Existe um consenso silencioso no país: o Brasil vai precisar de uma nova reforma da Previdência. O próprio governo já admitiu isso por escrito, no anexo de riscos fiscais do PLDO 2026. A pergunta que quase ninguém está fazendo em voz alta é outra: reforma para onde, e às custas de quem?
Antes de qualquer proposta chegar ao Congresso, valeria a pena olhar para três números que raramente aparecem juntos no debate público — e que, somados, contam uma história bem diferente da que costuma justificar novos cortes.
O déficit que não é bem um déficit
É verdade que o Regime Geral de Previdência Social está no vermelho: 2,58% do PIB em 2025, cerca de R$ 328 bilhões, com projeção de chegar a 11,59% do PIB até o fim do século. São números reais, e ignorá-los seria irresponsável.
Mas há um detalhe que costuma sobrar de fora da manchete. Quando se olha não só o INSS isoladamente, mas toda a Seguridade Social — Previdência, Saúde e Assistência Social somadas, exatamente como a Constituição de 1988 manda tratar o sistema —, a conta muda de sinal. Segundo a Análise da Seguridade Social 2025, da ANFIP, as receitas do Orçamento da Seguridade Social somaram R$ 1,44 trilhão em 2025, e as despesas, R$ 1,69 trilhão. Só que, ao recompor as renúncias tributárias concedidas sobre contribuições sociais — algo em torno de R$ 290 bilhões todos os anos —, a receita efetiva chega a R$ 1,73 trilhão. Resultado: saldo positivo de R$ 42,5 bilhões, não déficit.
Isso não significa que está tudo bem. Significa que “o sistema está falido” é uma frase mais confortável do que “o sistema perde R$ 290 bilhões por ano em desonerações que talvez devessem ser revistas antes de qualquer corte de direito”. A segunda frase é mais difícil de vender, mas é a que os números sustentam.
Quando a Previdência vira Assistência
Enquanto esse debate não acontece, um fenômeno silencioso já está em curso: o transbordo de trabalhadores que não conseguem se aposentar pelo INSS para o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago pela Assistência Social a quem comprova baixa renda, sem qualquer histórico contributivo.
Não é exagero retórico. Com 37,5% da força de trabalho na informalidade — cerca de 38,8 milhões de pessoas sem carteira assinada —, o BPC já soma 6,2 milhões de beneficiários e é hoje a política social que mais cresce no país. Estimativas oficiais anexadas ao próprio PLDO 2026 projetam que esse número mais que dobre até 2060, saltando para 14,1 milhões de pessoas. Entre 2023 e 2025, o número de municípios em que o BPC pesa mais no orçamento do que o Bolsa Família mais que dobrou — de 492 para 1.167.
Aqui está o ponto central: cada trabalhador informal de hoje é um idoso sem aposentadoria amanhã. Se a próxima reforma tornar o acesso ao INSS ainda mais difícil sem lidar com essa realidade, o resultado previsível não é menos gasto público — é mais gente batendo na porta do BPC, com o Brasil pagando, de qualquer forma, a conta da velhice de quem passou a vida inteira fora do mercado formal. Só que sem ter debatido, com transparência, quanto isso vai custar e nem quem vai pagar.
O interior do Brasil que vive da Previdência
Há ainda uma dimensão do problema que quase não aparece em várias das discussões técnicas propostas: o papel da Previdência como sustentação econômica de milhares de cidades brasileiras.
A 8ª edição da publicação A Previdência Social e a Economia dos Municípios, da ANFIP, mostrou algo que deveria pautar qualquer debate sobre reforma: em 73,7% dos municípios brasileiros — 4.103 de 5.570 —, o volume de benefícios pagos pelo INSS já é maior do que o repasse do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). No Ceará, isso vale para 94% das cidades. Na Bahia, para 87%. E o fenômeno não é exclusividade do Nordeste: mais de 80% dos municípios de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná também dependem mais da Previdência do que do FPM.
Traduzindo: para boa parte do interior do país, a aposentadoria do INSS não é só proteção individual — é o que mantém o comércio local funcionando, a padaria aberta e a prefeitura arrecadando ICMS. Mexer nas regras de acesso sem medir esse efeito é redesenhar, de forma indireta, a política de desenvolvimento regional do Brasil — só que sem que ninguém tenha votado nisso.
O aviso que veio do Chile
Se o Brasil quiser um exemplo do que acontece quando esse debate é adiado, o Chile já pagou essa conta. O sistema de capitalização individual chileno não caiu por defeito técnico — caiu por ilegitimidade social. A insatisfação com pensões incapazes de garantir uma vida digna gerou, a partir de 2013, o movimento No + AFP, seguido de anos de marchas que chegaram a reunir mais de 100 mil pessoas nas ruas. Só depois de mais de uma década de pressão popular — e não de cálculo atuarial de gabinete — o país conseguiu aprovar, em 2025, uma reforma com algum grau de legitimidade.
A lição não está nos detalhes técnicos do modelo chileno. Está no timing: o Chile reformou tarde, depois da revolta, não antes dela. O Brasil ainda tem a chance de fazer o contrário.
Debater antes, não depois
Nenhum desses números autoriza a conclusão de que a Previdência brasileira deva ficar como está. O envelhecimento da população é real, e o sistema vai, de fato, precisar de ajustes: seja na receita, seja na despesa. O que esses números autorizam é uma conclusão mais modesta e mais urgente: essa reforma não pode ser desenhada apenas como equação fiscal de receitas e despesas da Previdência Social, discutida entre técnicos.
A própria Constituição já indica o caminho, ao definir que a Seguridade Social deve ter gestão democrática e participação da sociedade em suas decisões. Isso significa colocar na mesa, antes de qualquer votação, o custo real da migração para o BPC, o impacto sobre a economia dos municípios e as renúncias fiscais que hoje drenam o sistema — e não descobrir tudo isso depois, como o Chile descobriu, nas ruas.
