Viagem perdida

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A principal diretriz do Decreto-lei nº 72, de 21 de novembro de 1966, que criou o INPS, unificando os antigos Institutos de Aposentadorias e Pensões, foi a unidade administrativa.

Seguindo essa linha, a fiscalização foi imediatamente unificada e no início de 1977 foram iniciados os chamados “Comandos Fiscais” com o fito de localizar e promover o registro dos empregados não registrados, autuando se necessário.

Havia sido formado o Grupo Fiscal de S. Jogo da Boa Vista, que iria jurisdicionar diversas cidades da região então denominada de “Baixa Mogiana”.

Da cidade de Amparo foram convocados para se apresentarem na sede do GF os fiscais Farid, Wiliam Maluf e Benedito Galvão. De Mogi Mirim compareceram Adail Couto Paes e Nelson de Oliveira Afonso.

Reunidos, na sede do GF, sob a direção do Chefe do Grupo, Maurílio Lobo, presentes os cinco fiscais de fora mais os localizados em S. João, dentre eles o Gracilio, o Torqui e o Saturnino. O Maurílio transmitiu instruções sobre o modo que deveria agir os comandos.

Deu logo para perceber que o Maurílio, goiano de nascimento, era um excelente colega, sobretudo amigo e defensor dos fiscais. Era, contudo, exigente no tocante ao horário, dedicação, trabalhos bem elaborados, etc.

Ficou estabelecido que todos os fiscais, inclusive os localizados na sede, iriam perceber diárias corridas, já que os comandos seriam feitos nas cidades jurisdicionadas pelo GF, exceto S. João que seria a última cidade.

Definiu-se, também, que os fiscais formariam duplas sob a coordenação de um fiscal de outra localidade, com o fim de evitar constrangimento do fiscal local, na hipótese de eventual encontro com empresário conhecido.

Por fim, ficou claro que os membros dos Comandos só conheceriam a cidade escolhida para ser visitada às 8 horas da manhã, quando o grupo estivesse pronto para iniciar os trabalhos, evitando, com isso, possíveis vazamentos.

Assim, naquela tarde, a fiscalização partiu em caravana, com dois fiscais em cada carro, munidos das fichas das empresas que seriam visitadas.

Desembarcaram no mesmo instante, já com as Relações de Inscrição de Segurados — RIS nas mãos e entraram em empresas diversas. Concluídas as primeiras, visitaram outras fábricas e no final da tarde reuniram-se no GF para análise dos trabalhos.

Os resultados foram excelentes. Em cada empresa de 10 a 15 empregados sem registro. Os empresários, apavorados, providenciavam o registro imediato dos empregados a fim de evitar o auto-de-infração.

O Chefe Maurílio, feliz da vida, afirmava:

— O INPS gastou com diárias, mas obteve ótimos resultados. Lá em São Paulo a coordenadoria ficará satisfeita.

Nos dias seguintes novas cidades foram visitadas, sempre com bons resultados.

Já no fim da semana, a cidade designada foi Vargem Grande do Sul. Trata-se de cidade distante de S. João cerca de vinte quilômetros, de porte médio, porém bastante industrializada.

Na hora do embarque o Maluf notou a falta do seu companheiro. Aborrecido, pois teria que trabalhar só, quis saber que fim teria levado o “Zé” (nome suposto). O Gracílio explicou que o Zé, seu vizinho, não viria trabalhar, mas mandou recado: estava com dor de barriga…

Sem o Zé a caravana partiu para Vargem Grande do Sul. Repetiram o que fizeram nas outras localidades, desta vez, porém, sem nenhum resultado. Cada comando fiscalizou três empresas e não localizou nenhum empregado sem registro.

Às 14 horas, reunidos num restaurante para almoçar, os agentes fiscais trocavam ideias debatendo o fenômeno. Na verdade, a cidade estava toda “enfeitada” com trabalhadores, vestidos com roupas de trabalho, sentados nas guias das calçadas, conversando ou jogando “palitinho”. Dava para perceber que esses trabalhadores eram os empregados não registrados que aguardavam, calmamente, o retorno dos fiscais para voltarem às fábricas. No restaurante, até o garçom, todo sorriso, indagava se os fiscais iriam trabalhar após o almoço.

De início imaginaram que tivesse ocorrido vazamento e, nessa hipótese, os empregadores teriam sido avisados. Entretanto isso era inviável: o único que sabia para onde iam os fiscais era o Chefe do GF. Mas, na verdade, diversos empresários de S. João também tinham empresas em Vargem Grande. Provavelmente, os carros dos fiscais já conhecidos em S. João, foram vistos na estrada da Vargem Grande e um telefonema tinha resolvido a questão.

Dadas as circunstâncias, os coordenadores do comando resolveram antecipar a volta para a sede.

No Grupo Fiscal, o Maluf, encarregado de narrar ao Maurílio o que havia acontecido, meio sem graça contou-lhe a história do nosso fracasso.

O Chefe Maurílio, decepcionado, ouviu toda a história e resignado

Concluiu:

—      Infelizmente o INPS perdeu a viagem.

Em seguida, notando a ausência do Zé, cobrou do seu coordenador:

—      Mas cadê o Zé?

O Maluf, constrangido, explicou que o colega faltou em função de

uma dor de barriga.

Sem demora, o Chefe chamou a secretária e mandou cortar a diária do Zé dizendo:

— Assim ele nunca mais vai ter dor de barriga.

Na saída da turma o Gracílio, sempre gracioso, saiu-se com esta:

—      O INPS perdeu a viagem. Pior foi o Zé, que perdeu a diária…