A cidade dos apelidos

567

Gilson Nascimento – Rio de Janeiro (RJ)

Aracati, a primeira cidade que fiscalizei, antiga e tradicional, pois fora importante porto marítimo, era afamada pela beleza arquitetônica de seus sobradões, alguns dos quais ostentavam na fachada coloridos e vistosos azulejos portugueses.

Além desse aspecto, havia um outro que sempre me despertara vivo interesse: a verve de seu povo para pôr apelidos nas pessoas que por lá aportavam.

À primeira aparição, o forasteiro, fosse qual fosse sua condição social, recebia imediata e adequada alcunha.

Certa vez, mal pisara o chão daquela cidade, o passageiro de um ônibus que chegara de Fortaleza, temendo o apelido, mergulhou no bolso da calça a mão deformada por um defeito congênito. Inútil. Antes de chegar ao fim da rua, alguém perguntou ao carregador que levava a mala do recém-chegado:

—      De quem é essa mala, Manoel?

—      É desse mão de gengibre que vem aí atrás!

O Oficial do Exército, vistoso, condecorações enfeitando-lhe o peito, sapatos lustrosos, passeava sua elegância pelas ruas de Aracati. Seu fardamento e sua pele escura chamaram a atenção dos aracatienses.

— Quem é aquele que vem ali?, pergunta alguém.

— É o noite ilustrada!

— E o menino que ele está puxando pela mão?

— É o suplemento.

O caixeiro-viajante tem receio do apelido. Abre com cuidado a janela da sala do hotel em que está hospedado. Uma ligeira espiada pela rua e, antes que o vejam, desaparece.

Ficou conhecido como rato de gaveta.

Um dos Arcebispos de Fortaleza, magríssimo, pena levada pelo vento, em uma de suas visitas àquela cidade, não escapou à alcunha de envelope aéreo.

Até os jogadores de futebol que disputavam partidas por lá, ao término do primeiro tempo, já tinham, todos eles, o seu jocoso apelido.

Mala arrumada, formulários e instruções na pasta, tomei um ônibus rumo a Aracati. Na alma, junto com o desejo de conhecer a cidade, eu levava um forte interesse por aquele detalhe folclórico e as apreensões naturais ao fiscal novato, designado para uma Região Fiscal cujos empregadores há muito não sentiam a presença incômoda do olho de um fiscal do I.A.P.I.

Nos estertores da tarde, com um sol de raios esmorecidos e um ensaio de sombras, aportei à cidade dos apelidos.

Saudou-me, à chegada, a carícia do “aracati”, brisa que se solta quando aquela região entardece. Entreguei a mala a um carregador, dizendo-lhe o nome da pensão em que iria me hospedar.

Seus olhos, vivos e curiosos, me disseram algo.

Lembrei-me imediatamente do mão de gengibre.

A pensão. O banho refrescante. Um gostoso jantar. E a saborosa sobremesa de doce de caju em calda, típica da região.

Horas depois eu entregava o cansaço ao afago de uma rede alvinha e cheirosa e à carícia de um aconchegante lençol.

Manhã cedo, mal o sol abriu o olho, parti para minha árdua tarefa, porquanto há quatro ou cinco anos a cidade não tinha cobertura fiscal.

Boa temporada, aquela. Tudo correu às mil maravilhas. Os empregadores, compreensivos, jamais esboçaram uma atitude agressiva. Entregavam sempre os elementos fiscais solicitados pela NAE. Levantado o débito, corriam os olhos pelo TVD, conferiam-lhe as parcelas e, curvados à lei, apunham a assinatura no local indicado.

Aracati é muito quente. O sol, olho escancarado da manhã ao entardecer, não pestaneja, não brinca em serviço. À tardinha, porém, suas forças se aquebrantam. E as sombras que se insinuam pela cidade trazem com elas o sopro macio do “aracati”, que leva o mormaço das ruas.

Momentos deliciosos, aqueles. Eu, já na calçada da pensão, refestelava-me numa cadeira de balanço. A brisa me roçava o rosto, levando-me, vezes, a um cochilo. Eu me lembrava, então, do apelido e me perguntava: “será que eu vou sair daqui sem uma alcunha, sem a minha curiosidade satisfeita?”

Eu não temia o apelido, não tinha receio do ridículo. Nada mais havia que um intenso interesse por aquele curioso detalhe folclórico, jocosa e fartamente comentado em Fortaleza.

Um dia, cansado de esperar por meu cognome — eu jamais poderia escapar a ele — fui à casa de Dona Castorina, fonte perene de todos os pitorescos apelidos de que se tinha notícia.

— Dona Castorina, iniciei, que apelido a senhora botou em mim? Olhos turvos, voz sem força, me disse:

—      Eu não tenho mais miolo pra isso não, seu fiscal. Minhas ideias estão desarrumadas. A memória — tinha tanta sustança! — está dando parte de fraca; não tem meizinha que dê jeito. Pra bem dizer, eu nem me lembro mais dos apelidos que botei no povo.

Suspirou saudade. Procurou ar. Escolheu palavras. E continuou:

—      Eu já me aposentei desse de-que-fazer. Agora vivo socada nessa casa, me embalando nessa rede e só converso com Deus e com as contas do meu terço.

E com uma ponta de riso nos lábios murchos:

Mas era uma distração boa, seu fiscal.

Assim, sem resposta à minha indagação, deixei, saudoso, o bucolismo de Aracati.

Mudei-me para o Rio, onde continuei trabalhando como fiscal.

O nordestino, no seu apego à terra, tenta trazê-la à que adota. E para matar a saudade do seu chão, revive-lhe, quando pode, as tradições.

Numa noite de sábado, meu telurismo levou-me à Praça Serzedelo Correia, ponto de encontro de nordestinos de todos os estados de sua região.

Deparei com um desafio à sertaneja: viola, voz e trova. Atrás e ao lado de cada um dos contendores, ambos bons no versejar, uma torcida organizada animava os conterrâneos.

O cearense, dedos tarimbados no ofício, acertava em cheio nas cordas da viola, tirando sempre o som adequado e emprestando música à trova que, fluente e espontânea, ia lhe brotando da alma.

O paraibano não ficava por baixo. Ouvido preso à trova de seu contendor, “respostava” de imediato, cada vez mais incisivo, castigando no verso, na rima e na entonação.

Nenhum dos presentes se amofinava, pois a peleja em verso, que nasce com o cantador e com ele vai ao túmulo, esbarra sempre na palavra rimada.

Lá pelas tantas, o cearense, encarando-me, solta o inesperado improviso:

“Esse homem eu conheço/ Das banda do Aracati/ Se o espírito não me engana/ E fiscal do I.A.P.I.” – “Passou lá dois ou três mês/ Disso muito bem eu sei! Quer saber seu apelido/ É um tal de URUBU-REI!”

A memória, solicitada, me devolve a incipiente careca — um início de tonsura no meio da cabeça, algo muito semelhante ao que se observa naquela ave de rapina.

Depois de decorridos tantos anos, curiosidade acidentalmente satisfeita, deixo de fininho e meio encabulado, a roda de cantadores, O riso brinca-me nos lábios.. E o “aracati”, sussurando-me na alma, desperta leves e esfumadas lembranças das quietas noites da cidade dos apelidos.