262
Os sonhos de Maria
Angelita José Teles de Oliveira- Goiânia- GO
Maria Teodoro brincava, chorava e era feliz em seu mundo: três irmãos, os meninos da vizinhança e o quintal da casa pobre da pequena cidade do interior.
Maria Teodoro adorava ir ao circo. Não eram grandes, nem ricos os que batiam por ali. Com eles chegavam os parquinhos com tudo que precisava para um parque ser bom: cavalinhos, canoinhas, balanços e o alto falante com música de voz fanhosa e refrão comprido.
-Cabeludo tem vez não… tem vez não… tem vez não… tem vez não…
O disco era furado!
Uma vez Maria Teodoro viajou. Foi no caminhão leiteiro que passava no sítio da avó até a capital, distante cerca de uns trinta km da cidade onde morava, em companhia do pai. A-do-rou!
Maria Teodoro entrou a incubar a ideia do que seria quando crescesse. Iria conhecer cidades e pessoas diferentes. Bom, podia ser artista de circo? Ensaiou alguns truques, alguns passos de dança. Não deu. Então seria caminhoneira. Nas estradas sempre haveria surpresas e aventuras! Mas teria que comprar um caminhão? Decididamente pensar nisso seria muito difícil.
-É isso aí, deliberou lá por dentro. Quando crescer pensarei nisso. E voltou ao seu mundo.
Um dia, farmacêutica formada, aconteceu a grande novidade: O Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social realizaria um concurso para fiscalização previdenciária.
-Porque não tentar? Tentou… Recebeu a notícia de sua classificação como uma benção.
Fiscal, ela! Ela que sempre sonhou em viajar… agora teria sua chance.
E Maria aguardou ansiosamente três anos para ser convocada a fazer a segunda etapa do processo seletivo para provimento da Categoria Fiscal.
A chance de viajar surgiu dois anos depois quando estava casada e com dois filhos para criar.
Então, o grande dia chegou! Maria Teodoro acordou entusiasmada. Era do grupo dos seis que fariam um arrastão em Ceres.
-Viajar sem precisão nenhuma! Pra que essa bobagem? Argumentou o marido.
– É necessidade do serviço pois há na previdência muitos desafios. Cabe a cada um de nós enfrentá-los buscando as soluções.
O diálogo foi interrompido por uma buzina. Maria começou a chorar! Na hora de partir, o pranto! Como era difícil separar-se da família.
No carro os colegas a aguardavam.
-Maria Teodoro se apresentando! Podemos partir. Mas os olhos castanhos de Maria, já batidos pela saudade, choraram até a saída da cidade. Viajaram em silêncio e ela caiu em meditação profunda:
Bem que poderia ficar em casa, trabalhando em Goiânia, curtindo os filhos! … “para que então sofrer semelhante tortura que ali estava sentindo?”
Tudo porque sonhar é preciso. Porque há em cada um de nós, um louco a vislumbrar “mares nunca antes navegados”, e é um confuso Dom Quixote que, mesmo amesquinhado pelas dificuldades rotineiras, busca o sentido épico da existência, que se recusa a morrer, que luta contra intemporais inimigos: o derrotismo, a mesmice e a apatia.
Maria Teodoro se sentia livre. Num universo sem fronteiras. Na calma cidade, os Fiscais de Pastas, risonhos e saudáveis decifrando Ordens e Serviços. O passeio a pé pela cidade cumprindo a Ação Emergencial. Grandes fiscais brincando de turistas em Ceres. E a fiscalização toda, de um país chamado Brasil, convocados a darem o melhor de si na profissão que escolheram.
Utopias? Sonhos irrealizáveis? Não Maria. Tudo vale a pena se a alma não é pequena.