. Estou. Sim. Aqui e agora. E quando deixarei de estar também não sei. Nem me importa isto. Pode ser hoje, amanhã ou depois de amanhã. Ontem com certeza não será, jamais. O ontem já morreu e foi enterrado.

    Com tantas coisas acontecendo pelo mundo, tudo muito rápido e sem muita explicação, a gente fica batendo a cabeça, sem saber de nada, olhando pela janela e vendo a rua silenciosa… completamente diferente de alguns meses atrás, quando tudo era festa e não sabíamos.

    Estou no meu apartamento olhando o movimento. Fico horas por aqui, no quadro da janela. Aguardo.

    Aumentou o fluxo de veículos na rua, mas a garotinha com o cachorro, no momento, é a única pessoa que vejo a caminhar.

    De vez em quando aparece um ou outro andante apressado. Porém, nem sempre é assim. Há dias em que o movimento de pessoas aumenta muito. Uns com máscaras, outros não.

    Agora, a garota e o cachorrinho. Os carros.

    Apesar de ser um número bem menor do que antigamente, ainda assim é muito. Numa tarde de domingo, aonde estarão indo esses veículos? O mundo não para mesmo. Para que tantos carros circulando quando se pede o contrário, quando se pede o isolamento social, quando se pede uma quarentena?

    Dizem que só assim para vencer o vírus. Só com o isolamento. Por enquanto, nenhum remédio eficaz.

    A menina está de máscara e caminha alegre com seu cão. Parece que não está preocupada.

    Da janela observo para ver o que acontece. Não acontece nada. Uma paisagem calada.

    Tenho vontade de descer lá em baixo e mudar tudo. Colocar mais um indivíduo na cena. Movimentar o roteiro. Mas é preferível não. Sou do grupo de risco. Minha idade pesa. Se as autoridades sanitárias estão dizendo para ficar em casa, o melhor mesmo é ficar em casa. Para que arriscar?

    Não tenho nada que fazer lá.

    De vez em quando, desço até a portaria do prédio para receber os produtos que adquiro no mercadinho aqui perto. Eles fazem a entrega em domicílio. Vou lá, digo bom-dia ao porteiro, ao entregador, pego minhas compras e retorno rapidamente para a gaiola. Tomo os maiores cuidados. Lavo as minhas mãos, lavo os produtos adquiridos, tiro a máscara, lavo as minhas mãos… a rotina orientada de sempre.

    Inacreditável, mas hoje em dia, com esta situação, o ser humano está se assustando com o próprio ser humano. Queremos distância uns dos outros. Quando vemos alguém se aproximar, fugimos rapidamente como o rato foge do gato, como o gato foge do cão. Pura necessidade, infelizmente. Nada de apertos de mãos, nada de abraços, beijos, nada de aproximação. Quanto mais longe, melhor.

    Sei que, lá fora, as folhas de outono estão atapetando o chão. Colorindo o solo de amarelo, de branco, de vermelho… Outono é a primavera ao contrário, pois, se o colorido da primavera é vida, o colorido do outono é belo, porém, desfalecido e murcho.

    São as belas folhas mortas da estação.

    Gostaria de estar lá em baixo, curtindo bem de perto essas imagens. Fotografando-as. Isto, fotografando-as, como sempre gostei de fazer.

    Na minha cidade, que fica próximo à serra, no outono é bem visível este fenômeno. O clima daqui é quase o da serra – uma das cidades mais frias deste país tão quente.

    Daqui de cima não posso ver as folhas do outono atapetando as calçadas, os parques, as ruas e avenidas. Não posso sair do meu confinamento e passear como antes passeava, sem nenhuma restrição, andando descontraído pelas ruas centrais, vendo e ouvindo os artistas de rua com as suas mirabolantes atividades circenses ou com as suas músicas cantadas de improviso.

    Não posso.

    Aqui, no meu canteiro, o vento outonal começa a se tornar frio e sem graça, pelo menos para mim que gosto da tepidez do verão e das flores sorridentes de setembro a novembro, passando alegremente pelo sol de dezembro até abril.

    Este país é quente, cheio de luz, de praias, de repentistas e de cantores. O povo faz carnaval e brinca. Eu sou mais reservado e sempre fico na minha. Nos momentos em que o nada me atrapalha busco uma doce melodia e rebato com isso a tristeza que tenta mordiscar e ferir minhas entranhas.

    Estou confinado em minha própria casa, no meu apartamento no décimo andar, no centro da cidade. A janela da sala é a minha licença de liberdade, e, quando fico cansado de olhar por ela, também têm as janelas dos quartos, lá nos fundos.

    De um lado, pela janela da sala, vejo a sede da prefeitura com as bandeiras do Município, do Estado e do País esvoaçando ao tempo. Do outro lado, nos fundos, um grande estacionamento de veículos, alguns edifícios envelhecidos e uma rua que se dirige aos bairros mais distantes do centro.

    Tudo quieto.

    Apesar dos alertas, há gente teimosa e desobediente.

    Vejo as notícias do país e do mundo: pessoas se aglomerando nas filas de bancos, nos supermercados, nas praças, nos bares, nas ruas. Aqui mesmo, às vezes, vejo várias pessoas passando sem nenhum cuidado. Durante a semana, uma grande quantidade de veículos.

    Não adiantam as informações catastróficas – o número de doentes, a falta de leitos nos hospitais, o número de mortos… Não estão nem aí. Uns usando máscaras, outros não. Uns se cuidando, outros não. Céus… que confusão! Onde estamos? Parece até uma brincadeira… porém, uma brincadeira de mal gosto.

    O novo coronavírus anda solto pela Terra.

    Muitas pessoas preocupadas e muitas pessoas despreocupadas. Mas fazer o quê? Cada um é cada um.

    Meu apartamento fica próximo da região administrativa da cidade. Um ponto nevrálgico. Centro de pequenas e grandes decisões e, junto, de vez em quando, algumas confusões. Em tempos normais, este local é repleto de movimento: carros que não param, pessoas caminhando para cima e para baixo e, muitas vezes, manifestações populares de vários tipos.

    Neste tempo de reflexões, mastigo o amargo da vida pensando em coisas que jamais pensaria em outros momentos. Vejo o passado cheio de peripécias, paro no presente cheio de dúvidas, mas sem demora cavalgo entusiasmado no futuro.

    Estamos vivendo um momento onde as mazelas do mundo estão vindo à tona com uma clareza sem igual. Claras como uma manhã clara de sol. Sem subterfúgios. Mas com certeza, a humanidade vencerá mais esta, partindo sempre para melhor, em benefício de tudo e de todos.

    Para fugir dos pensamentos amargos, abraço uma leitura leve. Sêneca me satisfaz. Em momentos como este é preciso repousar um pouco no colchão do estoicismo. É por isso que não me queixo e nem reclamo de nada. Não sou estoico, mas não reclamo e nem reclamarei do que aconteceu, acontece ou acontecerá. Apenas observo e penso.

    Nestes tempos difíceis, tudo que vier matarei no peito como se fora, num jogo de futebol, uma pelota amaciada com a arte e a destreza de um grande jogador. E sairei driblando a zaga com a agilidade de um mestre, para, no final, perdido no delírio mágico da torcida, arremessar a bola contra o fundo das redes e ver o povo em frenesi a gritar: Gol! Gol! Gol!…

    Como disse, não reclamarei de nada. Vou jogar a melhor partida da minha vida sem me preocupar com as dores das contusões.

    Se não sei de onde vim nem para onde vou, uma certeza tenho: estou. E, estando, vou deixar também de me preocupar por saber quando é que deixarei de estar. É assunto que não me compete.

    Querer é uma coisa, poder é outra. Eu bem que gostaria de estar lá fora, contudo não posso. Serei, por isto, obrigado a me sentir eternamente preso e isolado? Não. Nada disso. Estou na gaiola, todavia sou um pássaro livre. Não posso sair de casa, mas cultivo sonhos. E quem sonha nunca está preso ou só. Quem sonha pode viajar, conhecer outras plagas, ver outras paisagens, em suma, pode até mesmo voar… voar… e voar.

    Desse modo, mesmo daqui da minha pequenina janela, em alguns momentos posso estender minha vista para todo o universo, ou até além dele. Posso me sentir uma criança e rolar nas folhas da estação – as folhas de outono! Ninguém pode me impedir. O isolamento social não pode amordaçar a minha imaginação.

    Assim, sem sair da sala, no meu tapete mágico, posso visitar Paris, posso caminhar pela Itália, posso andar pela Espanha, posso tomar um gostoso cafezinho em Manhattan, posso passear pela Grécia, posso ler, posso assistir filmes espetaculares, posso abraçar os girassóis, posso beijar as flores, posso andar pelos campos, posso sobrevoar os Andes, posso navegar pelos mares, posso me transportar até a Muralha da China, e posso, por fim, chegar aos confins do mundo, aos lugares onde nunca ninguém jamais imaginou chegar.

    Posso ou não posso sonhar? Cometo algum pecado? Prejudico alguém em pensar assim?

    Mas voltemos à realidade.

    Falta uma droga eficiente para acabar com a doença maléfica. Os hospitais estão lotados e não param de chegar doentes. Em todo lugar. Já ouvi falar em desenvolvimento de vacinas na China, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha, na Rússia, em Israel, em muitos outros países. Muitas vacinas. Estudos avançados. Torço pelos cientistas, pelos médicos, pelos enfermeiros, entretanto acho que ainda há chão para ser andado. Tomara que não. Tomara que a solução venha rápida para extirpar logo este doloroso flagelo.

    Outono.

    Brevemente, o inverno. Seja em qualquer estação do ano, estarei sempre aqui, firme como nunca. Uma rocha. Estarei ou no meu apartamento, na minha janela da sala, olhando para a rua muitas vezes morta ou, quiçá (e que os deuses digam amém!), novamente caminhando pelas ruas vivas, sorrindo junto com os cidadãos do mundo, jogando conversa fora, cumprimentando e esbarrando sem medo (e sem máscara) nas pessoas felizes do meu bairro, da minha cidade…

    Outono.

    Olho pela janela. A garota que puxava o cachorrinho foi embora. Os carros também se foram. Agora, por exemplo, a rua está vazia. O domingo está se acabando aos poucos. Não resta mais nada, a não ser a tarde que vai caindo, dando lugar à boca escura da noite.

    Tudo deserto.

    O domingo está indo embora. De vez em quando uma sirene ao longe. Daqui a pouco virão as estrelas e deixarão o firmamento todo enfeitado, como uma árvore de Natal no presépio da vida. Tomara que as nuvens não tapem tudo como quase sempre acontece por aqui.

    A Terra começa a repousar ouvindo o lamento dos filhos. Mas o homem trabalha. O homem não para nem desanima. Capta os detalhes nos tubos de ensaio e estuda para derrotar o monstrinho avassalador. É tudo questão de tempo. Logo as notícias alvissareiras tomarão as manchetes dos jornais, as notícias da televisão, e o sorriso invadirá novamente a face de todos. E deixaremos de computar os mortos para computar as vidas. Então…

… então, os músicos e os cantores abandonarão as janelas para se apresentarem nos palcos verdadeiros; os poetas soltarão seus versos para acariciar as emoções e curar as dores profundas; os teatros e os cinemas abrirão suas portas e encherão de estrelas as telas dos sonhos; as crianças, em festa e sem receio, invadirão novamente as praças públicas e os pátios dos colégios; as pessoas entrarão sem medo nos coletivos; as fábricas e o comércio abrirão suas portas para vender suas artes e ilusões…

    Outono.

    Sim, outono, mas estou proibido de ver as folhas caindo. Imagino-as, porém. As folhas caindo… caindo… caindo… Logo chegará o inverno tossindo friagem para todos os lados. Virá nos abraçando e nos apertando com os dedos gélidos e endurecidos, arranhando nossos rostos, ferindo nossos olhos e enferrujando nossos ossos.

    As notícias que sei são tristes. As notícias que sei são tristes demais. As notícias são tristes, sim; porém, com certeza, as folhas de outono, que hoje estão se debulhando pelo chão, em breve adubarão o solo do inverno, abrindo as portas para que as flores da primavera anunciem à terra a chegada de um forte, bonito e alegre verão.

    Aguardarei, com cuidado e atenção, a mudança das estações. Sei que tudo passa. E esta situação também passará. No ano que vem, sem dúvida nenhuma, com muito vigor, estarei lá embaixo vendo, pisando e fotografando as folhas coloridas… de um novo tempo.

Isaías acarinhou, com a mão trêmula e enrugada, dos seus oitenta e oito anos, o cabelo liso e sedoso do bisneto. Vagueou o olhar pelo quarto e fixou-o em um ponto indefinido pela parte aberta da janela, por onde os raios da lua penetravam, dando claridade ao ambiente. Lá fora, a brisa fresca da quadra chuvosa soprava de mansinho, trazendo consigo a fragrância úmida do orvalho noturno, temperada com os aromas generosamente exalados do jardim de roseiras variadas.

– Bivô, conte uma história para eu dormir.

A voz do pequeno André fez Isaías sair da introspecção em que mergulhara. Voltou a atenção para o menino e deixou que discreta lágrima escorresse pelo canto do olho. Os homens da sua geração tinham dificuldade em demonstrar afeto e delicadeza, mesmo para uma criança, pelo estigma de que tais expressões estavam reservadas às mulheres. Esboçou leve sorriso nos olhos e pensou: “Pelo menos essa pandemia me está servindo para alguma coisa que de outra forma me privaria.” Fitou o menino com o mais doce olhar de que era capaz e anuiu:

– Está bem, vou contar. Preste bem atenção, esta é uma história verdadeira, de um homem que não soube viver.

– Esse homem era mau?

– Bem, a definição de mau ou de bom, de certo ou de errado não é tão simples…

– Mas papai e mamãe sempre me ensinam o que é bom, pelo menos é o que eles dizem. Eles estão errados?

Isaías percebeu que apesar da pouca idade, o bisneto o colocava em situação delicada, preferiu sair pela tangente:

– Vamos fazer o seguinte: eu conto a história e depois você me diz se no seu entendimento o homem era bom ou mau, pode ser?

– Pode.

– Era uma vez…

– Era uma vez, bivô? Mas o senhor não disse que a história era real?

Isaías sorriu.

– Está bem, vou mudar o início da história. Preste bem atenção.

O garoto se ajeitou na cama, todo coberto, deixando apenas a cabeça de fora e cravou os olhos no bisavô que se sentara ao seu lado.

– A nossa história se passou há muito tempo e nosso personagem principal se chamava Melquíades. Tratava-se de um jovem bem-apessoado, único filho homem de um casal de agricultores, donos de um pequeno sítio no qual cultivavam feijão, milho, arroz e algodão, além de criar algumas cabeças de gado. Seus pais haviam decidido que ele não ficaria nas lidas do campo, queriam-no doutor. Aos seis anos o menino se mudou para a casa dos avós maternos para se dedicar aos estudos, mas a cidade, naquele tempo, mesmo sendo a segunda do Estado, não contava com ensino superior. Terminado o curso científico, aos dezoito anos, o rapazote, influenciado por alguns amigos, e de olho em um bom salário, prestou concurso para escriturário de um grande banco e foi aprovado. Com a folga no bolso e perspectivas de ascensão, Melquíades foi postergando a decisão de se mudar para a capital e prestar vestibular: não tinha pressa. Por um lado, os pais se mostravam felizes, vendo o filho em um bom emprego, mas por outro, amargavam, em silêncio, a decepção de não o ver com um anel de doutor no dedo e um diploma com moldura dourada pendurado na parede. O tempo foi passando e Melquíades esqueceu em definitivo o projeto de se formar. Inteligente, afeito aos números, e bem articulado, galgou postos no banco até se tornar subgerente. Mas o cargo exigiu pequeno sacrifício: mudar-se para outra cidade, distante da família.

Melquíades partiu com o coração sangrando, mas não podia perder aquela oportunidade, além do considerável aumento salarial, a nova função representava status e a certeza de que em breve seria contemplado com uma gerência-geral, cargo tido como objeto do desejo entre dez em cada dez bancários.

Não tardou muito e eis que a bendita oportunidade lhe sorriu, com o gerente- geral sendo transferido para outra cidade. Mas Melquíades foi preterido, em seu lugar foi nomeado um apadrinhado do prefeito local. Revoltado…

– Espere bivô, eu conto o resto.

– E você conhece essa história? Acho que não, ela é verdadeira…

– Conheço sim. Escute: revoltado, por não ter sido nomeado gerente-geral, Melquíades arquitetou um plano para roubar o banco. Na qualidade de subgerente, detinha as chaves do cofre, enquanto o gerente-geral ficava com o segredo. Ardiloso e cego de despeito, se julgando injustiçado, Melquíades, aproveitando um descuido do detentor do segredo do cofre, conseguiu decorá-lo, ficando de posse dos dois instrumentos de segurança. Esperou a oportunidade certa e em um fim de semana, com o cofre abarrotado de dinheiro, durante a madrugada, se esgueirou pelas sombras da noite, entrou pela porta dos fundos do banco, da qual também tinha a chave, e com todo cuidado para não fazer barulho e acordar o segurança que dormia sossegado na guarita, foi até o cofre, abriu e surrupiou todo o dinheiro, uma pequena fortuna que recolheu em dois sacos.

Na segunda-feira a estupefação foi geral: o cofre estava intacto, mas vazio. O enigma intrigou a cidade e as autoridades policiais que caíram em campo para investigar. Por semanas o caso foi o assunto mais comentado. A suspeita inicial era de um conluio entre Melquíades e o gerente. Os dois foram interrogados, o gerente apresentou álibi convincente, não estava na cidade no dia do roubo e sozinho Melquíades não podia abrir o cofre: caso insolúvel. Mas o banco demitiu os dois, por via das dívidas.

O plano parecia perfeito. O ladrão tomara todos os cuidados, usara luvas para não deixar impressões digitais e colara uma fita adesiva no solado dos sapatos, restando em vão todos os esforços da perícia para colher vestígios que pudessem denunciar o criminoso. O dinheiro nunca foi encontrado e o ladrão nunca foi descoberto, mas Melquíades amargou um triste fim, ao ser acometido de alucinações em pesadelos tenebrosos, nos quais se via sendo desmascarado pela polícia. Terminou seus dias em um hospício, como louco.

Isaías olhava abismado para o bisneto. Sim, de fato, a história era aquela mesmo, mas como ele sabia?

André fitou o bisavô com os olhos marejados e confidenciou:

– Bivô, o Melquíades sou eu!

– Como assim meu filho? O Melquíades morreu faz mais de trinta anos, como pode você ser ele?

– Eu sou bivô, recordei-me de tudo, quando o senhor começou a contar a história. Sei também que o roubo só foi esclarecido muito depois da minha morte, quando demoliram a casa onde eu morava e escondi parte do dinheiro e um pequeno diário com todos os detalhes.

– Mas o que me diz você? Como pode isso?

– É a vida bivô! Vamos e voltamos em busca do aprimoramento, o senhor não sabia?

Incrédulo, Isaías abraçou o bisneto soluçando: Melquíades era seu filho.

Menção honrosa

    Fortaleza, setembro de 1973. Raimundo estava feliz; as coisas iam de vento em popa. A Nordeste Confecções, sua fábrica de roupas masculinas, operava em toda sua capacidade produtiva. Ainda em agosto deixara de receber novos pedidos. Soubera planejar bem, de modo que até meados de novembro entregaria todos os pedidos; os clientes estariam, assim, com seus estoques abastecidos para o Natal, que, como acontecia em todo B-r-o-bró, se aproximava a passos galopantes.

    Raimundo tinha um motivo a mais para seus sorrisos espontâneos: a loja, que tanto planejara abrir, estava enfim concluída; logo seria inaugurada. Ele sempre sonhara em ter uma loja no Centro que lhes permitisse vender, de forma exclusiva, o que produzia na fábrica.

    Antes de dar início à realização de seu sonho, ele teve o cuidado de conversar com seus clientes de Fortaleza; afinal, iria ser mais um varejista concorrente na praça. Ficou muito satisfeito ao receber sinal verde de todos os consultados. Pediram-lhe apenas que procurasse evitar a prática de dumping. E até se alegraram com a possibilidade de ter Raimundo como mais um integrante do Clube de Diretores Lojistas.

    No final de setembro, Raimundo incumbiu dona Ileana, a chefe do Departamento de Recursos Humanos da fábrica, de proceder à seleção dos futuros empregados da loja: cinco vendedores, um gerente e um caixa. Como a inauguração havia sido marcada para o dia 05 de novembro, uma segunda-feira, dona Ileana se apressou para dar cumprimento à tarefa que lhe fora confiada. Instituiu uma comissão com três membros, tendo ela por coordenadora; um edital foi elaborado e publicado, durante três dias, nos três jornais de maior circulação na capital: O Povo, Tribuna do Ceará e Correio do Ceará. Apareceram 173 candidatos. O processo de seleção se compunha de duas fases. A primeira, uma prova abordando português (que se resumia a uma carta que cada concorrente deveria escrever para empresa, explicando os motivos que o levara a pleitear o emprego para o qual se inscrevera) e matemática (envolvendo as quatro operações fundamentais, acrescidas de uma questão envolvendo juros simples). Na primeira etapa, foi selecionado o triplo de candidatos para cada número de vagas. Esse grupo participou então da entrevista, que foi conduzida pela comissão.

    Uma semana antes do dia previsto para a inauguração, a diligente dona Ileana estava na sala de reunião da empresa, apresentando ao patrão os sete selecionados.

    Raimundo adentrou a sala de reuniões com um sorriso de homem realizado, mas logo fechou a cara. Pouco falou. Ao final da reunião, pediu à dona Ileana que o acompanhasse até a sua sala.

    Ela estava preocupada com a cara de poucos amigos do patrão, que a fitava em silêncio, depois de se aboletar em sua cadeira giratória. Ela o conhecia muito bem. O silêncio momentâneo, o cotovelo sobre a mesa, com o queixo apoiado sobre o punho fechado, era um evidente sinal de que ele não gostara de algo.

    – Há alguma coisa de errado, seu Raimundo? O senhor acha que cometemos alguma falha no processo de seleção do pessoal?

    – Humm! – o som gutural saiu preguiçosamente da garganta do patrão.

    – Se o senhor não gostou de alguma coisa, fale! Talvez ainda possamos consertar.

    – Dona Ileana, a senhora já viu a beleza que ficou a loja? Toda moderna; dá gosto ver o piso, os balcões, as prateleiras de madeira, as luminárias, as vitrines, o letreiro! As pessoas que foram até lá dar uma expiada telefonaram para mim; elas foram unânimes em afirmar que a minha loja será como uma grande árvore de Natal a embelezar Fortaleza o ano inteiro.

    – Eu estou ciente disso, seu Raimundo. De fato, a loja ficou muito bonita.

    – Como é nome mesmo do gerente que a senhora selecionou?

    – Antônio Benedito… Antônio Benedito da Silva.

    – A senhora acha então que o Antônio Benedito da Silva é a pessoa certa para ser o gerente? O responsável pela condução do negócio? Aquele que deverá trazer no rosto e na fala a expressão da alma de minha loja?

    – Claro que acho! Ou melhor, eu tenho certeza! Dentre todos os candidatos, foi ele quem se apresentou com mais qualificação para o cargo. Além da boa experiência, ele tem um excelente currículo. O senhor sabia que ele tem o curso técnico de Contabilidade? Ele sabe falar, é articulado…

    – Mas é um negro, dona Ileana! – vociferou o patrão.

    – E o que tem isso a ver?

    – O que tem isso a ver?! Dona Ileana, com a senhora deve saber, eu não sou racista; acho até que tem negro melhor de que branco, mas, para a imagem de minha loja, uma pessoa mais apresentável combina melhor.

    – Mas o senhor Benedito tem boa aparência.

    – Não se faça de desentendida, dona Ileana!

    – Que justificativa então eu darei a ele para não contratá-lo? Eu não sei como fazê-lo. Ele é uma pessoa inteligente, de modo que não terá dificuldade em ver o que realmente estará por trás de sua não contratação – argumentou dona Ileana, mais indignada com a atitude do patrão do que preocupada com a reação de Benedito.

    – Contrate ele para trabalhar aqui na fábrica, junto com a senhora. O salário é menor, mas ele acabará aceitando.

    – Posso oferecer a ele uma vaga de vendedor?

    – Não! – gritou o patrão.

    Dona Ileana estava certa. Por mais que ela tenha tentado escamotear o que se passava, Benedito viu com clareza solar a verdade dos fatos. De alma ferida, mas abarrotada de dignidade, rejeitou terminantemente o emprego alternativo que lhe fora oferecido de forma vil.

    – Negro burro e orgulhoso – disse Raimundo, ao saber da rejeição.

    As décadas de 70 e 80 foram de muito ganho para Raimundo; suas atividades fabril e varejista de roupa masculina andavam sem atropelos. Sentia-se ele um homem realizado nos negócios e na vida pessoal. Com a esposa, Josefa, tivera um casal de filhos. Ao filho homem deu seu próprio nome: Raimundo Filho; à filha deu o nome da mãe de Jesus e da sua própria mãe: Maria Filomena. Estava certo que seria um bom espelho para os filhos, que ainda eram crianças, mas logo se tornariam adultos vencedores.

    Quando a década de 90 chegava ao fim, a felicidade e o sossego Raimundo trocaram as alianças de dedo e puseram-se de porta afora em busca de outra morada. Forçado pela concorrência chinesa, Raimundo viu seu negócio minguar. Em pouco tempo, foi obrigado a fechar a fábrica. Sua loja passou a ser multimarca. Mas, com o aparecimento dos grandes shoppings centers, o Centro se viu em volta com um processo de popularização; dali, saíram em direção a bairros dinâmicos as lojas conceituadas e os serviços autônomos mais qualificados. Choroso, ele teve que baixar, pela última vez, as portas da loja.

    Raimundo de repente viu seu horizonte mudar de cor. O azul cedera lugar ao cinzento. Para oferecer o mínimo de conforto à família, pôs-se à busca de outras oportunidades. Enveredou para o ramo de material de construção. Para se capitalizar, vendeu sua casa de morada, prometendo à esposa que logo compraria outra; mas, sem deter a devida expertise no ramo, não demorou a ver o novo empreendimento minguar. Sem capital, enveredou para o setor de prestação de serviços. Vislumbrou que poderia vir a ser um pracista de sucesso de qualquer produto relacionado à indústria de confecção. Foi atrás da ajuda dos comerciantes outrora parceiros, para se tornar um representante de qualquer produto que fosse relacionado ao ramo de confecções. Cheio de esperança ficou quando conseguiu, com a interveniência de um amigo, uma entrevista com um grande fornecedor de tecidos de São Paulo. Viajou com pouca roupa na mala e muita esperança na alma. Antes, postou nos Correios um currículo. Ansioso, chegou antes da hora marcada ao gabinete do empresário paulista.

    – Você quer uma água e um café, meu caro Raimundo? – indagou o empresário.

    – Aceito, sim, doutor Rodrigues.

    – Eu queria lhe dizer, meu caro, que estou recebendo você em razão do pedido de meu grande amigo e cliente José Abraão. Só ontem foi que recebi seu currículo. Eu o encaminhei ao Departamento de Vendas. Pelo que vi o senhor acabou de completar 58 anos. É uma bela idade, meu caro!

    – O senhor está certo, doutor Rodrigues. Eu me sinto com vigor e com muita disposição para o trabalho.

    – Meu caro Raimundo, esta grande empresa foi criada pelo meu pai, que a passou para mim há quarenta anos. Dei a ela uma grande contribuição; nesses anos, eu fiz com que o seu volume de produção se multiplicasse e se diversificasse assustadoramente. Hoje, são os meus dois filhos que estão à frente de sua administração. Eles estão reestruturando tudo por aqui, inclusive a política empresarial. Eles acreditam, entre outras coisas, que o dinamismo dos negócios está no que é novo, na juventude.

    – Mas é com a idade que se adquire sabedoria – retrucou Raimundo, já desconfiando aonde a conversa iria dar.

    – Concordo com você, meu caro, mas eles acham que o assento da
sabedoria está no fórum de aconselhamento e não na execução. Hoje sou o presidente do Conselho Administração, cuja função é apenas deliberar. A execução fica por conta deles. Infelizmente o que tenho a lhe dizer, meu caro, é que infelizmente a sua idade está fora do perfil exigido aos nossos representantes comerciais.

    – Mas, doutor Rodrigues, eu acho que…

    – Eu sinto muito, meu caro. Peço que não insista e que me dê licença, pois ainda tenho uma imensidão de coisas a fazer nesta manhã chuvosa.

    Raimundo saiu daquele ringue quase nocauteado. Dizia impropérios, chateado com o que acabara de ouvir e com a chuva fina que caía preguiçosamente. Saiu dali com a intenção de visitar duas fábricas, das quais sua empresa havia sido uma grande compradora. Em ambas não conseguir falar com os diretores. Na última, quando já se dirigia à porta de saída, ouviu o que dizia a secretária ao diretor-presidente pelo interfone:

    – O baiano acabou de sair.

    – Eu não sou baiano, sou cearense! – bradou Raimundo, depois de retornar apressadamente e encarar a secretária.

    – Ah, não?! Tudo é a mesma coisa, meu senhor! Vocês nordestinos, com esse sotaque horroroso, vivem sempre atrás de pedir alguma coisa.
Ao ver o riso silencioso e debochado na cara de três homens e de uma mulher que aguardavam para ser recebidos pelo empresário, ele sentiu-se pequeno e perturbador como uma mosca.

    Como um soldado vencido em batalha, Raimundo retornou a Fortaleza. A alma, que levara cheia de esperança, trazia apenas ferimentos. Amargurado, não sabia o que dizer à esposa e aos filhos.

    Dezembro logo chegaria, e com ele o Natal. Fazia mais de quatro meses que fechara o depósito de construção. Nesse tempo, “não” havia sido a palavra que mais escutara. Se pudesse, ele riscaria essa palavra de todos os léxicos do mundo.

    Sem saída e desesperado, depois de aconselhado pela esposa, foi pedir emprego ao amigo José Abraão. O amigo não o recebeu; alegou que estava muito ocupado. Mandou que um assessor o recebesse. Resignado e acabrunhado, Raimundo se deu conta de que em seus bolsos vazios não mais caberia aquela amizade.

    – Na verdade, eu queria pedir ao Zé Abraão uma oportunidade para ajudá-lo com minha grande experiência de empresário do ramo de confecções – disse ao ser indagado pelo assessor a razão da audiência solicitada.

    O assessor pediu que o aguardasse um pouco. Voltou a entrar na sala da Presidência e retornou logo em seguida.

    – O doutor José Abraão disse que eu encaminhasse o senhor à nossa loja da rua Floriano Peixoto. Lá, o senhor vai procurar o gerente. Ele adotará todas as providências para que o senhor ingresse em nossos quadros como vendedor. Certamente o senhor ganhará um bom dinheiro em comissões, já que estamos em dezembro.

    De orgulho ferido, Raimundo foi para casa. Através da janela do coletivo, observava a movimentação dos carros e das pessoas. Sentia-se estranho a todos e a tudo. De alma vazia, via-se sem lugar naquele mundo. Ao chegar a casa, falou de sua decepção, da frieza de Jose Abraão, do emprego aviltante oferecido e de sua disposição em não o aceitar.

    – Aceite, Raimundo! Os nossos filhos ainda são adolescentes; eles precisam da gente. As coisas são assim mesmo. Não esqueça que o mundo é redondo. Quem sabe se, caminhando em frente, não chegaremos ao lugar em que estivemos!

    No dia seguinte, muito cedo, Raimundo chegou à loja; e, conforme lhe instruíra o assessor, procurou o gerente. Sentado em uma cadeira, ele esperou por dez minutos para ser atendido. Ao adentar a pequena sala da Gerência, ele foi recebido com um receptível sorriso claro.

    – Seja bem-vindo! Desde ontem à tarde, eu estou esperando pelo senhor! O assessor do seu José Abraão me telefonou para avisar que o senhor estava vindo para cá.

    – O senhor é o gerente? – perguntou Raimundo.

    – Sim, eu sou o gerente. O senhor poderia me dar a sua identidade, a sua carteira de trabalho e a abreugrafia para eu enviá-los ao Departamento Pessoal. O seu contrato de trabalho será elaborado imediatamente.

    Raimundo disse que não sabia que a entrega de abreugrafia seria necessária, mas se comprometeu a providenciá-la naquele mesmo dia.

    – Sem problemas, seu Raimundo, o senhor poderá deixar para vir só amanhã. O senhor está bem? Será uma grande honra tê-lo ao meu lado.

    As palavras amáveis do gerente, sempre acompanhadas de um sorriso, vinham como um refrigério para alma amargurada de Raimundo. Pela primeira vez, depois de sua derrocada, uma pessoa, além de sua esposa e de seus filhos, devotava-lhe carinho e um tratamento respeitoso. Aquele rapaz se mostrava muito diferente das pessoas que o trataram com desprezo em razão de etarismo, origem geográfica e situação financeira. A ternura do gerente trazia-lhe leveza à alma.

    – Não sei se serei um bom vendedor – disse Raimundo.

    – Se o senhor será um bom vendedor, talvez eu não venha saber; o que sei, com muita certeza, é que o senhor será muito útil como meu subgerente.

    – Eu fico muito agradecido, seu Dite. Me desculpe, mas é assim que todos daqui chamam o senhor, não é?

    – Isso mesmo, seu Raimundo. Mas o senhor não precisa me chamar de senhor. E a dona Ileana, o senhor tem tido notícias dela?

    – O quê?! Você conhece… a dona… Ileana? Ah, agora estou me lembrando de você. Meu Deus! Foi você o selecionado para gerenciar minha loja. Como é mesmo o seu nome?

    – Antônio Benedito… Antônio Benedito da Silva.

    José Aristides Nunes, que um dia adotaria o pseudônimo de Aristeu, forçado pelas circunstâncias e pelo apego que tinha à vida e à liberdade, nasceu no dia 7 de maio do ano de 1928 numa fazenda de Pau dos Ferros, no oeste potiguar, já na divisa com o Ceará, e ali viveu sua adolescência. Com 17 anos, já perto de completar 18, foi obrigado pelo pai a ir morar em Natal, na casa de uma tia materna, que enviuvara muito cedo e que tivera apenas uma filha. O pai queria vê-lo formado em Medicina. Quando partiu para a capital, Tide – pois era assim que era chamado por todos os que o conhecia – o fez com o coração partido. A mãe e a irmã, de apenas 6 anos, agarraram-se a ele aos prantos como se quisessem impedi-lo de ir para as linhas de frente da sinistra Segunda Guerra Mundial, da qual tanto ouviam falar.

    A casa da tia ficava no Tirol. Nas manhãs dos sábados e dos domingos, para a preocupação dela, não arredava pé das praias da Areia Preta, do Meio e do Forte. Sentava-se na areia quente e ficava a observar, sem nenhuma discrição, o vai e vem das jovens. Ao completar 18 anos, sentiu-se dono do próprio nariz. Passou a frequentar, aos sábados, a casa de Maria Boa, na Ribeira, bem próximo à igreja do Bom Jesus. Ali fez amizade com Brian, um jovem militar americano sediado em Parnamirim, que, à semelhança de vários companheiros de farda, era um cliente habitual daquela casa em que proliferavam coca-colas¹ à procura de americanos². Foi ali que também conheceu Xavier e Edilson, que se tornariam seus melhores amigos. Na sala principal da casa, ficava o bar e uma dúzia de mesas. Os quatros amigos ocupavam sempre a que ficava no centro. Ali temperavam a conversa noturna com cerveja, das oito à meia-noite; depois, como um ritual, cada um pegava uma garota e se embrenhava em um dos quartos da casa, pagando dez cruzeiros por hora de ocupação. “Uma exploração”, queixava-se Xavier. “Se estiver achando ruim, pegue sua rapariga e vá trepar na areia da praia”, rebatia Maria Boa. Certa vez, guiados pelo excesso etílico, acataram a proposta de Edilson de irem, os quatro casais, para a mesma cama. Naquela noite, além da taxa de ocupação, tiveram que ressarcir à proprietária o valor da cama quebrada.

    Esse insólito ato gerou uma discussão filosófica. Edilson defendia a tese de que a embriaguez fazia nascer nas pessoas de bem as mais estranhas atitudes. Brian, por sua vez, afirmava que o excesso de álcool apenas induzia as pessoas a liberarem seus demônios. Xavier compartilhava o ponto de vista do primeiro, enquanto Tide dava razão ao americano. Uma dialética se estabeleceu. Uma noite, o encarregado do bar foi correndo chamar Maria Boa. O arranca-rabo era iminente. Ao chegar próximo à mesa do grupo, ela quis saber o que se passava. Xavier pôs a lhe explicar a controvérsia e, ao final, solicitou-lhe que opinasse. “Querem mesmo saber a minha opinião?”, indagou Maria Boa, que, depois de um unânime assentimento de cabeça, emendou: “Tudo não passa de sem-vergonhice de vocês!” Chateados, combinaram que por um mês não poriam os pés ali. Brian convidou os amigos de farra para ir ao for all³ que se realizaria no próximo final de semana, em Parnamirim. “Forrol?!”, quis saber Xavier. “Sim; pois é como se diz em inglês„ para todos.‟ É um baile que os oficiais da Base fazem. Lá todos podem participar, inclusive civis. Olha, moça bonita é o que não vai faltar!”, atiçou o militar.

    Tide, devido às suas longas conversas com Brian acerca da guerra em curso, de revoluções e de conflitos históricos, viu-se interessado pelas ciências sociais antes mesmo de concluir o científico. Um conflito veio a lhe tirar o sossego: ser médico para o regozijo do pai e infelicidade sua ou ser um historiador para sua realização pessoal e desalento do pai. Depois de muito pensar, dos inúmeros conselhos de Edilson e Xavier e em razão da escassez de faculdades de História no Nordeste, optou por ser um advogado. Como não havia faculdade de Direito em Natal, restariam, como lugares mais próximos, Recife e Fortaleza. Optou pela capital cearense, uma vez que ficava mais próximo a Pau dos Ferros. Antes, temeroso, escreveu ao pai, para dar-lhe conhecimento de sua decisão.

    Natal, 10 de outubro de 1948.
    Querido papai,

    Espero que o senhor e minhas amadas mãe e irmã estejam com saúde e em paz. Eu sei que o senhor está surpreso em receber esta carta, dado que ainda não lhe havia endereçado qualquer escrito que fosse por todo esse tempo em que estou ausente. No entanto, dispus-me a fazê-lo agora e, se o faço, é porque quero tratar de um assunto que muito tem me afetado, que é a definição de meu futuro profissional.

    Logo que saí daí, andei escrevendo algumas cartas à mamãe. Confesso que não sei por que escrevi apenas a ela. Talvez porque o assunto tratado não tenha sido outro que não o de falar da saudade que sinto de vocês, de meus amigos, desse lugar e do tempo que vivi junto a vocês. Para falar dessas vicissitudes, desculpe-me a franqueza, fui habituado a fazê-lo apenas à mamãe. Na minha ingênua concepção, achava que devia poupá-lo dessas coisas tolas, que nos afetavam apenas a alma, dado que já lhe bastava a árdua tarefa de prover o nosso sustento. Hoje vejo o quanto me equivoquei. Errei logo de saída, quando quis ordenar por níveis de importância os sentimentos e as ações que permeavam as nossas relações. Hoje, pergunto-me: o que me levara a achar que a saudade que eu sentia de vocês, sobretudo do senhor, era menor que o esforço que o senhor fazia para me manter aqui, na capital? A visão pueril deslocada, eu creio. O maior equívoco, porém, foi negar-lhe o direito de compartilhar de meus temores e sonhos, que, embora quase sempre utópicos e engastados de ingenuidade, muito contribuiriam para o amoldamento de meu caráter. Por certo, esse não compartilhamento veio acarretar um mal maior, que foi impedi-lo de me conhecer por dentro. Por achar que o senhor jamais chegara a ver minha alma, trouxe comigo a certeza de que, quando parti daí, a minha fotografia presa à parede da sala supriria inteiramente a minha ausência e que, por desconhecer meus sonhos e anseios, o senhor decidira que eu ficaria mais apresentável, na minha fotografia de adulto, paramentado de médico. Contudo, por mais que tenha me esforçado, não consigo me ver com seus olhos. De modo que rogo ao senhor que aceite a minha decisão de seguir a carreira que julguei ser mais de minha índole, que é a da advocacia.

    Rogo ainda que não se aborreça com o que parecem ser um rompante e uma insensatez de minha parte. Asseguro-lhe que não o é. Minha decisão resultou de inúmeras noites indormidas. Confesso que a maior parte do tempo consumido não se deveu à minha indecisão quanto ao que escolher, mas ao dilema angustiante de não ter a certeza plena de que podia dispor do direito de contrariá-lo. Bem sei que boa parte do suor que lhe escorreu pelas têmporas foi fruto de sua obstinação em trabalhar para garantir o nosso bem-estar, o meu e o de minha irmã. Todavia, não me foge da consciência a certeza de que a um pai cabe apenas o dever natural de cuidar dos filhos até que alcancem a maturidade. O senhor inconscientemente quis ir mais além, ao se dispor a ditar o meu futuro profissional. Eu sei que só houve boa intenção de sua parte, mas o senhor haveria de ter levado em conta que a procura do caminho do sol por cada um de nós deve ter por guias as nossas próprias expectativas e paixões, uma vez que a nossa realização plena está em fazer o que gostamos. Afora isso, seremos fogueira que brilha mais do que queima.

    Portanto, papai, eu sei que o senhor terminará por aceitar a minha escolha, pois não tenho nenhuma dúvida de que, nas suas caçadas por terras inóspitas e de animais indóceis, a felicidade, minha e de minha irmã, será sempre sua caça-troféu.

   
Um abraço deste filho que nunca deixará de amá-lo e respeitá-lo.

     Tide

    Alguns dias depois, ele recebia uma carta do pai. Ansioso, rasgou o envelope. À medida que corria os olhos pelas palavras, algumas lágrimas mornas e salgadas como as águas do mar vieram a lhe inundar o rosto. O pai confessava a sua grande satisfação em saber da escolha do filho.

    Em março de 1949, conforme planejara, Tide iniciava seu primeiro ano na Faculdade de Direito do Estado do Ceará. Passou a morar numa república de alunos situada na rua Floriano Peixoto, nas proximidades da avenida Duque de Caxias. Ficou extasiado ao ler, pela primeira vez, o Discurso Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens, de Rousseau. Da mesma forma, foi tocado quando leu A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels, e Manifesto Comunista, de Marx e Engels. Não gostou de O Príncipe, de Maquiavel. E por ter gostado tanto de Rousseau, não se viu à vontade ao ler Voltaire.

    Quando iniciava o segundo ano, passou a lecionar história no Colégio Guarany. Inebriado com o Marxismo, creditava toda a importância dos fatos históricos às massas. Certa vez, o diretor lhe perguntou se não era um exagero o fato de ele condenar em demasia o capitalismo, que por certo tinha espinho, mas que também tinha flores.

    – Flores para os donos do capital; espinhos para os trabalhadores – arrematou Tide.

    Ele adorava a irmã, Aninha. Ai dele se se esquecesse de seu presente nas suas vindas à fazenda. Quando estava em casa, ela era sua sombra. À hora das refeições, sentava-se à mesa, a seu lado; se estava conversando com alguém na varanda, ali estava ela; à noite, bochechava brigando com o sono, mas só adormecia se o irmão a levasse para a cama. Antes de dormir, quase sempre pedia que ele falasse do mar, dos cinemas, da escola, das praias, das praças e das ruas de Fortaleza.

    Tide estava preocupado com a contrariedade do pai diante da atitude de um fazendeiro confinante, que sem mais nem menos resolvera avançar indevidamente a cerca que delimitava as propriedades. No sertão, terra é coisa sagrada, é como sangue legado, é bem de imensurável valor. Não importa se é um latifúndio ou uma gleba. Uma pequena fração usurpada é um membro que se amputa do corpo. Terra invadida é terra trocada: um palmo plano por sete cavados.

    Muitos fazendeiros do lugar sabiam que fora com avanços indevidos de cercas que o fazendeiro encrenqueiro expandira seu latifúndio e o número de seus desafetos em Pau dos Ferros. Atitude essa que se mostrava em desalinho com a tradição que veio dar o nome ao município. A história, perpassada ao longo dos tempos, reza que uma oiticica muito frondosa oferecia sombra aos vaqueiros que ali passavam à procura de reses tresmalhadas. Com o avançar do tempo, esses vaqueiros se habituaram a gravar, em seu volumoso tronco, a marca de seus patrões com ferro em brasa para que as tornassem conhecidas, de forma que as reses perdidas pudessem ser identificadas e devolvidas a seus legítimos donos.

    Envolvido com suas atividades de aluno e de professor, Tide não tardou a ter arrefecidas suas preocupações. Mas, às sete horas de uma manhã nublada de abril, quando tomava café, ele foi avisado por um dos republicanos que um homem o aguardava na varanda. Ao ver o velho Clemente, julgou que algo de ruim acontecera. Só não esperava que fosse a pior das coisas. Uma atrocidade que lhe deixaria a alma ferida e a vida de ponta-cabeça. Cabisbaixo, segurando com as duas mãos o chapéu de palha junto ao ventre, o velho lhe deu a trágica notícia da morte de sua família. Tide viu o mundo girar. Vomitou tudo que acabara de comer. Suava intensamente. Com o rosto lavado pelas lágrimas, agarrou Clemente pelos ombros e pediu que lhe contasse como se dera tamanha desgraça. “Foi Tuca Carneiro, o desgraçado do filho mais novo de Raimundo Carneiro, o velhaco que invadiu a terra de vosso pai. Ele e alguns capangas, depois de matarem o cachorro a pauladas, entraram na vossa casa e mataram o vosso pai, a vossa mãe e a pobrezinha de vossa irmã.

    Sem perder tempo, Tide dirigiu-se ao jipe que havia trazido Clemente. O motorista o recebeu com um olhar silencioso.

    Durante a viagem, Clemente se pôs a contar todos os acontecimentos que culminaram naquela tragédia, sobretudo o que teria levado o filho do fazendeiro à prática da injustificada barbárie. Relatou: “Na manhã de antes de ontem, o patrão tinha ido até a cidade para comprar veneno para a lagarta do cartucho do milho. Êta lagartinha desgraçada! Quando entrou no Armazém do Salu, deu de cara com o desgraçado de Raimundo Carneiro, que aproveitou a ocasião pra provocar. Todo debochado, o safado perguntou a Salu se ele tinha muito arame farpado no estoque, pois que ele carecia de cercar mais alguns palmos de terra que certo vizinho tinha invadido no passado. Aí o patrão não se fez de rogado. Conforme disse Salu, o patrão chamou logo o danado de ladrão safado. Daí pra chegarem às vias de fato foi só uma questão de segundos. O filho da puta puxou da cintura uma peixeira e veio pra cima de vosso pai. Aí, meu patrãozinho, o vosso pai nunca é que ia se deixar matar. Ele nunca que andava armado, não levava sequer uma baladeira, que era um erro! Pra se defender, ele pegou então a primeira coisa que estava perto dele, que foi um ancinho de ferro. Aí não deu outra. Quando o miserável veio pra cima, levou uma espetada no pescoço. Ele caiu sangrando feito um bode. Levaram ele pro hospital. Seu Humberto, o tabelião, foi quem foi até a fazenda pra dar a notícia da morte do desgraçado. Depois de dar a notícia, deu conselho pro patrão se esconder durante 24 horas. Depois desse tempo, o patrão voltou tranquilo pra casa, foi aí que a porca entortou o rabo. Ele não pensou nos filhos do finado. O filho mais velho, Zequinha Carneiro, não tava no enterro. Segundo disseram, ele anda em viagem pras bandas das Alagoas. Foi Tuca, o filho mais novo, quem cuidou de tudo.” Tide ouviu calado o relato de Clemente, enxugando de vez em quando as lágrimas com o dorso das mãos.

    Ao descer do veículo em frente à casa da fazenda, Tide sentiu a pior das solidões: via-se sozinho em meio a uma multidão. As pessoas aglomeradas no alpendre e no terreiro pararam de conversar para observá-lo. Adentrou a casa com passo apressado. Abraçou o menor dos ataúdes. O pequeno rosto da irmã parecia de porcelana branca.

    Um tio materno de Tide, que morava em Mossoró, foi quem cuidou dos preparativos do funeral. O sepultamento, que se daria no cemitério da cidade, foi marcado para a manhã do dia seguinte.

    Da fazenda até a cidade, as pessoas foram se juntado aos que, a pé, acompanhavam o carro de bois que transportava os féretros. Ao adentrar a cidade, o cortejo compunha-se de uma multidão. Nas calçadas, as pessoas se acotovelavam na disputa de um lugar que lhes permitisse ver o resultado do insólito acontecimento, que seria lembrado pelo povo do lugar como o mais emblemático ato de sordidez praticado por uma pessoa que se diz humana.

    A calma de Tide, aliada à sua preocupação com os negócios, foi uma sinalização ao povo de Pau dos Ferros de que de sua parte não haveria revanche, o que trouxe alívio para uns e decepção para outros. Sua ida para Fortaleza, para retomar os estudos, deixando a administração da fazenda sob a responsabilidade do vaqueiro, levou os parentes e a população de Paus dos Ferros a terem a percepção de que ele de fato deixaria a cargo da justiça a punição do criminoso, que passara apenas dois dias na cadeia, já que tivera a prisão relaxada por ser primário, ter bons antecedentes, ter endereço conhecido e de não ter sido preso em flagrante delito.

    Com a partida de Tide, Tuca Carneiro ficou à vontade. Voltou ao curso normal de sua vida. Para os familiares, era um herói justiceiro. A pedido do irmão, passou a andar com um revólver calibre 38 na cintura. Aonde chegava, atraía os olhares dos presentes. Via nisso um sinal de respeito e, às vezes, de temor. Alardeava que, graças à sua complacência, Tide ainda estava vivo.

    Na tarde de uma terça-feira de junho, três meses depois da chacina, uma notícia correu como rastilho de pólvora em Pau dos Ferros e nos municípios vizinhos. O corpo de Tuca Carneiro fora encontrado. Estava em pé, preso com pedaços de arame farpado a um dos mourões da cerca que o pai avançara nas terras do vizinho assassinado. A cena foi demasiado tétrica, segundo o relato dos que a viram. Contaram que os urubus, depois de pousarem nos arames da cerca, passavam a devorar o corpo. Um dos urubus tateava sobre a cabeça do infeliz no momento em que lhe arrancava os olhos com bicadas sucessivas.

    Ao chegar à capital cearense, para não levantar suspeitas, Tide frequentou a faculdade e continuou ministrando aulas. Passadas duas semanas, pegou um ônibus e foi a Natal. Ali ficou apenas um dia, o tempo suficiente para conversar com a tia e pedir-lhe que tomasse de conta de todos os seus bens. Ela, desconfiada de suas intenções, implorou-lhe que não fosse cometer nenhuma loucura, que deixasse tudo nas mãos de Deus e da justiça. Decidido, ele retirou do bolso da camisa um papel e entregou à tia, dizendo: “É uma procuração em que lhe dou plenos poderes para administrar todos os bens que foram deixados pelos meus pais, inclusive, para dispor deles, caso a senhora venha achar conveniente. Depois de dar um abraço na tia chorosa, foi-se embora.

    De volta a Fortaleza, alugou um jipe e rumou para Pereiro, no Ceará, a 360 quilômetros de Fortaleza e a 60 de Pau dos Ferros. Dormiu numa pensão, onde guardou o veículo. Pela manhã, pegou um pau de arara que fazia linha para Pau dos Ferros. Desceu na entrada da estrada que ia dar na fazenda. Pôs-se a caminhar. Quando via alguma silhueta, escondia-se na vegetação. Chegou à casa de Clemente já perto do meio-dia. O velho almoçava com a esposa. Ao vê-lo, engasgou-se. “Cruz-credo! É o senhor, meu patrãozinho, ou a velhice tá me fazendo ver coisas?”

    Tide alegrou-se ao saber que Tuca Carneiro ia quase que diariamente à cidade, pois teria a realização de seu plano facilitada. No dia seguinte, atocaiado à beira da estrada, ficou pacientemente à espera do desafeto. Conhecia-o muito bem, pois o vira muitas vezes na cidade na companhia do pai. Recusou a companhia de Clemente. “Isso é uma coisa só minha”, disse. Veio o primeiro dia de espera. De vez em quando, passava um transeunte, mas nada do fazendeiro. Viu um camaleão camuflado no galho de uma jurema à espera de insetos. A noite chegou, e, frustrado, voltou à casa de Clemente. No segundo dia, não teve que esperar muito. Por volta das nove horas, o coração pulsou mais forte. Tuca Carneiro surgiu na curva da estrada. Conduzia o cavalo a trote. Tide desenrolou rapidamente a manta que envolvia a espingarda; tirou da mochila três cartuchos, municiou a arma e pôs dois no bolso da calça. Detrás de uma aroeira, posicionado para o tiro, esperou que o assassino se aproximasse. Quando viu que a distância se reduzira a uns dez metros, enquadrou o tórax do inimigo na alça de mira e puxou o gatilho. O cavalo freou bruscamente; levantou as patas dianteiras, derrubando o cavaleiro. Tide recarregou rapidamente a espingarda e foi pôr-se à frente do infeliz, que em vão procurava ficar de pé. Logo as manchas de sangue começaram a aparecer na camisa do infeliz, que o fitava em pânico, sentindo uma frieza no corpo, embora o sol, já no alto do nascente, espalhasse um calor escaldante. “O primeiro tiro, safado, foi pelo meu pai! Este, gritou alucinado depois de atirar no abdômen, é pela minha mãe! Este, depois de voltar a atirar-lhe no tórax, é pela minha irmãzinha!” Foi atrás do cavalo do desafeto, que estava parado a uns cem metros. Atravessou o corpo na sela, amarrando as mãos aos pés por baixo da barriga do animal. Montou seu cavalo e, por entre a vegetação espinhenta, retorcida e já desfolhada em razão do final das chuvas, conduziu a ensanguentada carga até as terras outrora invadidas.

    Tide temia mais a possibilidade de ficar preso do que ser morto por Zequinha Carneiro. Claustrofóbico, sabia que não resistiria por muito tempo enjaulado em um presídio apinhado de malfeitores. Depois de muito pensar, concluiu que não mais poderia continuar vivendo despreocupadamente em um centro urbano, onde se exigia com frequência a apresentação de documentos. Lembrou que Clemente e outros moradores da fazenda, que nunca haviam possuído quaisquer documentos, chegaram à velhice sem contratempos. Tirou, então, de uma pasta um mapa do Ceará e, depois de examiná-lo demoradamente, decidiu que iria para Paissandu, o município de maior extensão territorial do Ceará, onde certamente encontraria algum lugarejo que lhe servisse de homizio e que estivesse precisando de um professor.

    Ao descer do ônibus na cidade de Paissandu, viu dois policiais militares batendo papo. Sentiu medo. Àquela noite dormiria ali, mas muito cedo escolheria um rumo qualquer e se mandaria. Quando tomava o café da manhã na pensão que pernoitara, um rapaz lhe pediu para sentar-se à mesa. Quis negar, mas, ao ver que as outras mesas estavam todas ocupadas, assentiu com a cabeça. O desconhecido quis saber o que ele vendia.

    – Não sou vendedor de nada.

    – Ah, me desculpe! Mas é porque quase toda essa gente que se hospeda aqui é caixeiro-viajante. Eu mesmo sou um deles, apesar de me rotularem de mascate. Na verdade, eu sou um profissional da farmacologia, mas não estaria exagerando se dissesse que sou quase um médico, já que, quando saio por esse sertão vendendo meus produtos fitoterápicos, na maioria das vezes, sou eu quem diagnostica a doença que acomete os meus clientes. Mas me diga: se o amigo não é caixeiro, o que é então que o amigo faz na vida?

    – Bem, eu abusei de viver na cidade grande; aí, decidi morar em um lugarejo no meio do sertão, onde eu pudesse viver uma vida calma e exercer minha profissão de professor – disse Tide já mais relaxado.

    – Ou você é um sonhador ou endoideceu de vez. Onde é que você vai encontrar um lugar desses? No sertão, estudo é coisa sem futuro, sem utilidade. Se você conseguir alguma coisa, o que vai ganhar não vai dar nem pra pagar a sua comida.

    – Mas eu estou decidido a arriscar – rebateu Tide.

    – Se é assim, eu convido você para vir comigo. Enquanto eu vendo meus produtos, você tenta encontrar quem lhe dê trabalho. Até que você se arranche de vez, a gente vai servindo de companhia um pro outro. Espero que você não ache ruim andar numa caminhonete velha.

    – Negócio fechado! – concordou Tide, estendendo a mão ao mascate.

    – Se é assim, o meu nome é Pedro Nogueira Lima, mas conhecido como Pedrão das Ervas. E sua graça, qual é?

    – Aristeu.

    Os dois se embrenharam pelos lugarejos de Paissandu. Sem conseguir um trabalho de professor, Tide acabou por se tornar ajudante de mascate. Foi assim que chegou a Santo Antônio, uma vila de casebres situada nas terras do famoso coronel Zé Lopes, que, ao conhecê-lo, não hesitou em lhe convidar para tomar conta do armazém e da venda, propondo, em troca, um pequeno salário, morada e comida. Proposta aceita, Tide deu início ali à construção de uma nova vida, a vida de Aristeu, que viria a ser permeada por acontecimentos cotidianos e prosaicos para os olhos, mas de muita monta para a alma. Como empregado de uma fazenda, experimentaria o reverso da vida de filho de fazendeiro. Teria o privilégio de ver o mundo através de outra luneta.

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1. Epíteto dado à mocinha que vivia à cata de um militar norte-americano.

2. Entre 1941 e 1946, a II Guerra Mundial levou milhares de militares norte-americanos para Natal, onde foram instaladas duas bases: a Base Naval e a Parnamirim Field, considerada a maior base da Força Aérea norte-americana no estrangeiro (ficava no lugar que hoje é o Aeroporto Internacional Augusto Severo). Esta base foi utilizada para abastecer os aviões utilizados na Operação Tocha, que teve início em novembro de 1942, quando os aliados desembarcaram no norte da África.

3. Termo que, segundo alguns estudiosos, viria a dar origem ao vocábulo forró.

Transcorria o ano de 2020. A epidemia se alastrara e agora alcançava todos os continentes, transformando-se numa pandemia. Embora os coronavirus sejam um grupo de vírus conhecidos décadas, o Covid-19 viera de forma muito contagiosa e havia se espalhado como fogo na palha. Mesmo com uma letalidade não tão alta quanto um ebola, por exemplo, sua facilidade de contágio e propagação tornaram seus efeitos devastadores e as mortes se acumulavam pelo mundo afora. Não haviam antivirais eficientes e os medicamentos que estavam sendo testados e, alguns até promissores, não eram muitos. Cientistas em todo o planeta se debruçavam na procura de uma vacina eficaz, sem muitos efeitos colaterais e que trouxesse uma imunidade duradoura.

Na ampulheta a areia do tempo se escoava lentamente, a passos de tartaruga, mas a disseminação do vírus, como uma lebre.

Sentado num sofá, de forma pachorrenta, Quincas degustava com deleite um copo de água gelada, como se aquele fluido fosse a última porção de água daquelas bandas. Eu gostava de vê-lo assim, deglutindo aquele líquido como se aquilo fosse o máximo, como uma criança quando ganhava um presente novo.

Era assim quando caminhávamos juntos e ele nos mostrava cada planta, cada fruta, cada pássaro com uma alegria daquelas de alguém que parecia estar vendo aquilo pela primeira vez.

Vê-lo provar um prato onde estava apenas um pouco de algumas sardinhas, destas de lata, encharcadas com um tanto de azeite, amassadas com um garfo e saboreadas com alguns pedaços de pão, como se aquilo tudo fosse o prato mais sofisticado e delicioso do mundo, onde nada em volta importasse mais, a não ser aquela “grandiosa refeição’, despertava em mim o sentimento de que não era preciso muito para se sentir feliz.

Aprendia muito com ele. A sua paciência quando estava pescando, pouco se importando se pegava ou não algum peixe. A importância real estava ali: ele sentado no tablado, olhando o rio de águas claras, barcos, jet skis passando ao longe e, enquanto nos céus uma sinfonia de pássaros se misturava aos insetos, se diluindo entre as nuvens.

Não parecia ter pressa, ela havia se gastado ao longo de seus quase oitenta anos. Importavam agora as plantas, os marrecos, socós, irerês e garças por ali em volta, ocupadas em degustar um peixinho, algum inseto. O barulho de rãs e sapos começava a chegar com o começo do entardecer.

Tudo ele olhava, procurando ouvir os sons, nos apontando com o dedo algum detalhe e assim absorto não via passar as horas. Eu ainda era jovem e a minha impaciência às vezes não me permitia ficar ali por muito tempo. Hoje, depois de tantos anos, entendo muito tudo isso.

Bem, mas a pandemia era o assunto do momento, daqueles longos meses que a estávamos enfrentando e a vacina, o “Santo Graal” tão esperado, ainda não estava disponível.

Agora eu estava ali de novo, sentado junto ao Quincas, no tablado. Então resolvi perguntar o que ele achava de tudo aquilo.

Ele apontou para o rio e disse:

Estás vendo toda essa água. Ela vai se juntar a outras águas, a outros cursos d´água e, engrossando vão desembocar no oceano. É assim por todo o planeta.

Sim, vô. Aprendemos bem isso em geografia. Mas onde você está querendo chegar?

Esses rios, esses cursos de água, são como as veias, as artérias de um corpo, como o nosso e, a água que flui por eles é como se fosse nosso sangue. Constituem a parte líquida do organismo de nosso planeta, que alguns denominam de Gaia, Mãe-Terra.

Bem, ouvi falar disso, de Gaia. Mas, insisto ainda: O que o senhor está procurando me dizer?

Observe o ar, as nuvens, são como se fossem a parte gasosa existente em nossos corpos. São bombeados pelos ventos, pela expansão devida ao aquecimento do sol, dentre outros fatores, assim como fazem nossos pulmões.

Interessante, nunca havia pensado desta forma. Conte mais sobre isso, vovô Quincas.

Como os minerais que permeiam nossos organismos, tais como cálcio, fósforo, ferro, etc., também Gaia tem sua parte sólida, mineral, como as areias, as terras, os montes. O seu interior incandescente, cheio de lavas, assim como os raios do Sol que chegam na atmosfera e em sua superfície, dão a energia que ela necessita para a vida. Por isso Gaia floresce exuberante, em forma de plantas, flores e frutos que se conectam a uma infinidade de outros seres que nela habitam, como insetos, aves, mamíferos, répteis, num prodigioso ciclo, num grande conjunto.

Parece que o senhor está querendo me mostrar uma visão mais ampla, global de como tudo se interliga nela, desde o seu interior até o exterior.

É isso mesmo, meu neto. Gaia, assim como qualquer planeta e estrela, também é um ser vivo. Estamos vendo a sua parte física, não conseguimos, assim como em nós mesmos e em outros seres vivos, enxergar o espírito que envolve todo o seu corpo terrestre.

Estás me dizendo que também a Terra, digo Gaia, assim como nós também, tem um espírito interior que vivifica seu conjunto?

Sim, funciona dessa forma. E agora o espírito de Gaia está doente, sofrendo.

Como assim, Quincas?   Estás tentando me dizer que muito do que está acontecendo atualmente no mundo, essa pandemia, essa loucura das pessoas, explodindo em cenas de ódio, depressão, desespero, descrédito dos políticos, dos governos, da situação, podem estar relacionados a isso?

E, observando tudo isso, você também não chega a refletir, a pensar nisso?

Estás a me contar que essa pandemia, isso tudo que está ocorrendo, é uma reação do planeta, como se fosse um cão molhado, se agitando todo para se livrar da água que encharca seus pelos?

A Mãe-Terra, Gaia, está se agitando toda, expurgando tudo aquilo que a está adoecendo, ou melhor ainda, mandando o seu recado de que vai haver uma cura definitiva, irão parar de ocorrer as noites tenebrosas como as que estamos vivenciando no momento, quando aqueles, ou seja, nós, os humanos, se voltarem mais para o meio ambiente, para todos os seres que habitam esse planeta, procurando reverter todo o  estrago, injustiça e  maldade que estão fazendo, ou melhor, estamos fazendo a ela e a todo o conjunto de vidas que a integram.

Estou entendendo, vovô. Gaia não é apenas um corpo físico, possui também, assim como nós, um espírito planetário que a envolve e vivifica. E agora está debilitada, enferma, procurando se recuperar de alguma forma.

Sim, meu pequeno companheiro. O que está ocorrendo em todo o planeta, virando o mundo, as economias, as indústrias, as empresas, de cabeça para baixo, não é apenas mais uma mera coisa física, um simples vírus. Trata-se de uma coisa espiritual. O planeta está doente, porque nós, os humanos, aqueles que podem reverter todo o estrago que fizemos e estamos fazendo ao nosso mundo, também estamos doentes. A humanidade está doente.

Compreendi. A cura passa pela nossa mudança interior. Se isso não ocorrer, outros vírus, outras pandemias, outras tragédias diversas, de uma forma ou de outra, não cessarão de ocorrer. É isso então, vovô?

Sim, muitas outras epidemias, pandemias, guerras e tragédias ocorreram e ocorrem em todo o mundo, como mostram os noticiários e a história. Mas agora, num curto período da existência do ser humano na Terra, o estrago causado por ele foi muito grande. Sem um planejamento global cuidadoso, modificou a face do planeta, seja na área agrícola, pecuária, etc., alterando e/ou destruindo os habitats naturais, desmatando, poluindo o solo, as águas e o ar, numa velocidade espantosa. Os interesses financeiros, comerciais, em sua ganância, estão cegando o homem e não permitindo ver como as coisas devam ser feitas corretamente, apesar de todos os alertas de cientistas, estudiosos do assunto e organizações especializadas em meio ambiente espalhadas por todo o mundo. Doenças antes confinadas a determinados animais que agora entram diretamente em contato com o homem, devido à destruição do habitat onde viviam, e ainda a diversos outros fatores, estão migrando, “pulando” para a espécie humana. É uma luta contra o tempo para encontrar as vacinas e os antivirais adequados a enfrentá-las.

E ainda continuou:

Me parece que agora algo novo no ar. Está tudo muito cinzento, sei lá, sem cor, com uma energia negativa que parece estar envolvendo e afligindo o coração das pessoas, por todos os lados, provavelmente de uma forma bem diferente de antes. Parece uma angústia coletiva, diferente, algo surreal. De uma forma ou de outra, parece que todos nós estamos vivenciando isso. Inúmeras famílias presenciando um pesadelo sem fim. Queremos acordar e dizer: Isso tudo não passou de um sonho ruim!  Pergunte-se a si mesmo se não é isso que está acontecendo.

longe, o sol parecia tocar a pele do rio em seu poente, dando lugar à lua que despontava no céu.

Vamos embora, Marquinhos, teve boa a pescaria por hoje. Devolva ao rio os peixes que estão no samburá.

    Minhas lembranças mais antigas se reportam ao período em que morávamos na casa de meus avós maternos. Devia contar quatro ou cinco anos, por que aos seis estávamos em nossa própria casa, na cidade. Se a minha memória não me engana, porque dizem que as imagens de uma menininha têm realces e dimensões bem específicas e, não necessariamente, são a expressão autêntica da realidade. Naqueles dias distantes, fatos ocorreram que marcaram pra sempre a vida daquela criança, especialmente a história da família, permeada pela existência de mulheres fortes chamadas, Helena.

    Pensando nisso, lembrei as longas histórias contadas por minha avó e bisavó.  Desde muito pequena eu adorava conversar com elas e aquelas conversas ficaram gravadas em minha mente. Na verdade, não eram diálogos, mais parecia um monólogo, porque eu mal respirava, sorvendo tudo avidamente, sem questionar, pra aproveitar o máximo daquela avalanche de informações.

    Minha bisa chamava-se Eloíza Helena. Foi a primeira das helenas da família. Nasceu em 1856, em um sítio, no interior da pequena cidade de Igarapé Mirim, no estado do Pará.  Tio Dico, que a conheceu jovem, dizia que era uma mulher linda, alta, esbelta, de pele alva, longos cabelos negros e um sorriso cativante.

    Eloíza Helena casou aos dezenove anos, tardiamente, para a época, visto que era costume tão logo a jovem se tornasse mulher, com a primeira menstruação, os pais tratavam de arranjar-lhe o casamento. A demora,  para  o enlace, deu-se em razão da recusa dos vários pretendentes, por parte do pai da noiva, que sempre encontrava um defeito, um motivo pra não entregar sua princesinha a qualquer um, até que atendendo aos apelos de sua esposa, mãe da mocinha, temendo que a filha ficasse solteirona, concordou em aceitar como genro o filho mais velho do compadre e vizinho.

    O noivo chamava-se Miguel, um jovem bonito e trabalhador, apaixonado pela bela vizinha desde que a vira pela primeira vez na festa da Santa Maria, quando Helena era uma garotinha. Todos os anos, no dia 14 de agosto, a família dela festejava a santa da família, com uma ladainha, cujos preparativos iniciavam no dia seguinte à última festa. A criação era tratada a pão de . Porcos, galinhas e patos eram engordados e sempre alguns devotos da santa ofereciam um quarto de boi, sacos de arroz, de farinha e outros ingredientes para o lauto jantar, regado a suco de cupuaçu e bacuri, além de boas garrafas de vinho adquiridas no armazém do seu Tibúrcio, forte comerciante da cidade vizinha, Abaetetuba e como aperitivo serviam a pura aguardente do Engenho dos Ferreira. Na madrugada do dia 14 uma salva de fogos era ouvida em um estirão em volta do sítio. Às seis horas da tarde a santa era levada em procissão em volta da propriedade. Em seguida, rezadores profissionais, especialmente contratados para a ocasião, puxavam a ladainha, acompanhada pelos presentes, vizinhos e conhecidos das redondezas. Após a solenidade religiosa era servido o farto jantar, cuidadosamente preparado, e a noite encerrava com a orquestra tocando para a dança. Durante anos Miguel aguardava, ansiosamente, essa data pra ter a oportunidade de ver a filha do vizinho e depois, quando ela cresceu, de dançar com ela. Helena, ante tamanha adoração, também acabou se apaixonando por Miguel.

    O casamento se realizou em 1875 e o casal foi morar em uma casa construída em terreno doado pela família da noiva, não muito distante das casas das respectivas famílias. O casamento ia bem. Em 1876 Helena deu a luz à minha avó, a quem batizou como Lúcia Helena, e esta, ainda era um bebezinho, sequer havia completado dois anos de idade quando perdeu o pai. Segundo a bisa, seu marido saía cedo pra lida, que consistia em caçar veado, capivara, tatu, etc. ou, conforme o horário da maré, ia pescar e ainda, trabalhava na lavoura dos pais, plantando mandioca, café e milho. Naquele tempo não havia energia elétrica, tampouco geladeira e os alimentos, carnes de caça, boi, porco ou peixe eram conservados à base de sal e secos ao sol. Para cozinhar era necessário colocar o alimento de molho e trocar a água várias vezes. Mas Miguel preferia comer carne fresca. Uma noite, chegou em casa cansado e com fome. Não tivera sorte na caçada. Após horas de espera nada conseguira. Não quis acordar a esposa para preparar-lhe a comida. Resolveu ele mesmo assar um pedaço de carne charqueada, sem dessalgar, apenas a lavou e assou na brasa. Comeu com farinha, tomando muita água, pois a sede aumentava. Em seguida dormiu. Na madrugada acordou com enjoo, vômito, dor no estômago e barriga. A jovem esposa fez chá de erva cidreira, casca de laranja e hortelã, mas não fez efeito. Miguel faleceu antes do amanhecer, deixando Lúcia Helena viúva, aos 21 anos.

    Era costume, na época, o irmão do falecido, caso existisse, assumir a família do morto. Foi assim que Eloíza Helena foi obrigada a casar com o cunhado, Guilherme.  Com ele teve mais quatro filhos.  Porém o trabalho duro da roça maltratava os chefes de família e a falta de remédios e vacinas encurtava a vida dos maridos. Assim, ela enviuvou novamente e casou pela terceira vez com o terceiro irmão, Lucas, sendo o mesmo bem mais moço. Dessa união nasceram mais quatro filhos. Ainda não havia completado quarenta anos quando morreu o terceiro marido e último dos irmãos e ela permaneceu viúva até o fim da vida. Os filhos homens cresceram e mudaram pra  capital,  Belém,  levando  a  mãe  e  os  demais  irmãos, exceto  a  mais  velha, Lúcia  Helena,  que  havia  se  casado  com Ismael  e  o  casal escolheu permanecer no sítio.

    Quem conheceu Lúcia Helena jovem diz que era uma bela mulher, bem parecida com a mãe. Alta, esguia, braços e pernas longos, a cabeça ornada por farta cabeleira plena de negros fios ondulados. Seu marido, Ismael, também era um garboso jovem. De estatura mediana, magro, pele clara, cabelos loiros e dois lindos olhos azuis. Diferente da esposa, que não sabia ler, Ismael era letrado, havia frequentado a escola e, além disso, era autodidata, nas horas livres sempre aproveitava para uma boa leitura. Mas o trabalho no sítio era penoso e pra conseguir alimento o casal labutava de sol a sol.

    O sítio constituía-se de uma grande área de terra firme, onde se plantavam roças de mandioca, milho e arroz, utilizando o regime de empreitada com os vizinhos mais próximos. Perto da casa cultivavam café, frutas e verduras, além da criação de galinhas e patos. A propriedade também produzia banana, açaí, laranja, limão, bacuri, cupuaçu, abacate, goiaba que faziam a alegria dos filhos e netos.

    O terreno era contemplado, ainda, com um belíssimo igarapé, braço do caudaloso rio Jarumã. Esse era o território do Ismael. A esposa se incumbia das roças, plantações e lida da casa, enquanto o marido preferia pescar, caçar e ajudar, sempre que solicitado, na contabilidade do engenho de cana de açúcar, localizado na boca do rio, distante uns trinta minutos de canoa e, mais umas boas pernadas até o escritório. O dono do engenho era um português que tinha muita consideração por Ismael e, além da remuneração pelo serviço prestado, sempre o presenteava com agrados de sua terra natal, tais como, garrafas de vinho, figos em calda, damasco, tâmaras, que eram muito apreciados pela esposa, Lúcia Helena.

    O casal constituiu uma prole de quatro filhos: Raimundo (Dico), Izabel, Alice Helena e a caçula, Sebastiana, minha mãe. A terceira Helena, a Alice, era uma linda e talentosa menina, aprendeu a ler e escrever, raro para mulheres da época, e, além disso, tecia renda de bilro. Morreu aos sete anos de pneumonia, deixando a família destroçada.

    Desde cedo, mesmo com pouca idade, eu costumava acompanhar minha avó, Lúcia Helena, nas visitas a sua mãe e nessas ocasiões aproveitava pra ouvir as histórias da família e outras ocorrências. Em uma das vezes fiquei sabendo como elas sobreviveram à grande pandemia. Chamada Gripe Espanhola, dizimou milhões de pessoas no mundo. Aconteceu no fim da segunda década do século vinte, bisa tinha, então, 62 anos e morava em Belém. Disse que foram proibidos de sair de casa, os filhos mais velhos trabalhavam embarcados, passavam meses viajando.   Compravam   mercadorias   em   Belém   e   vendiam   nas   cidades   e comunidades entre Belém e Macapá. Quando retornavam traziam mantimentos que deveriam durar até o próximo retorno. Eram mantas de pirarucu seco, carne de boi charqueada, carne de capivara salgada, sacas de arroz, feijão, açúcar, café em grãos, farinha, etc. Mas, às vezes, quando retornavam os suprimentos haviam acabado.

    Bisa contou que o período da gripe foi tenebroso. Souberam da doença pelos noticiários do rádio, através dos quais as autoridades médicas explicavam as características da doença, o perigo do contágio, os cuidados sanitários e recomendavam a necessidade do confinamento e que todos deviam permanecer em casa. A maioria dos veículos parou de circular, ficaram apenas os oficiais e alguns poucos autorizados. As escolas e boa parte das casas comerciais fecharam, as ruas ficavam desertas. Os poucos hospitais ficavam lotados e muitos doentes acabavam morrendo em suas casas. Cada vez que ouviam a sirene dos carros sabiam que era pra remover e enterrar os corpos  que  eram  colocados  nas  calçadas. A bisa conseguiu manter os filhos e netos em casa, incutindo-lhes o pavor de contrair o mal. Para economizar a comida ela racionava os alimentos, na tentativa de durarem até a chegada dos filhos com o novo rancho. Foram tempos difíceis, mas, felizmente, ninguém ficou doente, ela costumava suspirar.

    Observando a história vejo que nos últimos séculos aconteceram duas grandes pandemias, ceifando milhões de almas. A primeira, vivida por minha bisa, no início do século 20, aconteceu de agosto de 1918 a setembro de 1919, ceifando a vida de cerca de cinquenta milhões de pessoas, no mundo. A segunda, causada pelo vírus chamado Corona, provoca a doença denominada Covid-19, teria iniciado na China no final de 2019. No Brasil, chegou no princípio de 2020 e até agora, dezembro de 2020, aterroriza o mundo. Que tempo difícil. Não sei de ninguém que se declare plenamente feliz.   O medo é um sentimento unânime. É apavorante a possibilidade de ser alcançado pelo espectro desse mal, proporcionalmente, mais letal que a primeira pandemia.   Até agora, no Brasil, o Corona Vírus, infectou quase sete milhões de pessoas, das quais 182 mil não escaparam. Fico imaginando as razões do Criador. Estaria Ele punindo a humanidade pelo descumprimento a suas leis? Ou seria para resolver os problemas da superpopulação e deixar o mundo mais leve?

    Entretanto, a Gripe Espanhola não foi ruim pra todos. Os filhos mais velhos da bisa, por exemplo, melhoraram de vida e tornaram-se prósperos comerciantes. Enquanto a bisa e os filhos do segundo e terceiro casamento tinham uma vida folgada, minha avó, Lúcia Helena e sua família, viviam precariamente, no sítio. O orgulho do Ismael não permitia que ela fosse amparada pelos irmãos. Permaneceram no sítio. Ao casarem, os filhos mais velhos foram morar em suas próprias casas construídas nos limites do terreno. a filha mais nova, Sebastiana, permaneceu na casa dos pais, mesmo após o casamento, que aconteceu em 1952.

    Sebastiana, minha mãe, casou com o belo jovem Vinicius. Inicialmente tiveram quatro filhos, dos quais sou a segunda. Nasci em 1954. Em homenagem às helenas anteriores e à santa padroeira da família fui batizada com o nome de Maria Helena. Minha irmã mais velha, Anita, morreu com seis meses, de febre altíssima e convulsões. Quando nasci, passei a ser o squindim, o xodozinho da família. Meu avô, Ismael me ensinou, com quatro anos, as letras do alfabeto e minha prima Iraídes, me alfabetizou aos cinco. Eu admirava muito a sabedoria do Ismael, tanto que, alguns anos mais tarde, no colégio das freiras, participei e venci um debate sobre um tema da Bíblia e dediquei a ele o troféu.

    Quando mamãe esperava o quinto filho papai decidiu mudar para a cidade. A irmã dele, tia Mirita, arranjou um terreno de dez metros de frente por sessenta metros de fundos. Embora uma boa área, porém em um local de várzea, cujas águas da maré enchiam, de modo que as casas eram erguidas a cerca de 2m do chão, as chamadas palafitas. No início estranhamos muito a diferença da moradia, porque no sítio da vovó, apesar das dificuldades, do trabalho pesado da roça, tínhamos fartura de frutas, banhos de igarapé de águas frias e límpidas e muita terra firme pra brincar, correr. A nova casa, a princípio, era humilde, pequena, mas tínhamos acesso à educação. Minha mãe teve mais seis filhos.

    Sempre que podíamos retornávamos ao sítio. Naquela época o acesso era pelo rio. Íamos de canoa e gastávamos mais de uma hora para chegar ao Jarumã, nome do sítio. Saíamos do rio e entrávamos no igarapé, que a mim, parecia interminável dada a grande ansiedade pra chegar à casa da vovó. estava ela a nossa espera, com a pupunha cozida, os beijus, o açaí grosso, a farinha torradinha, a panelada de galinha e tudo que cada um gostava. Como era querida aquela velhinha!  Lembro que parecia alta, talvez por ser muito magra.  Tinha a pele enrugada, fina e macia, o pescoço longo com bastante pele,  possivelmente,  em algum período, teria sido gorda.

    A vida seguiu tranquila e confortável para a bisa, Eloíza Helena, que teve um envelhecer feliz, mantendo-se bela e lúcida. Morreu do coração, em 1970, com 114 anos.

    Só quando a idade avançou vovô Ismael concordou em mudar para a cidade. Vovó e ele foram morar com a filha caçula, minha mãe. Em 1968, aparentemente, sem nenhuma doença, o coração dele parou.  Era um domingo. Como de costume ele acordou cedo, tomou café e pediu pra chamarem a filha Izabel, que morava perto. Chamou, também, minha mãe. Pegou as mãos das duas filhas e fez uma oração pedindo a Deus que aquele fosse um bom dia. Após o almoço ele e os demais foram fazer a cesta, exceto papai, minha irmã Joana e eu que fomos ao estádio assistir a um jogo de futebol. Na volta encontramos algumas pessoas que iam nos dar a notícia do súbito falecimento. Minha mãe estranhando a demora dele em acordar para o lanche da tarde foi chama-lo e o encontrou morto. Reza a lenda que vovô, muito católico, tinha devoção a uma santa, a quem orava diariamente pedindo pra ser avisado do dia de sua morte. Vovó Lúcia Helena, ainda viveu mais sete anos.

    Quanto a mim não via futuro na cidadezinha. Quando terminei o Curso Ginasial, atualmente Ensino Fundamental, fui pra Belém, estudar e procurar emprego. Depois mudei pra outro estado. Estudei e trabalhei muito. Construí uma carreira promissora. Posso afirmar que a vontade de vencer, meu esforço e, principalmente, o estudo, foram a força motriz que mudou a minha realidade. Mas, trago comigo outra certeza, essa força que até hoje ainda me impulsiona, vem das minhas helenas, as do passado e a do presente, que é das minhas conquistas, a melhor, Lourdes Helena, a minha filha, até então, a última das helenas, visto que seus herdeiros são todos homens.

Maria Helena

Muito cedo aprendi a me virar sozinho. Meus pais faleceram antes de eu terminar o segundo grau. Como filho único, tive de morar, por alguns anos, com meus tios.

Até que entrei na faculdade e fui morar em uma pequena república.

Sempre fui um solitário. Não por opção.

Na pequena cidade onde nasci, como quase todo mundo, morava em um pequeno sítio. Só me encontrava com outras crianças no grupo escolar. Ao crescer, a dinâmica era a mesma, me acostumei com a minha companhia.

Depois da faculdade, ao me empregar em uma grande multinacional, aluguei uma casa num bairro periférico e com muitas áreas verdes ao redor. Continuava, assim, a ter pouquíssimos vizinhos. Nada era realmente próximo, mas tudo podia se resolver em cinco ou dez minutos de carro. Até a filial onde trabalhava, apenas vinte minutos. Assim era, uma vida solitária, mas tranquila.

Alguns colegas sempre tentaram me incluir em socializações. Muitas vezes eu aceitava os convites, mas, de fato, nunca me empolgaram. Por toda a vida adulta, poucas namoradas e poucos amigos, no sentido mais amplo do termo, realmente se aproximaram de mim.

E isso não me incomodava.

Até o dia em que, ao trocar uma lâmpada, num movimento pouco acrobático, caí de costas no chão da cozinha.

Sabe aquelas pancadas que esvaziam seu pulmão?

A queda foi estúpida. Subi de chinelos na escada de metal. Quando acendi e apaguei a lâmpada, poderia jurar que havia deixado desligada.

Não deixei.

Não levei um choque.

Apenas me assustei com o estalo da eletricidade e com a lâmpada mais potente do que imaginara. Ao afastar rapidamente a mão, causei um desequilíbrio. Quando tentei me segurar na alça superior da escada, errei a pegada.

A mão agarrou o ar.

O corpo ia para trás, a outra mão tentou pegar a alça, também. Nada feito. Enquanto ia me distanciando da alça, meu pé direito quebrou a tira do chinelo. O pé subiu. Meu corpo dobrou-se. Estava realmente caindo, percebi afinal. Imaginei bater a cabeça, o que me fez grudar o queixo no peito e tentei levar o braço para trás.

Não sei se havia tempo para tantas manobras, mas foi o que o meu cérebro pensou.

Nisso, o pé esquerdo, ainda com o chinelo, se viu enroscado com a lateral da escada. Sem nem tentar se livrar, apenas a ergueu em um solavanco enquanto meu corpo caía para trás.

O baque.

O fôlego indo embora.

O alívio de não ter batido a cabeça. A dor do cotovelo que atingiu o solo pouco após as costas.

A vista escurecendo.

E, por fim, a escada caindo por cima de meu corpo, torcendo irremediavelmente meu pé preso.

Silêncio.

Isso não deve ter levado mais do que alguns segundos, mas pareceu uma eternidade.

Tanto que a consciência voltou junto ao fôlego. Aí veio um momento de alívio por conseguir respirar. Mas o alívio some no momento seguinte quando a dor se instala.

Primeiro nas costas, seguido do cotovelo e, por fim, o pé torcido.

A vontade era de gritar, mas só saiu um gemido.

Aí vem o desespero.

Aí vem o medo.

Então, tudo piora.

A consciência quer ir embora.

Silêncio…

A dor me acorda em seguida.

Qual dor? Todas!

Mas vamos lá!

Estou caído. Consigo me mexer? Sim.

Com muitas dores. Não sinto nenhum osso quebrado, a princípio.

Apalpo minhas pernas e as sinto. Será que consigo mexê-las? Sim.

Levo minha mão esquerda ao cotovelo direito. Como dói! Mas não parece quebrado.

Tento me desvencilhar da escada. Meu pé grita!

Viro-me sobre meu lado esquerdo. Alivio o pé e solto a escada.

Sem forças no braço direito, uso o esquerdo para me arrastar em direção à pequena mesa.

Meu celular está lá. Puxo a toalha e ele cai na minha testa.

Perfeito!

Pego o aparelho e não consigo destravá-lo.

Gritei. Gritei.

E nada.

Meus vizinhos não devem estar em casa.

Grito mais um pouco antes de desistir. Mais de frustração do que de esperança.

Vou tentar destravar novamente o celular.

Consigo… Sucesso… Socorro.

~/~

Os meses seguintes, com tratamentos e fisioterapia, são horríveis.

Não só pelo protocolo em si, mas muito mais pela forçada convivência com tantas novas pessoas. Todas pareciam concordar que eu me coloquei em perigo quando resolvi viver minha vida sozinho.

“Arrume uma namorada”, “seja amigo de seus vizinhos”, “saia mais e converse mais com seus amigos.”

Que canseira!

Olha, não sou um ermitão. Só gosto de silêncio e da minha companhia.

Não fora tão difícil conviver com outras pessoas, seja na escola, faculdade, trabalho…

Mesmo com as ex-namoradas. O problema era quando a convivência se misturava com cobranças ou condições que me incomodavam mais profundamente.

Posso me adaptar a conviver com outras pessoas, afinal. Só não posso mudar minha essência.

Por isso, talvez, a última sugestão não pareceu tão descabida, “mudar para um apartamento”.

Nunca tive essa vontade. Sempre morei em sítios ou casas isoladas.

Não era nenhuma aversão. Apenas não era uma ideia que passava por minha mente.

Pois então, assim foi.

Escolhi uma localização mais próxima ao meu trabalho e às clínicas que frequentaria.

O andar? Procurei o mais alto possível. O que me manteria o mais distante do barulho das ruas.

Aluguei minha casa. Fiz a mudança e me tornei o morador do décimo segundo andar. Dois apartamentos por andar. Praticamente todas as unidades ocupadas.

Seguindo as sugestões, passei a forçosamente frequentar as áreas comuns.

Ir ler no térreo, dependendo do horário, é até agradável. A piscina me ajuda com os exercícios de fisioterapia. Assim como a pequena academia.

Já sorrir para as pessoas e fazer contatos é um exercício que me exige mais.

Porém, há uma vizinha por quem realmente me interessei, não por sua beleza ou atributos físicos que normalmente atraem os homens. Sua beleza está em seus olhos e leve sorriso. Está também no fato de ser uma das primeiras a retribuir meu sorriso ensaiado.

Não havia ainda conversado de verdade com ela.

Pandemia.

Irônico.

Áreas comuns fechadas, home office e isolamento.

Bom, pelo menos, tenho certeza de que terei vizinhos ao alcance de um grito…

Minha rotina foi facilmente adaptada. Sabia muito bem como esse negócio de isolamento funcionava, afinal.

Foram dois meses tranquilos. Trabalho e fisioterapia em casa. Tudo o mais por delivery.

Estava até começando a gostar da vista…

Até o dia em que a vizinha do meu andar bate à minha porta.

Já a conhecia. É uma mãe solteira. Mãe de um menino de uns dois anos de idade que estranhamente gostou de mim quando nos conhecemos na piscina.

Ela aparece na minha porta, agitada. Cabelo mal preso em um rabo de cavalo que pendia para o lado esquerdo da cabeça. Os olhos muito abertos, quase vidrados. Roupas “de sair”, muito diferentes dos pijamas que se tornaram o “dress code” do trabalho remoto.

Em um turbilhão de palavras, me explicou, de forma quase desconexa e acelerada, que precisava ir à casa de seus pais, a alguns quilômetros daqui. Aparentemente, o pai não se sente bem e a mãe não o convence a evitar hospitais, então ela vai lá para sossegar os dois.

Mesmo de máscara, parecia que o que ela queria mesmo era gritar.

Desajeitadamente tentei acalmá-la. E, por fim, como se fosse óbvio, perguntei o que poderia fazer para ajudar.

Cuidar do seu menino por algumas horas.

Leve pavor.

Ela percebeu, acho. Meus olhos devem ter se esbugalhado mais do que minha boca abriu involuntariamente.

Então ela disse que tudo bem, chamaria sua prima ou falaria com uma outra vizinha.

Me recuperei e disse que não haveria problemas (sem certeza nenhuma).

Visivelmente aliviada, ela começou a me dar as instruções. Ficaria em seu apartamento, o menino acordaria em breve, a comida estava pronta, era só aquecer, esse é o telefone, me ligue para qualquer dúvida, muito obrigada, até já, entrou no elevador e sumiu…

Fiquei uns segundos parado, com suas chaves na mão, olhando para a porta do elevador.

Que surreal.

Não somos íntimos. Não nos conhecemos tão bem assim. Conversamos algumas vezes. Nós nos cumprimentamos sempre que nos vemos. Trocamos amenidades e tratamos um ao outro pelo nome.

Mas é só.

Pois bem. O que tenho hoje?

Fisioterapia, uma entrega do trabalho e receber as compras do supermercado.

Dá para fazer isso na sala dela.

Peguei meu notebook, minha esteira de yoga e fui para seu apartamento.

Caos.

Os apartamentos são exatamente iguais, apenas a planta é espelhada.

Mas não podia ser!

Havia tanta coisa no apartamento que tive um pequeno acesso de pânico.

Móveis muito grandes, brinquedos espalhados, revistas e pequenos objetos por todos os lados.

Je-sus!

Vi a luz de um abajur no quarto do pequeno. Olhei pela porta aberta e ele ainda dormia.

Voltei para a sala e tentei achar um local que coubesse o tapete.

Afastei uma mesa de centro entulhada, derrubando alguns bonecos e dois controles remotos. Afastei o sofá mais um palmo para trás. Coloquei meu tapete no espaço que cavei e suspirei…

Liguei o computador e fiz a conexão com a fisioterapeuta.

Mal havia começado, vejo, com o canto dos olhos, meu pequeno amigo parado no corredor com um lençol nos braços e um cachorro de pelúcia seguro pelas orelhas.

Ele esfrega os olhos, ainda confuso. Digo olá.

Sua atenção se volta para a cozinha. “Mamãe”, sai de seus lábios.

Paro o movimento que fazia. Olho assustado para a tela, olho para ele. Seus pequenos lábios se torcem para baixo, seus olhinhos brilham…

Choro.

Certo… Já esperava por isso.

Vou em sua direção e tento acalmá-lo. O choro se intensifica. Tento falar com ele, mas seus olhos só aumentam junto ao volume. Olho desesperado para os lados, esperando ver algo que me ajudasse.

Inútil.

Pego um brinquedo. Ofereço uma fruta qualquer que pego sem olhar direito. Uma pitaya! Corto a mão fazendo isso descuidadamente. Solto um pequeno grito. Ele grita mais alto.

Agora ele já é um amálgama de gritos, lágrimas, ranho e medo.

Como lidar com isso?

Suborno!

Abro a geladeira. Sempre há algo para subornar uma criança.

No meio de um milhão de potes, um potinho marrom. Chocolate!

Certamente não deve ser o horário, mas quem liga? Estou desesperado.

Uma pausa.

Um olhar curioso.

Uma esperança.

Eu lhe dou o pote (mas não o abro).

Meu notebook começa a me chamar. Uma chamada do trabalho. Vou atender. Meu supervisor. Aparentemente minha entrega foi solicitada mais cedo. Devo apresentá-la diretamente ao cliente. Já vão me chamar.

Antes que eu possa argumentar, desliga. O choro recomeça. O pote está em suas mãos, o cachorro caído e o lençol ainda pendurado.

Corro em sua direção, tentando acalmá-lo mais uma vez. Abro o pote e o entrego de volta com uma colher. Corro de volta ao computador. Procuro minhas pastas da apresentação. São alguns vídeos que só preciso fazer uma introdução antes de passá-los.

O choro de novo.

A colher era grande demais. O pote e o iogurte caem no chão. Corro novamente, sinto meu pé doer. A torção diz “olá”. Manco até ele. Novamente tento acalmá-lo.

Levo-o para o sofá ainda segurando a colher e chorando a plenos pulmões.

Manco de volta à geladeira. Procuro outro iogurte de chocolate.

Acho um de banana. Vai ter que servir. Viro-me para ele. Ao ver o pote amarelo, grita e se joga para trás. Certo, ele não gosta de banana. Volto para a geladeira e começo a empurrar potes para os lados. Um deles, de uma pilha mais ao fundo, cai e algo parecendo molho de tomate se espalha pela prateleira. Perfeito!

Acho mais um iogurte. Morango. Só consigo pensar “goste de morango, goste de morango”!

Segurando o pote, me viro para ele com um sorriso de vendedor de móveis e eletrodomésticos. O choro diminui. Ótimo. Ele gosta de morango.

Sentindo algum alívio, vou em sua direção com o pote na mão. Ao passar pelo pórtico do corredor, escorrego no iogurte de chocolate no chão.

Caio sem apoio do pé ruim. Desvio a cabeça de uma cadeira por muito pouco. Ergo a mão do iogurte protegendo-o como se fosse a coisa mais importante do mundo.

Ao atingir o solo, só consigo gritar um palavrão.

Silêncio e arrependimento imediatos.

Olho para o menino com o rosto molhado que rapidamente começa a rir.

Ele ri, eu sinto algum alívio e meu pé dói. Ainda assim, consigo rir de volta. Suas risadas se tornam uma gargalhada. Minha dor até diminui quando começo a rir junto.

Quando ele diminui a intensidade, me levanto e vou levar seu iogurte, quando ele repete o palavrão.

“Ca-aio”

Droga! Ensinei um palavrão para a criança! Inferno!

Tento dizer para ele parar. Inútil. Ele deve ter gostado da minha expressão patética quando disse o palavrão. Que agora ele repetia e repetia.

Dei um sorriso amarelo, abri o pote e lhe dei uma colher menor dessa vez. Ele deu uma colherada e olhou para a TV.

“Desenho”, ordenou.

Onde coloquei os controles?

Procuro por algum tempo, quando ouço o notebook me chamar.

Já?

Vou em sua direção e ouço “desenho” novamente. Olho desesperadamente em volta e o computador continua chamando.

Lembrei! A mesa de centro. Eles ainda estão embaixo dela. Ajoelho-me, dolorosamente. Pego o controle e ligo… o som.

O notebook chama de novo. Onde está o outro controle?

“Desenho, ca-aio”!

Estou quase gritando.

Abaixo-me novamente, estico o braço e acho o outro. Ligo a TV. Desligo o som, pego o notebook. Sento-me no chão mesmo.

Atendo a chamada. Olho para o menino e tento me acalmar.

No computador começam a falar comigo. O menino está quieto.

Tento me centrar. Olho para trás e vejo que o lençol, antes em seus braços, agora estava em cima do iogurte. Viro um pouco mais a cabeça e vejo a geladeira aberta e algo pingando da terceira prateleira para o chão.

O pessoal do trabalho me pergunta algo. Olho assustado e peço que repitam a pergunta.

Vou respondendo da melhor forma possível, segurando o notebook com o antebraço enquanto procuro um pano.

Pego um pano de prato e começo a limpar o que escorre da geladeira. O menino diz algo ao mesmo tempo que o pessoal do trabalho. Desisto do pano e o uso como represa para o líquido que escorria e o fechei dentro da geladeira.

Peço novamente que repitam a pergunta enquanto volto para a sala.

Ao passar pelo iogurte, sem pensar muito, com meu pé ruim, empurro o lençol para a sujeira que fiz quando caí, cobrindo-a.

Tento responder às perguntas enquanto espero que o menino peça novamente o que não ouvi.

Olho para ele ainda segurando o notebook.

Aparentemente quer outro canal. Procuro alguma coisa infantil, mas não conheço os canais.

Jornal, documentário, entrevista, esporte… Nada de desenhos. Filmes, musicais, mais documentários.

Outra pergunta.

Peço um instante.

Passo os canais, desesperadamente. Quantos canais eles têm?!?

Meu celular toca.

Acho um desenho. Olho para ele que parece se interessar. Deixo o controle no sofá, ao seu lado.

Atendo o celular e pego o notebook.

No telefone, o porteiro me liga dizendo que está me interfonando há algum tempo. O pessoal da entrega chegou.

Esqueci-me de avisar que estaria no outro apartamento.

Automaticamente digo que vou descer.

Desligo.

Como vou descer??

Olho para o teto, esperando que, sei lá, o céu se abrisse e me salvasse.

Nada.

Respiro fundo e decido agir.

Ignoro qualquer que tenha sido a pergunta e digo que vou começar a apresentar o primeiro vídeo.

Antes que fosse interrompido, aperto o play.

Pego meu celular e começo a procurar algum desenho no Youtube.

Olho para o menino com o controle na mão e uma luta de MMA passa na TV.

Como ele acha o pior programa para uma criança tão rápido assim?

Delicadamente tiro o controle de suas mãos, entrego o meu celular em suas mãozinhas pegajosas de iogurte.

Pego-o em meu braço direito, enquanto equilibro o notebook no esquerdo.

Vou até a porta, ainda mancando.

Desajeitadamente chamo o elevador.

Olho para a apresentação. Ainda está na metade do primeiro vídeo.

Tomara que o sinal da internet do celular seja bom o suficiente para dois vídeos simultâneos.

Entro no elevador. Rezo para todas as entidades que pude lembrar.

Enquanto o elevador desce, vou alternando minha atenção para a qualidade do vídeo da minha apresentação, o tempo restante da Galinha Pintadinha e a barra do sinal da internet.

Vamos, vamos, não pare!

Parou no quinto andar.

A porta se abre. Minha vizinha do sorriso bonito.

Ela sorri atrás da máscara e eu sorrio de volta. Aí percebo que estou sem minha máscara, com um menino em meu braço e um notebook no outro.

Ela, sem falar nada, dá um passo atrás, dando a entender que me deixará seguir viagem enquanto não consigo articular qualquer tipo de explicação.

A porta se fecha. O sinal diminui. Desespero. A galinha travou.

O notebook… a tela apagou!

Chegamos no térreo. Coloco o menino no chão, ele olha para mim e para o celular.

Não! Não trave agora!

Conectou na rede da área comum.

A galinha volta a cantar, o notebook dá sinal de vida. A apresentação continuou.

Suspiro aliviado por um segundo. Dou um passo e o pé lateja.

Manco na direção da portaria. O porteiro me entrega umas três correspondências. Pergunto pelo entregador. Ele responde que acabou de sair.

Como assim? Olho sobre o ombro do porteiro e vejo o rapaz no último degrau.

Grito para que ele volte, peço, imploro… Ele olha feio em minha direção e a contragosto começa a voltar.

A apresentação terminou; me perguntam algo. Não entendo. Atropelo a pergunta seguinte e coloco o segundo vídeo.

O rapaz está parado no portão que o porteiro demora a abrir.

Grito para que abra o portão. Ele grita de volta dizendo que o outro não foi fechado corretamente.

Olho com desespero para o rapaz da entrega. Ele suspira olhando para cima e se volta para fechar o portão. Nisso uma moradora idosa puxa o portão para entrar. Ficam os dois no pequeno espaço e eu, do outro lado, com o notebook na mão. Ela me fuzila com o olhar.

Um absurdo que eu esteja sem máscara.

Instintivamente, levo a mão à boca como se para cobri-la. Sinto o cheiro de iogurte e do sangue do corte da pitaya.

Lembro-me do menino!

Desespero total enquanto a porta se abre, a senhorinha reclama e o entregador tenta falar comigo.

Esqueço-me de tudo o mais, coloco o notebook embaixo do braço e começo a gritar pelo menino.

A senhora puxa meu braço. Aparentemente não terminou de reclamar. O entregador pergunta como farei o pagamento.

Como farei? Esqueci minha carteira.

O menino? Cadê o menino?

A máscara?

O pagamento?

Os boletos caem no chão.

Meus olhos enchem d’água.

Meu pé lateja.

Em crescente pânico, me viro para tentar fugir.

Vejo minha vizinha vindo em minha direção, de mãos dadas a ela, o menino.

Ela me diz que o encontrou na beira da piscina. Correu e o pegou antes que entrasse na água.

Agradeci efusivamente. O menino obviamente chorava.

Ela acrescentou que apesar de ter corrido, o celular caiu de suas mãozinhas e está lá no fundo da piscina. Pego a mão do menino. A senhorinha, vendo a situação, aumenta o volume e a intensidade das críticas à minha irresponsável figura.

O entregador tenta interromper e, por fim, grito que não trouxe a carteira e que ele poderia ir embora.

Meu pé lateja. Desisto.

Sento-me no chão. Ali mesmo, na passagem.

A senhorinha reclama e começa a angariar adeptos às críticas juntando à vizinha do quinto andar e o porteiro. O entregador me xingando e o menino, a essa altura, se esgoelando.

De repente, todos param quando a mãe chega e grita do portão.

O porteiro abre, ela pega o menino e me pergunta algo que sinceramente não entendi.

Digo automaticamente que deixei sua porta aberta, que havia feito uma bagunça em seu apartamento e que sentia muito. Ela me olhou com incredulidade e reprovação. Olhou para o menino e se retiraram.

Seguiram-na, a senhorinha e a vizinha do quinto andar, ainda reclamando.

Olho para o portão e vejo o entregador se virar, pela última vez, e me mostrar o dedo médio.

Em pé, parado ao meu lado, o porteiro, balançando negativamente a cabeça, vira-se e volta para a sua guarita.

Respiro fundo, seco os olhos marejados, amassando as cartas. Lembro-me do notebook, abro e vejo a reunião com todos tentando falar comigo…

Não digo nada, desconecto e desligo o aparelho.

Com muito custo, me levanto. Recolho, junto às minhas últimas forças, o restinho de dignidade que acho que tenho e manco até o elevador.

Nesse momento, ouço um estrondo.

O transformador da rua de cima explode cinematograficamente.

Não há elevador para mim.

Meu pé lateja.

Sinto falta da minha casinha isolada.

O contrato é de trinta meses.

    Mil e uma noites… Muito mais, talvez o dobro ou mais que isso. Sempre, no mesmo compasso de um impiedoso relógio, o peito da menina inundava-se de agonia.

    O temido ritual começava no cair da noite. Feito zumbis, tamanha a repetição, Dorinha mais o irmão, mecanicamente, realizavam a busca inclemente de todos os objetos cortantes ou perfurantes da velha casa.  Era a caça aos garfos, facas, tesoura, e a qualquer outra estrovenga que oferecesse risco. Estavam sempre atentos a novas ameaças.

    Os garfos ficavam todos mais à mão, costumeiramente na gaveta do guarda- louça. A tesoura, depois que a velha máquina de costura foi descartada, tinha lugar cativo no fundo da gaveta da papelada. Guardar as facas era trabalho mais complicado. Além das que estavam na gaveta, havia uma miúda, muito antiga. Era de cabo de osso, lâmina de aço reluzente e de formato pontiagudo. Enfiada numa bainha ensebada, ficava sempre amoitada no beiral do alpendre da cozinha. A mãe contava que era do tempo em que o pai labutava no traçador, derrubando mata. Foi de muita serventia. Picava fumo, descascava fruta, cortava corda, limpava unha e até tirava bicho-de-pé! E, uma última, que mais parecia um facão, vivia atolada na terra do latão, usado de vaso para as mudas de espada-de-são-jorge que a mãe de Dorinha cultivava. Foi a mais difícil de descobrir, confundia-se com as plantas.

    Tralhas juntadas, hora de enfiá-las na velha fronha, puída. Tudo muito rápido, não queriam que a mãe percebesse. Santa inocência!  Já no quarto, o pesado colchão de molas esgarçadas era erguido e, sobre o estrado de arame, o arsenal era encafuado. Ambos sabiam que tudo deveria voltar ao lugar antes do amanhecer, antes que o pai acordasse. Por precaução, Dorinha não dormia enquanto não terminasse a missão. Na casa não havia despertador, e ela sabia que ele só acordava com o claro do dia. Não podia correr o risco!

    Ela e o irmão dormiam no mesmo quarto. Agonia dividida. Se bem que o irmão, mais novo, tinha um sono sepulcral, o que aliviava Dorinha. Poucas vezes ele acordou com a chegada do pai. E pelo que viu, aterrorizado, entrava em pânico. Faria qualquer coisa para esquecer. O sono profundo do irmão, se não fosse bênção, com certeza seria fuga. Pouco importava. Dorinha era grata por ele ser poupado.

    Naquela noite, todas as luzes apagadas, a mãe dormia, ou fingia dormir. A única réstia de luz, que avançava pela fresta da janela, vinha do poste da esquina. O irmão já ressonava. Alívio. Na penumbra do quarto, o coração da menina batia na goela, nos ouvidos, nas pontas dos dedos. O sangue latejava em todas as extremidades do corpo. Cadência acelerada. Ao longe, escutara a tosse. A expectativa retesava suas articulações de tal maneira que, mesmo querendo, não movia nada do seu corpo além dos olhos.

    Os passos estavam mais próximos, a tosse também. Pelos ruídos, Dorinha percebe o tranco para abrir o portão, a fala enrolada, o andar arrastado e cambaleante. Finalmente, o arremesso enfurecido da grade do velho portão. Uma hora ia cair… O muro estava totalmente rachado! Dorinha repensa se deixou a porta da cozinha aberta. Sim, deixou. Isso não podia ser esquecido. Se o pai, bêbado, encontrasse a porta fechada, o chute seria tamanho que não caberia mais conserto. Havia ripas cruzadas em todos os sentidos e, ainda assim, restavam algumas frestas escancaradas.

    Agora, dentro da casa, os impropérios, que ouvidos à distância pareciam sussurros, soavam contundentes como se fossem soletrados, desenhados. Tantos xingamentos, afrontas, injúrias! O pai beirava a loucura. Dorinha sabia que era a própria loucura. Insano, irreconhecível. Em nada lembrava a doçura daquele pai que ela tentava, de todas as maneiras, perpetuar na memória. Como podia?! Em que lugar foi  parar  o  zelo  daquelas  mãos  que  enrolavam  torrões  de  açúcar  em pedacinhos de pano para acalmar os filhos quando a velha chupeta não era encontrada?! Onde se escondeu a ternura daqueles olhos gateados? E o assobio prazeroso de todas as manhãs?! Incompreensível.

    Imóvel na cama, tentando imaginar os movimentos do pai do outro lado da parede, Dorinha acompanhava todo o transe, todo aquele acesso aflitivo, recorrente, diário. E rezava para que seguisse a ordem natural, sem qualquer desvio. Os murros na mesa, os gritos, os palavrões, os pedidos de clemência, os chamados, os insultos, o choro convulsivo, o arremesso das pesadas cadeiras contra a parede. Essa era a ordem a acompanhar. Os objetos que lhe caíam às mãos pareciam paina, voavam. Era tanta a agitação, tão frenética a crise que ele ficava extenuado. O cansaço podia ser notado no balbucio das palavras, no arrefecimento da voz, na respiração ofegante. E, quase num arrasto do corpo, jogava-se sobre o sofá, todo capenga.

    Dorinha não mais sentia vergonha dos vizinhos. Carregou por muito tempo um constrangimento doído quando encarava as pessoas da vila. Tantos vexames. Ficava ruborizada quando alguém a olhava. Um martírio. Como nada podia fazer, afrouxou as amarras. Igual à bebedeira do pai, virou costume.

    Ele, depois de estirado no sofá, fazia vãs tentativas para se erguer e, em seguida, aquietava-se. Era um estado de torpor que, se fosse interrompido, o pai ainda insinuava agressão com os braços. Era preciso esperar a hora certa. E, quando essa hora chegava, a mãe de Dorinha entrava em cena. Com cuidado, ainda trazendo resquícios de bem-querer, curvava-se diante do companheiro, sussurrava palavras no seu ouvido, e usando de toda a força que conseguia, passava o braço dele pelo pescoço e o ajudava a se levantar. Caminhavam engalfinhados até o quarto, como se fossem dois bêbados.

    Dorinha ouvia claramente o gemer da estrutura da cama quando o pai era largado sobre ela. Não havia como deitá-lo com cuidado, era um homem graúdo, pesado. E, francamente, era o momento mais aguardado da noite! Daí em diante, até que tudo se repetisse no dia seguinte, era o período de trégua. Isso se não houvesse um gatilho inconsciente que o despertasse! Se acontecesse, a crise se tornava ainda mais agressiva, brutal. Era o que a menina mais temia, principalmente porque acordava o irmão. Era muito difícil encarar a tristeza dali, daquele quarto, de forma dobrada.

    Passado o terror da noite, depois de ouvir os soluços disfarçados da mãe, constatado que o pai caíra no sono abissal, Dorinha cuidava da reposição dos objetos. Sem dúvida alguma, a parte mais difícil era arrastar a cadeira, em silêncio e no escuro, para alcançar o beiral do alpendre. O lugar exato ela nunca errava. Cravar o facão no vaso não era custoso. A fenda, em razão da usança, podia ser tateada.

    E, encostada a porta da cozinha, arrumava a coberta do irmão que dormia despreocupado, inocente. Agora podia descansar. Esse repetir, repetir, sem intermitência e sem compaixão, deixava uma mágoa no corpo, na alma. Nunca se sentia refeita, inteira, plena. A menina era pura carência. Imaginava que com o tempo uma crosta seria formada e que serviria como uma armadura contra o desassossego. Não foi assim. Tudo amedrontava como se fosse primeira vez.

    Fechou os olhos, nem sabia em que pensar. Nada. Melhor não pensar. E, de repente, naquela transição entre consciência e sono, se viu envolta em nuvens, neblina. Tateou. Ouvia vozes, gritos, gargalhadas, lamúrias, um pandemônio. Teve a sensação de que o colchão fora alçado, ouviu barulho como se mexessem nos objetos dentro da velha fronha. Viu a lâmina reluzente da pequena faca, cintilar na mão de alguém. Alguém sem rosto. Percebeu que entre todas as vozes que se entremeavam, a do pai era a mais aguda. Estava agitado, violento, agressivo. A menina seguiu o brilho intenso da lâmina. A mão continuava a empunhar a faca. A pessoa não mostrou o rosto, apenas buscava se aproximar do pai de Dorinha. E o vozerio ecoou, difuso. Um amontoado de gente, corpos se resvalando, não havia brecha para passar, faltava o ar, e, de repente, um grito aterrador irrompeu. Dorinha vê a poça de sangue e a pequena faca de cabo de osso cravada nas costas do pai. Finalmente, enxergou o rosto daquele que empunhava a arma. Visão ilógica. O corpo de adulto, mas o rosto era do irmão.

    Numa luta desenfreada tentou se desvencilhar de todos, arremessou os braços, empurrou as pessoas, e, depois de incontáveis safanões, foi acordada pelo irmão. Ele está ali, ao lado da cama, trêmulo.

    ─ Dorinha, fica quieta! Você vai acabar acordando o pai. Por que você grita tanto?

    Assustada, confusa, os pensamentos emaranhados, o rostinho assustado doirmão colado ao seu… Como explicar?!

    Dorinha passou a mão pelos cabelos do pequeno, docemente cingiu a cabeça dele contra o seu peito, e disse:

    ─ Não foi nada, menino. Ainda é noite, volta pra cama. Amanhã será outro dia…

Dona Matilde suava por todos os poros e esfregava as mãos nervosamente. Era a primeira vez na vida que entrava em uma Delegacia.

– Delegado Palmeirão, tem aí uma senhora detida. Ela entrou contando uma história estranha de uns tais ricos e carrega um saco suspeito. O objeto já foi apreendido e vistoriado.

– Epaminondas, traz a suspeita e objeto.

Dona Tide (assim era conhecida) era o tipo de pessoa que a vida ensinou muito e que sempre tinha sábios conselhos a oferecer. De tão doce, parecia feita de açúcar. Todo mundo queria estar perto, beijar e abraçar. Entrou – com toda humildade e educação – arrastando o dito objeto.

– O que a senhora carrega neste saco e porque veio até aqui? – Perguntou o Delegado Palmeirão.

– Bem Doutor, neste saco tem lixo.

– Lixo?!

– Minha Senhora! É bom me dar uma boa explicação para não ir presa por atentado e desacato à autoridade. A senhora está louca?

– Tô Doutor! Tô mesmo meio louca!

– Explique-se, vamos! Tenho muita coisa importante pra fazer – falou irritado – pra ficar perdendo tempo com uma senhora biruta, que entra com um saco de lixo na Delegacia. Faça-me o favor!

– Doutor?

– Sim.

– Pra mim é importante! – O Delegado Palmeirão enrubesceu. Tomou ciência da grosseria.

– Desculpe Dona Matilde. O excesso de trabalho faz a gente ir perdendo a sensibilidade.

Para abrandar o calorão que subia para a cabeça, Dona Tide pediu um copo d’ água.

– Seu Delegado, o fato é que sou muito responsável. Cuido do meu lixo, reciclo e com sacrifício comprei minha própria caixa para a coleta.

– Parabéns! Mas…

– Moro na minha casa há 60 anos e nunca havia me incomodado. Depois que construíram um Condomínio de casas chiques, começou o meu martírio…

Fez uma breve pausa, demonstrando incerteza se deveria falar o que pensava para uma autoridade, mas prosseguiu:

– Porque o Senhor sabe, né? Os ricos vão vindo e vão encurralando os pobres nas suas casinhas.

– Não sei de nada Dona Matilde. Afinal, qual é o seu martírio?

– O pessoal do Condomínio coloca lixo na minha lixeira.

– Ué! Não compreendo. Se são tão chiques deveriam ter a própria lixeira.

– E tem!

– Ué! Agora compreendo menos ainda.

– Pois é, também não entendo. O engenheiro – cabeça de porongo – cismou de colocar a lixeira bem grande, fechada, com chave e tudo, bem grudada no muro da minha casa.

– E eles não tem uma entrada exclusiva para colocar a lixeira deles?

– Tem sim Senhor. Uma bem grande para a entrada dos carros. Fica a uns 50 metros da minha casa.

– O que a Senhora quer afinal? Ainda não entendi porque este saco de lixo – e aponta – veio parar aqui. Resmunga:

– Só me faltava mesmo a Delegacia virar uma lixeira.

– O caso – explica Dona Tide – é que minha lixeira é aberta, aí as empregadas das madames esquecem a chave ou tem preguiça de abrir a deles e atulham tudo na minha.

– Verdade? – Falou o Delegado um pouco incrédulo.

– Sim! O Senhor pode acreditar que numa sexta-feira o caminhão não passou e o lixo do Condomínio inteiro ficou até segunda-feira – no chão – e bem na frente da minha casa?

– Se a Senhora diz..

– Doutor, o fedor entrou nas minhas narinas e ali ficou. Eu quase arranquei o nariz de tanto lavar, mas o cheiro ruim parecia que nunca mais ia sair.

– Imagino! – E sem pensar levou as mãos nas narinas como se o cheiro fosse real.

O Senhor sabe que – olhou firme nos olhos do Delegado como se tentasse avaliar se ele pertencia a mesma classe social a que iria se referir – rico come camarão, né?

– Tá bom! Tá bom! Também não precisa descrever o lixo.

– O Senhor não tem ideia de como estes lixos vão pra lá e pra cá. Eles colocam, eu devolvo. Daqui a pouco como por encanto, lá estão de volta.

– Entendo.

– Doutor, um verdadeiro inferno fedorento!

– A Senhora não tem câmera para ver quem faz isto?

– Câmera não, mas tenho o olho mágico. Quando escuto o barulho saio na disparada tropeçando por tudo. Mas, quando boto o olho no olho, já não tem mais ninguém. Cruzes! Até parecem fantasmas!

Dona Tide começou a ter alguma esperança de que seu caso fosse resolvido. Ajeitando-se na cadeira e suando em bicas, tomou mais um gole d´água e perguntou:

– O senhor vai fazer alguma coisa?

– Qual é o nome do Condomínio?

– Vila dos Ricos I e II.

– Dona Matilde, sabe me dizer se são os Ricos I ou II que fazem isto?

– São todos os ricos Senhor Delegado.

O Assessor Epaminondas entra:

– Doutor, tem aí uma senhora de 90 anos, fazendo uma queixa. Disse que um rapaz tentou abusar dela no elevador.

– O quê?! Caramba! Hoje é o dia! Já não sei mais se isto aqui é uma Delegacia ou um Hospício! Pelo menos esta não veio com um saco de lixo, não é?

– Não, não! Ela veio acompanhada por um Pitbull.

– O quê?! Pitbull?

– Sim Senhor. Ela disse que depois do ocorrido o neto deu o Pitbull pra ela andar protegida. O Senhor vê só, o que é preciso fazer para uma senhora ter segurança…

– Foco Epaminondas! Foco! – Bateu forte na mesa para interromper o raciocínio do Assessor.

– Aqui estão as anotações do caso da Dona Matilde. Faz a averiguação.

Uma hora depois Epaminondas apresentou o resultado:

– Senhora, infelizmente não podemos fazer nada. A obra está regularizada, cumprindo todos os requisitos legais e foi carimbada por todos os departamentos competentes. Tem Alvará, CND e Habite-se. A caixa de lixo do Condomínio faz parte dos Projetos Arquitetônico e Sanitário originais, assinados pelos Engenheiros e devidamente aprovados pelo Departamento de Obras da Prefeitura, em que consta, inclusive, o local e a metragem quadrada a ela destinada com o respectivo recuo.

Dona Tide fez cara de quem entendeu bulhufas. Disparou:

– Isto tudo é pra dizer que a caixa criou raiz e agora é como uma árvore tombada que não se pode cortar?

O Delegado Palmeirão ficou confuso com a analogia. Deu uma gaguejada:

– Sim e não. Raiz é raiz, árvore é árvore e caixa é caixa. – E desconversou.

– Infelizmente a Caixa não pode ser removida dali. – Acrescentou.

– Mas, tá errado. O Senhor não acha?

– Acho sim. Mas lei é lei.

– Pois é, só porque um dia um bezerro fez um caminho “a torto e a direito” – e fez o gesto com as mãos –, isto quer dizer que o resto da vida temos que andar pelo mesmo caminho que o bicho fez? Pra que serve a cachola então?

O Delegado coçou a cabeça e ficou sem palavras. Resmungou:

– Caminho do bezerro. Humm…preciso atualizar aquele arquivo do “tempo do onça”, mudar os modelos ultrapassados de….

O que Seu Delegado?

– Nada, nada. A Senhora está liberada.

– Obrigada!

Saiu derrotada. Quando estava na porta, o Delegado chamou:

– Dona Matilde!

Virou-se, na esperança de alguma solução.

– O lixo.

– Qual lixo?

– O seu lixo! Oras bolas! – Apontou o Delegado.

– Este lixo não é meu.

– Muito menos meu. A Delegacia não é lixeiro. A senhora trouxe. A senhora leva. E não largue por aí que as câmeras denunciam.

Dona Tide deu um longo suspiro, olhou o maldito lixo e arriscou:

– Posso pegar amanhã com o carro do meu…

– É melhor a Senhora sair logo com este saco daqui – falou o Delegado já um tanto alterado – porque já estou arrependido de não lhe ter prendido.

E lá se foi a pobre mulher carregando o lixo dos Ricos I e II. Após pegar dois ônibus, chegou em casa morta de cansada. Deixou o saco na área da frente. Quando finalmente foi tomar seu café e estava prestes a dar a primeira mordida na cuca de banana, o neto chamou:

– Vó! Vó! A Pituca está rasgando o saco.

– Sai Pituca, sai! Bucica malcriada!

Juntou o que caiu no chão, trocou o saco e como nada foi resolvido, conformada, levou para a sua lixeira. Quando voltou pra casa percebeu um pequeno papel no chão. Com dificuldade se abaixou para pegar. Colocou os óculos e viu que era um bilhete de loteria. Acreditou ser um bilhete vencido, mesmo assim mostrou para o filho.

– Mãe! Mãe! É um bilhete premiado e de muito, muito valor. A senhora está rica!

Com a cabeça fervendo, varou a madrugada de olhos arregalados. Pensou, pensou, pensou… até quase rachar a cabeça. Concluiu:

– Achado não é roubado. Se eu for lá devolver, qualquer um pode dizer que é seu. Como é que eu vou saber se é verdade? Levei este lixo no Condomínio dos Ricos I e II cinco vezes e devolveram. Ele viajou comigo em quatro ônibus, entrou e saiu de uma delegacia. Quase fui presa, foi rasgado pela Pituca e finalmente usou minha lixeira. – E falou em voz alta:

– Acho que posso dizer:“Este lixo é meu!” – E dormiu o sono dos justos.

Dona Tide comprou uma rica casa no Condomínio dos Ricos. Contratou um renomado advogado para resolver o imbróglio da lixeira. Foi muito difícil fazer com que ele aceitasse a causa, tendo em vista o objeto central da discórdia. Mas, Dona Tide lutou, porque sempre pensou que se um dia alguém errasse, a coisa não precisaria ficar errada a vida inteira. Sempre era tempo de corrigir.

O processo demorou tanto, que Dona Tide ficou com medo de morrer antes de sair a decisão.

– Hei de ter a glória de vencer uma caixa! – Dizia – É uma questão de honra!

Após 10 anos o processo chegou ao fim. Foram realizadas inúmeras investigações e incontáveis idas e vindas do processo, no qual consta: isolamento da área em questão; inúmeras medições da caixa de lixo e do local, incluindo vários cálculos e um extenso laudo; apreensão das chaves da caixa e da câmera do Condomínio; variadas fotografias comprobatórias; um sem fim de despachos do Departamento de Obras da Prefeitura, dos engenheiros, de todos os empregados do setor e até do Prefeito; depoimentos dos empregados que faziam a coleta do lixo e de todos os guardas que faziam a ronda, dos motoristas dos ônibus que transportaram Dona Tide no dia em que foi na Delegacia, da Senhora de 90 anos que andava acompanhada do PitBull, dos Ricos I e II, do Delegado Palmeirão, do Assessor Epaminondas, e claro, da Dona Matilde. Infelizmente a Pituca não pode ser arrolada como testemunha e Dona Tide bateu pé e não permitiu a apreensão do olho mágico. Enfim, saiu a tão aguardada decisão: “Por se tratar de um ato irracional, a caixa de lixo do Condomínio dos Ricos I e II deverá ser deslocada para a frente do próprio Condomínio, sob pena de suspensão do serviço de arrecadação do lixo pela Prefeitura Municipal.”

No dia do translado, quem olhasse de longe, juraria que se tratava de um enterro. Dona Tide – sorrindo e tomando café com cuca de banana – assistia tudo da sacada da sua rica casa no Condomínio dos Ricos. Quatro homens de terno, dois de cada lado carregavam solenemente um “caixão.” Finalmente, a caixa de lixo dos Ricos I e II foi assentada no lugar, no qual sempre deveria ter estado.

E se assim fosse, o tempo teria sido melhor usado. A burocracia não teria imperado. Muito trabalho teria sido evitado. Dinheiro público e privado teria sido economizado. E isto acontece porque tudo na mesma vala é jogado. E aí já não se distingue mais se é motivo importante ou abestalhado. Coisa que num único dia ou semana poderia ter sido solucionado.

Inscritos

Lentes, cartões, diafragmas, sensores,
Filtros, teles, flashes, obturadores,
Canon, Nikon, eis a questão,
Na hora da escolha, é a grande confusão.
Diante de tal parafernália,
Quis eu, um dia, descobrir,
Sem mesmo saber aonde ir,
Quando nasceu a fotografia.
Voltei no tempo. E assim determinada,
Eu vi dois jovens: George e William
Que, com uma caixa aparelhada,
Faziam fotos da rapaziada.
Ainda não é aqui que encontro o que procuro.
Tenho que andar e o tempo urge.
E de repente, lá na estrada surge
Um outro Willian e com sua mula,
Carrega chapas como negativos.
E era um tal de faz, desmancha, faz, desmancha,
Eu nunca tinha visto nada igual.
Será que era um prenúncio da “foto digital”?
E agora, quem vejo? É o Richard um médico inglês
Usando gelatina e o brometo de prata,
Criou um medicamento?
Não. A chapa de filme é o seu invento.
Ainda não cheguei ao fim da estrada.
Será que encontro o que procuro? Talvez.
Mais adiante, ali está um tanto pensativo,
Talbot, o inventor do negativo.
Agora, sim, Daguerre e Niépce
Estão felizes, pois um deles,
O Daguerre, já era o Pai da Fotografia.
Triste ilusão.
Estrada afora, e lá vou eu sem saber porque
Eu me meti nesta grande confusão.
Andando por mais estradas
Eu vejo um grande pintor
É o Da Vinci que cansado,
Resolveu deitar mais cedo.
Isso é hora de dormir?
O sol estava bem alto
E entrando pela janela,
Projetava sem cautela
Uma sombra na parede.
Através de um orifício,
Entrava um raio de luz
Mostrando nítida imagem
Que vinha do seu quintal.
Bem bonita, por sinal.
Eu estou chegando perto,
Agora, não desanimo.
E cumprindo o meu destino,
Continuo meu caminho.
Passou-se o tempo, e assim,
Eu perdida em minha sina,
Continuo decidida.
Silêncio.
Olha, quem vejo,
O meu amigo Aristóteles
O que faz ali, sentado, debaixo de um arvoredo?
Ao me ver, me cumprimenta e abre um largo sorriso.
Olhando com atenção,
Me mostra a imagem do sol, num eclipse parcial
E a forma de meia lua, passando num orifício,
Criou uma linda imagem.
Eu penso que nesta hora,
Descobriu-se o diafragma.
Vou deixá-lo ali pensando, tenho mais o que fazer.
É tempo de ir-me embora.
Assim, cheia de coragem,
Caminho por outras eras, outros tempos, outros lugares,
Outras vidas, outros ares,
Um mundo desconhecido,
E de repente a escuridão
Envolve todo o planeta.
E eu fiquei ali sentada,
E olhando as trevas, nada via.
Muito tempo assim fiquei
Perdida e sem destino,
Sem saber mais onde estava.
De súbito, mais que abismada,
Ouvi o som de um trovão,
O infinito estremecia.
Era a voz de Deus que dizia:
– “Faça-se a luz” e a luz foi feita
E Deus viu que a luz era boa.
E assim nasceu o dia,
E com a luz nasceu a fotografia.

Vento que vem do tejo

Que assusta as noites em Lisboa não me deixando caminhar por esta cidade que tanto amo.

Vento forte que faz bater portas e janelas e que arrasta para longe as folhas das árvores pelas ruas desertas, não me deixando dormir, leva para longe estas lembranças que teimam em voltar nas noites frias e solitárias.

Vento gelado que me faz tremer e gelar até os ossos, traz de volta a minha paz, o meu sorriso, a minha alegria, a vontade de viver e faz que eu aqueça, adormeça e esqueça e conduz o barquinho à vela da minha vida a um porto seguro.

Deixe-me lembrar dos momentos felizes, dos encontros agradáveis, das conversas em que eu podia olhar nos olhos, ver os sorrisos, abraçar apertado ouvindo o coração bater, tocar nas mãos, nos ombros, beijar os rostos.

Vento que vem do tejo

Leva para longe este medo que me imobiliza e me faz contar e recontar as horas que me conduzem à liberdade.

Varre para longe este medo de que o que normal não volte.

Deixa eu caminhar pelas ruas e sentir em meu rosto o ar suave da noite.

Vento forte que arrasta tudo que está pela frente,

Torne-se brisa em mim, e me deixe dormir em paz, que eu adormeça e esqueça de tudo isto que me limita e me faz sofrer.

Leva o sofrimento, a dor, a perda, mas não leva a saudade dos que amo, que esta é boa, fica em mim e é para sempre.

Terra invadida por vírus ruins
Foram chegando e logo matando
De carona, as vidas iam ceifando
igual ao sertão com os micuins.

Desconhecidos perigosos matadores
Ruas desertas, o povo nada entendia
A mídia divulgando as mortes todo dia
Velórios proibidos, só lamúrias e dores.

Dias e dias passando, a fé resistindo
Fiquem em casa! nem todos atendiam
O corona seguia matando e matando
Governantes, esses não entendiam.

Os laboratórios entraram em ação
Cada um tentando a vacina fabricar
Antes não havia tanta preocupação
Era só butantan e fiocruz pesquisar.

A situação no mundo inteiro mudou
Todos agora devem a máscara usar
Com álcool em gel-70º as mãos lavar
Sem compromisso povo se aglomerou

Daí surgiram vários laboratórios.
Cada um com nova técnica eficaz
Corona vac mostrou ingredientes
A Pfizer declarou na frente estar

Oxford/astra zeneca quer a dianteira
Afirmando a minha é fácil acondicionar
A moderna já declarou ser a pioneira
Aí, aflorou a dúvida, de quem comprar?

O povo, a que estiver aprovada tomar.
Ciência e política estão em peleja atroz
Seres humanos agora desejam se vacinar
Ansiosos o desenlace dessa luta feroz.

As forças divinas nos salvaguardam.
Pedindo livramento da segunda onda falaram
Que o DNA do vírus agora é RNA
Ele fique com a mensagem dele para lá.

(De Vilar Seco , Vinhais, Bragança, Portugal)

Após tanto tempo,
Revejo o passado
De meus ancestrais
Nas linhas escritas
Em cada registro pesquisado

Vou voando
Na minha imaginação
Com a verdade
Na minha mão

Com dificuldades
Que não teria
Se fosse mais curioso
E ouvisse minha avó Maria

Nos arquivos encontrando
O que não tenho na memória
Páginas de uma linda história
De sacrifício, mas, também, de gloria

Maria Thereza
Ou Maria Thereza da Conceição
Representava com certeza
Digo com a voz do coração
A esperança portuguesa
Em uma nova Nação

De um pequeno lugarejo
Vilar Seco, Vinhais, Bragança
Partiu a jovem Maria
Cheia de coragem e esperança

Manoel Alves, seu pai
Sua mãe, Maria da Conceição
Será que disseram: não vai!
Ou vieram, também, a nova Nação

Por tais fatos, lamento
A preferência de meu tempo
Não lhe dando prioridade
E tendo agora a saudade
De não saber toda a verdade
Contada por minha avó
Cuja história agora lida
Em cada página curtida
Numa saudade que dá do
Ao mesmo tempo me anima
Ao saber que ainda menina
Ela teve muita coragem
Ao fazer essa viagem

Uma avó, analfabeta
Outubro de 1910 ao Brasil chegando
Imagino-a nervosa, inquieta
Mares bravios desafiando
No Vapor Tijuca, antigo
3a. Classe, pouco abrigo

Vem na minha mente a alegria
Ao ver que a avó Maria
Dá-nos uma lição de vida
E uma coragem imensa
Pois essa portuguesa pequena
De um pequeno lugarejo
Satisfez o seu desejo

E no Brasil teve o ensejo
De nova família formar
Hoje a Deus agradeço
Por tê-la conhecido
E minha infância vivido
Com seu carinho e apreço

E poder ter curtido
Sua comida portuguesa
Seus costumes e, com certeza
Seu orgulho do dever cumprido.

30/10/2008
De seu neto

Linda criança
Flor de esperança
Que anima nosso lar
Seu coração encerra
Somente amor para dar
Livre e diferente

Sem orgulho e sem vaidade
Vendo este pingo de gente
Voltar atrás nos dá vontade
Canto este canto
Para todas crianças do mundo
E cantando tanto
Tento abafar o combate imundo
Que cala crianças
Que querem brincar
De bola e boneca
Sem nunca brigar
Matando uma vida
Que mal começou
Em guerra criada
Por quem as criou.

(Poesia feita em 1972 depois de ver uma foto, na revista Fatos & fotos, de uma mãe levando no colo seu filho morto na guerra do Vietnam).

    O fim do ano se aproximava e com isso as férias das crianças, um menino com sete anos e uma menina com dez. Era preciso muita criatividade para apresentar novas opções de lazer aos filhos. A diferença de idade sempre foi um problema porque o que agradava a um, não agradava ao outro. E nesse ano não foi diferente, várias sugestões foram apresentadas a ambos, mas a única convergência era para os Parques da Disney. Argumentos não lhes faltavam, ou porque vários colegas de escola também iam, ou porque outros amiguinhos já foram, ou outros tantos porquês.

    Os pais finalmente se renderam:

    – Sim, vamos à Disney World de Orlando, na Flórida.

    Vencida a etapa da decisão, outra mais longa se iniciaria. Primeiro era preciso que os pais solicitassem férias dos respectivos trabalhos para a mesma data. A programação e as providências práticas como comprar dólar, contactar com uma companhia de turismo que fosse eficiente, organizar a estadia do gato e outros maiores detalhes viriam depois.

    Na mesma semana o filho chegou eufórico em casa, seu coleguinha Marcelo também iria à Disney nesse período. E mais, ele tinha uma irmã de idade semelhante à de sua irmã. E a frase seguinte não poderia ser outra:

    – Pai vamos junto com eles. Eles até já compraram a passagem.

    Quantas dúvidas surgiram agora. Quem era essa família? Eles aceitariam nossa companhia? Que hábitos teriam, especialmente de gastos, porque afinal, uma viagem para quatro não sairia barato.

    Enfim convencidos, resolvemos marcar um encontro com a outra família para nos conhecermos. A alegria e o entrosamento das crianças era tanta que os adultos nem se preocuparam em discutir o roteiro porque, no fim das contas, a viagem era prioritariamente, para as crianças e eles estavam se divertindo tanto nas discussões que nós nos tornamos simplesmente os felizes acompanhantes. Cada um priorizava um parque, mas de fato, eles queriam ir a todos. Difícil era estabelecer a ordem de prioridade.

    A organização começou. Outras reuniões com os “novos amigos” foram realizadas, sempre com muita expectativa pela aventura, afinal, seria uma viagem internacional, a primeira das crianças.

   O pacote de viagem foi comprado na mesma empresa e para a mesma data, 25 de dezembro. Tudo foi planejado para não haver surpresas: as passagens, o hotel, o aluguel de carro na chegada, as entradas para os parques e tudo o mais.

    A viagem estava bem programada e os detalhes estavam elaborados de forma a não perder tempo com burocracias. Até o clima foi estudado para não haver surpresas inadequadas.

    Felizmente o Natal estava chegando e a proximidade da viagem provocava nas crianças maior excitação do que propriamente a chegada do Natal com seus costumeiros presentes. A festa natalina neste ano foi rápida, uma troca de presentes, um beijo nos avós e todos foram dormir cedo.

    A viagem seria às 13 horas e a chegada ao aeroporto prevista para duas horas antes, mas às 7 horas da manhã os meninos já estavam acordados e com as malas na porta. Mal podiam esperar a hora da partida.

    Conforme combinado o táxi chegou pontual. Procedeu-se uma rápida revisão final conferindo os documentos, passagens, dólares e número de bagagens. Tudo certo. Foi dada a largada ao passeio. A partir daí tudo era festa e alegria. Nada mais poderia atrapalhar esta viagem tão esperada. Já estávamos a caminho do aeroporto com a vibração de quem tem um grande destino.

    Antes de sair, porém, ligamos para a nossos companheiros de viagem para saber se estava tudo em ordem, ao que confirmaram que também estavam de saída.

    No aeroporto procedemos a burocracia de embarque e ficamos no aguardo de nossos parceiros. Meia hora se passou e nada, nem sinal deles. Preocupados com o atraso, ligamos para saber se houve algum problema. Ninguém atendeu.

    Passada outra meia hora e o tempo para embarque estava se esgotando sem que eles aparecessem. Mais uma ligação foi feita, sem resposta. Estávamos no escuro, o que havia acontecido?

    Finalmente, na última hora, eles apareceram, correndo e nervosos. E nós não sabíamos a razão.

    Após o “check in” feito às pressas, só faltavam eles, finalmente nos contaram que o taxi que os trazia ao aeroporto estragou no meio do caminho e demorou muito para aparecer outro.

    Ufa! Esclarecidas as razões, nos pareceu que afortunadamente tudo terminou bem e agora já podíamos relaxar.

    Nos dirigimos todos juntos ao embarque. Não demorou muito e o nosso companheiro de viagem, após rápida checagem e já na fila da alfândega, vira-se para nós e diz:

    – Acabo de ver que esqueci meus dólares em casa.

    Eu olhei no relógio e vi que não haveria tempo para voltar para a casa e pegar o dinheiro. O que fazer?

    Novamente estávamos todos nervosos sem saber a solução possível. A esposa ao tomar ciência começou a gritar com ele, histérica, dizendo que havia lhe lembrado de conferir tudo antes de sair. Mas ele displicentemente, como se isso não fosse um problema, disse que esqueceu de verificar. Simples assim.

    A mulher então jogou a bolsa no chão e ali mesmo começou a contar os dólares que ela portava e mais o dinheiro que as crianças ganharam dos avós para gastar com suas coisinhas.

    Eu e meu marido nos entreolhamos sem dizer nada, mas comecei a me preocupar com o sucesso da viagem. A situação era grave.

    Não havendo solução a dar, entramos no avião sem alarde e sem entusiasmo. Nem as crianças conseguiram se animar.

    Assim se passou nossa primeira hora de voo. Enfim, tudo estava tranquilo e eu conseguira me acalmar pensando que agora, finalmente, nossa excursão estava começando a dar certo, quando a nossa amiga, de repente, apareceu na minha frente perguntando se eu teria um remédio para enjoo porque a filha estava passando mal.

    Nessa hora eu concluí que a viagem, com essa companhia, prometia fortes emoções.

Havia poucos dias Júlio completara 15 anos. Um dia para ser esquecido. O presente do pai? O encontro com Clara, uma garota de programa. Experiência para ser esquecida. A atitude inconveniente, truculenta e machista de seu pai, que lhe impusera, à revelia, uma vivência que ele não desejava e para a qual não estava preparado, o agoniava. Tratava-se da sua intimidade e dos seus pudores. Questões que a ignorância de Valdetário desconhecia por completo. Júlio, como de costume, após a aula de educação física, esperou que todos saíssem do vestiário para tomar banho. Não tinha qualquer preconceito em ficar pelado junto aos demais colegas, mas no fundo havia um desconforto, talvez timidez, em participar daquela algazarra de rapazes nus. Não tolerava as brincadeiras, as comparações e os deboches. Certificou-se de que o ambiente estava vazio. Despiu-se. Ligou o chuveiro e deixou a água escorrer morna pelo seu corpo. Fechou os olhos, estendeu os braços e apoiou as duas mãos na parede, relaxou. Imaginou ter ouvido um barulho, como se alguém tivesse aberto a porta. Prendeu a respiração por alguns segundos e auscultou. Silêncio total.

De repente sentiu um corpo colado ao seu, por trás. Braços fortes o envolveram em vigoroso abraço. Por um instante achou que estava sonhando. Mas sentiu que o abraço era real e que movimentos rítmicos se insinuavam à procura de encaixe. Quis suspirar, porém se conteve. Seu corpo desfalecia e se entregava àquele enlace despropositado. A mente divagou, Júlio relaxou em êxtase até então desconhecido. Estava anestesiado e, ao mesmo tempo, sentia um prazer e um desejo inexplicáveis. Era uma sensação de entrega e de abandono que jamais sentira antes: o corpo fremia. O hálito quente se aninhava no seu pescoço provocando arrepios. A lucidez lhe fugia. Permaneceu imóvel por segundos que pareciam desmesuradamente longos. Sua cabeça girava, e seu pudor repelia com veemência aquele aconchego que o corpo tanto queria. A titânica luta entre a razão, manipulada pelos limites sociais de cada época, e a frágil natureza humana, sequiosa de prazeres nem sempre compreensíveis, aniquilava as forças de Júlio. O corpo sedento implorava, dizendo que sim, e a mente subjugada pelos preconceitos berrava tonitruante, dizendo que não. Sim e não. Paradoxo que maltratava loquazmente aquele espírito sensível e doce.

Excruciante prova a lapidar a alma ainda enferma, mas em etapa de veneranda sublimação. A volúpia e a negação o levaram do céu ao inferno. Seu corpo implorava pela entrega, pelo abandono, pela luxúria. Sua mente vigilante e tenaz repelia com veemência. Luta inglória, embate grotesco entre a malícia e a inocência: suprema agonia! Queria relaxar por inteiro e se deixar possuir, gozar! Sem medo, sem culpa. Queria se entregar e retribuir as carícias. Pelos pubianos eriçados a roçar-lhe por trás o enlouqueciam de desejo, era quase impossível resistir àquele apelo carnal impróprio e vulgar. Queria desaparecer, desejava que alguém o salvasse daquele suplício. Pensou em gritar, pedir socorro. Deixou-se, por instantes, sentir a sofreguidão do momento, em silêncio e imóvel, quase enlouquecido de desejo e de repulsa; de vontade e de medo.

Em rasgo de supremo esforço, quase dilacerante, sufocante e dolorido, Júlio abriu os olhos cheios de lágrimas de arrependimento e de renúncia e se desvencilhou daquele abraço enfermo e pegajoso que sua mente odiava, mas que seu corpo, abatido, suplicava. Sem atinar de onde tirara força, rodopiou nos calcanhares e ficou frente a frente com o personagem daquele extremo calvário. Arregalou os olhos, entreabriu a boca, conteve o espanto e o grito, e, quase em sussurro, pronunciou o nome da sua surpresa: – Clara!? O que faz aqui? – Falou entre incrédulo e aliviado.

Toda molhada, ela estampava no rosto ainda juvenil um sorriso meigo e convidativo. Na semana anterior, Júlio não tinha reparado em toda a beleza daquela mulher que a vida conduzira para a prostituição. Ela era bela. Os cabelos molhados, a boca carnuda, sem qualquer maquiagem; seios pequenos e firmes apontavam em sua direção, como dois mísseis teleguiados que o iriam abater sem qualquer chance de defesa. Aquele corpo sinuoso descia simétrico, e na sua concavidade alojava, entre duas coxas grossas e perfeitas, levemente cobertas de pelos dourados, uma vênus de suave penugem escurecida, que contrastava com a tez cor de mel. Visão do que há de mais encantador e sublime no corpo feminino. Fossem qual fossem seus desejos íntimos, era impossível não se excitar diante de tanta beleza e de tamanho viço juvenil. A natureza e sua estonteante exuberância nas curvas de uma mulher. Quadro sublime para os olhos mortais e um deleite quase divino para o espírito eterno. Júlio ficou perplexo. Imaginara que o algoz da enervante luta entre o corpo e a razão era Renan. Aquele abraço forte, másculo, a higidez do corpo, os pelos rijos que roçaram suas nádegas desnudas… imaginara coisas. Imaginara ou desejara? Estava aliviado, mas como pudera confundir a delicadeza de Clara com o corpo forte e musculoso de Renan. Não queria ouvir a resposta da sua consciência: não confundira, desejara. O toque firme, mas macio, dos seios de Clara, e sua pele suave, sob qualquer pretexto, não poderiam ser confundidos com a aspereza da masculinidade de Renan. – Desde a semana passada não parei de pensar em você – sussurrou Clara. – Compreendo que o nosso encontro não foi um desejo seu. Percebi que não estava à vontade. Mas, Júlio, nunca ninguém me tratou com tanto carinho e respeito. Dei uma escapulida da chácara, às escondidas, arriscando minha permanência lá. Foi mais forte do que eu, não resisti. Quando todo mundo saiu, vi você entrando sozinho, então vim, precisava vê-lo de novo. Não importam as consequências, me perdoe o atrevimento, quero e preciso ser sua.

Júlio não sabia o que dizer, não raciocinava direito com a mente ofuscada pela agonia do momento. Clara entendeu o silêncio como um sim e o abraçou, agora de frente. Ele sentiu com mais clareza a insinuação daquele corpo no seu e a busca suave da língua de Clara na sua boca. Não resistiu. Deixou-se levar, conduzir. Entregou-se, e os dois se amaram ali, no desconforto do vestiário, mas na lascívia do apelo voraz da juventude, que faz de um banco duro de madeira leito suave de deleite. Em frenesi e êxtase, foram absorvidos pelo gozo abundante que a idade permitia. Os corpos ainda molhados quedaram-se relaxados, quase inertes.

Naquela época, anos 1970, no inverno quase sempre rigoroso com eventuais geadas, os terços das festas juninas eram um grande atrativo da roça. Os dias 13 (Santo antônio), 24 (São João) e 29 de junho (São Pedro) eram muito comemorados. Adorávamos esse mês principalmente, é claro, porque tínhamos três dias santos e nesses dias meu pai não deixava ninguém trabalhar, católicos que éramos.

Eu e minhas irmãs ficávamos na expectativa da chegada do meu pai da cidade para receber dele os apetrechos com os quais comemorávamos esses dias. Ele trazia uma caixa de rojão para ele e meu irmão soltarem e para nós, crianças, traques e fósforos de cor. Os traques e, de vez em quando umas bombinhas, eram pra mim. Para as meninas eram fósforos de cor. O preconceito já reinava, meninas não podiam soltar traques.

E eu controlava o estoque para não acabar antes do terço nos vizinhos. Mas, geralmente, acabava antes, não aguentava a ansiedade, principalmente de colocar traques debaixo das latinhas de extrato de tomate Elefante e vê-las subir quando estouravam! Certa ocasião meu pai trouxe um rolinho com apenas cinquenta traques. Estava chegando a hora do terço no vizinho e eu só tinha uns cinco. Qual foi minha surpresa quando meu pai apareceu com mais um rolo de cem traques. Nossa, que alegria!

Nesses terços os anfitriões distribuíam rojões (lembro-me perfeitamente dos rojões São João) entre os convidados homens para que, na hora de levantar o mastro e dar o “viva” ao santo, todos soltassem ao mesmo tempo. Eu adorava essa hora, o pipocar dos estalidos simultâneos. Era um espetáculo para nós da roça! O cheiro do rojão recém-detonado é vivo em minha memória! Uma delícia! E a molecada com seus traques e fósforos de cor. Claro, tínhamos que fazer silêncio durante o terço, nem sempre respeitado.

E as guloseimas, evidentemente! Doces e pipoca. Existia um item que criança não deveria gostar mas eu adorava. O tal do anisete, uma bebida de pinga e essência de anis, que, obviamente, criança não podia tomar. Certa ocasião fomos a um terço na casa dos meus tios e lá, escondido, tomei várias xícaras. Minha irmã tomou muito também. Ela devia ter dezoito anos mais ou menos e eu oito. Na volta para casa a pé, claro, ela vinha trançando pela estrada de chão. Eu fazia de conta que a estava imitando, mas estava totalmente grogue. Acho que até hoje nenhum deles sabe que eu havia bebido muito.

Quem sofria demais nessa época, como agora, eram os cães. Com a diferença que então não havia a consciência de agora. Era comum, muito comum, adolescentes e até adultos amarrarem bombinhas nos rabos deles para os verem correrem desesperados de medo. Uma tortura!

No verão, o grande atrativo nas noites escuras era a caça aos vaga-lumes e pisca-piscas. Estes capturávamos para, esfregando na roupa, ficarmos com a camiseta fluorescente. Aqueles eram para nos divertimos mesmo e para colocarmos em vidros e simularmos lâmpadas no quarto.

A caça era muito divertida. Como o verão é época de acasalamento os vaga-lumes se orientam pela luz que emitem e vão a procura dos parceiros. Para capturarmos o primeiro íamos para o meio do pasto, em frente de casa, no escuro, balançando um tição em brasa. A brasa, com o vento, ficava iluminada e os vaga-lumes vinham enganados. Levávamos uma toalha e quando eles se aproximavam, vaput, derrubávamos com ela. A partir daí era mais fácil. Com a luz do prisioneiro capturávamos vários outros. Para atraí-los cantávamos uma musiquinha que era mais ou menos assim: “vagalume quem quem, teu pai tá aqui tua mãe também!”

Era muito divertido, o problema é que era perigoso porque corríamos pelo pasto que nem malucos, geralmente descalços, e os acidentes aconteciam com frequência. Espinho, estrepe, os pés sofriam, já que só olhávamos para cima! Mas era uma diversão legal.

Em comum nas duas estações do ano tínhamos as luzes – dos rojões, bombinhas, fósforos de cor, pisca-piscas, vaga-lumes – a iluminar nossas noites sem energia elétrica, escuras, frias, calorentas, sombrias, mas de céu estrelado (céu lindo que só consegui ver novamente na Chapada dos Veadeiros, em Goiás), cheias de vida, de alegria, de esperança em um futuro melhor.

Tempos inesquecíveis!

Naquele tempo, anos 1970, como todos sabem, levantávamos cedo pra ir pra roça. O café da manhã, pelo menos na minha casa, era apenas leite sem ferver com café, tomados em canecão feito de lata de óleo e encabado na cidade. Aquela espuma do balde de leite era tirada com uma concha, jogava-se o café quente do bule, que formava aqueles círculos pretos no leite branco. E a gente mandava pra baixo, uma delícia.

Só que havia um problema: o trampo era pesado na roça e nove horas da manhã precisávamos almoçar. Ficávamos ansiosos pra ver minha mãe chegar com aquela cesta maravilhosa. Vários caldeirões tampados e com um elástico a segurar a tampa. Eram muitos, porque éramos muitos. Junto vinha a garrafinha de café, geralmente de vidro de pequenos refrigerantes, tampada com rolha e, na maioria das vezes, por falta desta, com palha de milho.

Esse almoço era fantástico. Abríamos o caldeirão e aquele cheiro de comida feita na hora, quentinha. Por baixo o feijão, depois o arroz, e por cima a “mistura”. Mistura era o nome do ingrediente a dar o sabor diferenciado à comida, geralmente um pedaço de carne de boi, de porco ou de frango. E sempre minha mãe mandava alguma salada ou legume. Abobrinha refogada era certeza. Quando vinha o delicioso frango caipira, meu Deus, devorávamos. Mas tínhamos que economizar para o café do meio dia no qual comíamos o restante do que sobrou no almoço. Às vezes minha mãe voltava com algum bolo ou o maravilhoso bolinho de chuva, feito no formato de bolinho quase sempre e, de vez em quando, formato de losangos. De todo jeito, com café, era demais!

Eu sei que existia uns caldeirões de dois andares, sendo que no de cima coloca-se a mistura ou salada, ou doce. Mas nós não tínhamos desses, era coisa dos vizinhos mais aquinhoados.

Pegávamos o caldeirão com a mão esquerda por baixo, sentávamos no chão, e com a mão direita o garfo. A molecada era com a colher. Quando havia alguma fruta por perto, como mamão e melancia, usávamos de sobremesa. Acho que vem daí o hábito que tenho até hoje de comer rápido. Minha esposa falava que eu comia igual pedreiro, ou seja, igual a alguém que pega no pesado. Mas, de fato, é assim que como. É mais ou menos como faz os cães. Você coloca ração e eles devoram. Questão de sobrevivência! Se não comer rápido outro poderá comer a tua parte.

Uma recordação desse tempo era o frango caipira da mãe. Era feito numa panela de ferro. Depois de puxado o pescoço e depenado com água quente era cortado em pedaços sempre da mesma forma. Então já sabíamos quais pedaços teria na panela e cada um possuía uma preferência. A minha sempre foi pela moela. Engraçado que hoje, podendo comer só moela, não sinto o mesmo desejo.

Lá em casa éramos muitos e um frango era a medida de um pedaço pra cada um. Mas meus irmãos chegavam tão famintos que não resistiam a beliscar um pedaço antes da janta, escondidos da minha mãe. Quando isso acontecia, e era frequente, era a pobrezinha quem ficava sem comer o pedaço dela. Vi isso acontecer infinitas vezes. Ela comia apenas com o caldo do frango o que, convenhamos, era saboroso demais!

Nessa mesma panela de ferro minha mãe fazia um delicioso creme. Ele era “assado” em banho-maria, com a forma colocada dentro dessa panela com água fervente. A tampar a panela um pedaço de lata sobre o qual minha mãe colocava brasas. Quando estava pronto, devorávamos!

Outra lembrança era o doce de laranja. Chamávamos de “sugue” mas acho que não é esse o nome correto. Era um manjar feito de suco de laranja que sou capaz de me recordar do sabor. Em tempos recentes pedi a minha irmã para fazer. Uma delícia! Era uma receita da minha mãezinha!

Mas voltando aos caldeirões, como todos lá em casa eram cuidadosos, eles não viviam muito amassados. Mas os que levávamos na escola, meu Deus!

Pra começo de conversa eram os mais pobres que levavam caldeirão com almoço pra escola. Os que tinham mais dinheiro, se bem que naquela época quase ninguém tinha, levavam lanche. Quando minha mãe não tinha o que mandar ela enviava o arroz com feijão mesmo. Levar pão com mortadela, o que geralmente acontecia de segunda-feira quando meu pai trazia no sábado, era como se eu levasse um x-tudo de hoje!

Lembro-me, vivamente na memória, o cheiro de “ardido” que vinha do caldeirão quando abríamos no recreio para comer. Minha mãe preparava cedo e só abríamos lá pelas nove ou dez horas. Então é natural que ficava assim.

Bom, se não comíamos com satisfação, usávamos o caldeirão e o embornal no qual o levávamos para muita coisa. Desde colocar alguma fruta que achávamos pelo caminho até o uso mais radical, que era a porrada em brigas. Portanto, esses caldeirões viviam todos superamassados. Aliás, não era possível encontrar um espaço que não tivesse um amassado afinal, pelos caminhos entre cafezais, laranjais e matagais, vínhamos batendo em tudo. Claro, perder tampa era rotina, até porque usávamos de disco para ver quem jogava mais longe. E o elástico então, era uma arma poderosa, desde ferramenta para matar mosca até atiradeira nos coleguinhas! Aliás, matar mosca com elástico era um passatempo que eu usava em casa. Minha mãe odiava porque deixava as marcas nas paredes e móveis! Puxa, como minha mãe penava! Hoje descansa no céu, sei que ela é latifundiária lá.

Tenho, por lógica, convicção no livre arbítrio. E por convicção espiritual a certeza de que a linha mestra do nosso destino traçamos pouco antes de nascermos. Torcemos e retorcemos essa linha, com curvas e retas, exatamente no escopo do nosso livre arbítrio. O mérito faz tornarmos essa linha mais próxima de uma reta certeira!

Mérito pressupõe esforço, dedicação, formação! Nessa esteira o Programa Contribuinte do Futuro foi uma ação de educação fiscal da Receita Federal do Brasil desenvolvida entre 1971 e 1980 visando à conscientização dos estudantes de primeiro grau nos fundamentos do exercício da cidadania. Era divulgado pelos meios de comunicação por meio de filmetes, lançamento de livros, com amplo apoio do Ministério da Educação, sempre avaliado por concursos de redação dos alunos.

Toda política pública calcada no aprendizado na infância fortalece os laços que embasarão o cidadão quando adulto.

Era início de 1977, ano que circulava o livro “A Nossa Ilha”, do programa em questão, e eu havia passado para o 4º ano fundamental. Teria que deixar a escola na roça, para estudar na cidade. A escolinha só ensinava até o 3º ano. Naquela época estudar não era prioridade e não havia transporte escolar municipal. Trabalhar na roça era prioridade. Como sempre fui aquinhoado com muitas bençãos na vida aconteceram alguns fatos que me fizeram continuar os estudos, mas isso daria outra história! O fato é que terminei o 4º ano e daí para a frente eu mesmo fazia minhas matrículas, fui enrolando meu pai até que consegui chegar à faculdade. Não sem trabalhar para comprar meus kichutes e livros. O trabalho rural que um vizinho nos proporcionava nas férias foi fundamental. Principalmente na lavoura de amendoim. Há uns 10 anos, agradecendo a ele por ter me proporcionado a oportunidade, confidenciou-me: – olha, eu pagava meia diária pra você, mas nem isso você fazia. Pagava porque você era um incentivo para os adultos. Com isso eles se esforçavam mais e compensava o que eu pagava pra você! Enfim, mas ele pagava certinho e foi só por isso que consegui estudar. Naquela época não se falava em trabalho infantil como um malefício, muito pelo contrário! A ele, de novo, meus mais profundos agradecimentos!

Mas as dificuldades não paravam por aí! Eu precisava levantar às cinco da manhã, nos primeiros cantos dos galos, para estar no ponto às seis. O motorista era pontual. Se não estivesse lá ele esperava um minuto e partia, quando esperava. E não podia esperar mesmo se não atrasava a todos! Eu me levantava, tomava uma gemada (ovo cru com café ou leite e açúcar), e rumava para o ponto. Nos meses de junho a agosto, quando o frio era terrível (geava na ápoca), sofria demais porque não tinha blusa suficiente. Lembro-me que nesses dias de geada, chegando na cidade, corria para a padaria do meu avô e ficava me aquecendo perto do forno a lenha até chegar a hora das aulas que começavam às 7:30.

Acontece que eu era o primeiro ponto de uma volta pelas estradas municipais que englobava uma grande parte do município. O trajeto começava às seis da manhã e terminava por volta das sete. Assim que a kombi chegava eu já ia para o banco de trás. Os bancos da frente eram reservados para as meninas e para os garotos maiores.  Como eu era o menorzinho, tinha que ir em pé ou  no porta-malas (apelidado de chiqueiro), até porque não cabia todo mundo sentado. Depois de mim começava o trajeto recolhendo os meninos e meninas que totalizavam mais de quinze. Imaginem como chegava na cidade a kombi!

No final da aula, lá pelas 12:30, era a hora de voltar.  Nessa hora eu já me encontrava bem mal porque às vezes não levava lanche e tinha que comer a merenda da escola que era uma sopa tipo ração que me deixava atrapalhado! Ficava com dor de cabeça e não via a hora de chegar em casa para comer algo. Mas aí acontecia a injustiça. Ao invés da kombi fazer o mesmo percurso, ela fazia o inverso e eu era o último a chegar. Além de ir em pé ou no chiqueiro ainda era o primeiro a ser pego e o último a ser deixado.

A única coisa de positivo era que, com isso, eu chegava mais tarde na roça. Sim senhores, querendo ou não, pequeno ou não, tinha que ir ajudar na roça. E os deveres eram feitos à noite, brigando com todos para usar uma lamparina a querosene. Só tínhamos três para dez pessoas em casa! Minhas irmãs precisavam de uma para costurar, bordar. Outra ficava iluminando a sala pra todos. E eu brigava pela terceira.

Nesse ambiente difícil, consegui, nesse ano de 1977, ganhar o prêmio Contribuinte do Futuro (com a ajuda inestimável de meu mestre Professor Geraldo).

Consegui o primeiro lugar, não me lembro bem qual era o âmbito, se municipal ou regional, apenas me lembro que fui receber o prêmio num clube bonito de uma cidade vizinha que era o polo gestor para aquela premiação. Sinceramente eu nem acreditava no que estava acontecendo. Fui sozinho com os representantes da minha escola e outros premiados. Ninguém da minha família pode comparecer.

Por tudo isso o cantar do Galo, de madrugada, não é algo que me alegra, traz-me recordações de época muito penosa, embora a base de tudo! Galo é bom mas quieto ou na panela! Gosto mesmo é de trabalhar onde trabalho: aqui na Receita Federal do Brasil! E é aquele menino pé no chão, de 1977, quem me diz sempre: – olha, eu te dei a dica e você foi lá e conseguiu! Livre arbítrio é isso aí!

Amo trabalhar na Receita Federal do Brasil! Era destino?

Naquele tempo, anos 1970, infecção de garganta (amígdalas) era praga. Tratar com antibiótico só em último caso. Eu, particularmente, sofria demais com isso. Tanto que tive que retirá-las aos dezoito anos pra poder crescer, mesmo que um tantinho de nada! Mas não era só eu. Quase todos os irmãos sofriam com isso. O tratamento? Bem, me lembro da minha mãe pincelando iodo na garganta com pena de galinha, vick vaporub, alho (que já espantava as lombrigas), e água benta, benzida pelo Padre Donizeti, de Tambaú. Quem não se lembra? Toda tarde ouvíamos às 18 horas no rádio. E quem desse um pio nessa hora meu pai acertava o passo.

Mas esses remédios paliativos às vezes não resolviam. E aí tínhamos que ir pra cidade, pra farmácia, nada de hospital ou médico. O farmacêutico já passava os antibióticos e tomávamos a primeira maldita injeção ali mesmo! Chegava a turvar as vistas! E, óbvio, perdíamos a chance de tomar sorvete porque quem tinha dor de garganta não podia tomar nada gelado. Evidente que na roça não havia nenhum risco, nem energia elétrica tínhamos! Geladeira? A primeira limonada que tomamos gelada foi com o gelo que sobrou das vacinas que o patrão trouxe para o gado. Ah, o sorvete! Era tanto tempo sem contato que na primeira pazinha a dor na testa chegava a tirar lágrimas dos olhos! E o pão com mortadela da padaria também ficávamos sem porque não passava na garganta!

Bom, mas o antibiótico não era apenas uma injeção! Levávamos pra casa mais umas seis eu acho! Como não era possível ir na cidade todo dia tomá-las, entrava em cena a habilidade da vizinhança. Naquelas paragens os “experts” eram o Sr Nicolau e o Sr Delcides. O Sr Nicolau só vinha quando o Sr Delcides estava impossibilitado. Então, em 90% das vezes era ele.

E aí a tortura começava. Primeiro que não éramos aquinhoados com almofadas polpudas. A magreza era regra na roça! Os irmãos mais velhos já podiam tomar nos braços mas nós, só no bumbum! E ainda tinha que ser perito. O Sr Delcides era! Mas tinha um pequeno porém: adorava cachaça!

Pra nós o calvário começava cedo. Lá pelas 16 horas ele descia da casa dele. Vinha mais cedo com a desculpa de preparar o equipamento, etc, etc. Mas o objetivo mesmo era apreciar, com meu irmão e meu pai, um litro de Capivara, cachaça da época.

Assim que ele chegava, a vítima, que já estava morrendo de ansiedade, entrava em pânico. Jantar nem pensar, nada descia, e nem podia. Só depois da maldita!

Claro, antes de começar o ritual macabro tinha a sessão deles. Sentavam lá fora com o garrafão de cinco litros do lado e um copo que dividiam. Era um copinho pequeno, desses de massa de tomate Elefante. E as goladas eram fantásticas. Não tinha essa de um golinho, era meio copo de uma vez. E a careta era impressionante. Parecia que estavam bebendo veneno! As histórias eram longas, não estavam nem aí para a vítima!

Assim que escurecia se lembravam do que realmente havia para aquele dia!

Entrando para a cozinha o Sr Delcides sentava-se numa cadeira, cruzava as pernas naquela tranquilidade própria dos tiranos, sacava o estojo e o ritual começava.

Primeiro montava o estojo. Invertia a caixinha e virava um fogareiro! Enchia de água o recipiente de cima e no de baixo enchia com álcool. Metia fogo e dentro colocava a seringa e as agulhas. Enquanto fervia eram mais duas pingas pra goela.

Depois de tudo longamente esterilizado, com uma pinça ele sacava a seringa e a agulha que seria usada e montava a arma do crime. Pegava a ampola das injeções e, com uma lima, corroía em volta do pescoço dela. Quebrava num golpe de mestre e introduzia a agulha sugando o líquido, enquanto a vítima a tudo presenciava!

Nessa altura dos acontecimentos a Inês era morta! Não havia mais possibilidade de retorno. A guilhotina nos esperava! Ele dava o sinal para meu pai: pode preparar a vítima! Meu pai sentava-se em outra cadeira e dizia, quando era comigo: Batió, vem!

Eu ia de mansinho e deitava de bruços no colo dele, tadinho de mim! Sinto uma pena quando lembro! Ele baixava o shortinho minúsculo e minhas nádegas que pareciam bochecha de borboleta, apareciam. Era só o short porque eu não usava cueca!

E meu pai não deixava virarmos a cabeça pra olhar. Tínhamos que aguentar o tranco às cegas!

Vinha o Sr Delcides com a seringa. Antes de aplicar dava uma checada na última bolha que havia! Aquele gesto tétrico que saia uma gotinha do remédio pela ponta da agulha era o sinal que não tinha mais jeito.

Pegava um algodão ensopado de álcool e fazia aquela massagem diabólica!

A possibilidade dele errar, considerando tamanho da bunda e o teor alcoólico, era enorme. Mas o maldito tinha uma mira infalível. E ele não aplicava, ele meio que jogava a seringa e depois pegava de novo. Vocês têm ideia do que é isso? Já viram?

Nos segundos que antecediam ao crime não passava pelo fiofó nem pensamento!

E vaput! Já era! A agulha ia até onde era possível e a dor era lancinante! Retirava, passava mais um álcool e nos liberava. Saíamos meio cambaleantes, o medo nos olhos marejados, já que chorar era feio! E nos preparávamos para a tortura do dia seguinte! Ainda bem que a janta da minha mãe era algo inebriante!

E Sr Delcides, EU TE AMO! Não se trata de Síndrome de Estocolmo! Obrigado por nos livrar daquelas dores de garganta horríveis! E só pra esclarecer, Sr Delcides é agora, mas lá era simplesmente DERCIDE!