O inventário

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Wlademir dos Santos – Sorocaba (SP)

Não tinha cinquenta anos, mas a vida madrasta marcara-lhe as feições e parecia um velho. Os cabelos ainda escuros e uma barba que, apesar de raspada, insistia em estar em seu rosto, indicavam que não era tão velho quanto aparentava. Magro, muito magro, as mãos secas com dedos longos e finos, marcados com a nicotina de um cigarro barato queimado dezenas de vezes ao dia, sempre calado, parecia um asceta.

Vestia-se sempre de paletó e gravata. No bolsinho do paletó duas ou três canetas. Mas paletó, gravata, camisa, eram certamente presentes de alguém mais gordo, porque dançavam-lhe no corpo realçando sua magreza. Pior ainda. Punhos, colarinho e gola do paletó puídos indicavam que há muito deviam estar em desuso. Era personagem saída das páginas de Gogo!.

Ninguém o chamava pelo nome. Para todos era o “Professor” e ele se regozijava com isso. Dizia-se professor autodidata de inglês, inglês oxfordiano, acentuava. Incapaz de fazer mal a uma mosca teria passado pela vida sem deixar vestígios nem lembranças.

Fora admitido como datilógrafo e cumpria seu horário copiando o que lhe passavam, interminavelmente, dia após dia. O salário miserável e família a cuidar explicavam a sua magreza.

Certa feita fui designado para proceder à tomada de contas de um Agente Local do antigo SAPS. Isso significava inventariar todos os bens existentes na agência: gêneros alimentícios, material permanente, de expediente, de consumo. Designei os servidores que deviam se desincumbir de tais tarefas. Deixei de lado o Professor.

No dia seguinte, logo pela manhã, procurou-me, extremadamente polido, e pediu-me que também lhe confiasse um trabalho, como o dos outros. Não se sentia bem vendo todos engolfados em trabalho e ele limitado aos seus préstimos datilográficos.

Na verdade, não podia confiar-lhe nenhuma tarefa de maior responsabilidade, mas, num lampejo, ocorreu-me uma: o senhor terá um trabalho importante. Inventariar o material de expediente em uso aqui na agência. Isso significa contar e anotar todo material encontrado: papel ofício, papel cópia-ofício, clips, fitas para máquinas, etc… E que tudo seja feito com o maior rigor, completei.

Os seus olhos brilharam e até parece que remoçou. Assim me ficou a impressão. O que não lhe disse é que o serviço era absolutamente dispensável. Material de expediente em uso não necessitava ser inventariado, porque já havia sido baixado do estoque. Mas dizem que nos planos de Deus há mentiras, para produzir o bem, que são desculpáveis.

Dias e dias seguidos o Professor dirigia-se ao porão onde se encontrava o material que devia inventariar. Três semanas depois adentrou minha sala com diversas folhas de almaço duplo cheias de rabiscos. Estendia-as sobre a mesa e fui descobrindo coisas assim: papel ofício timbrado — um pacote com 498 folhas; um com 496 folhas, um com 497, … e embaixo a soma 4.446 folhas. Papel de seda tamanho ofício para cópia —um com 496, um com 497, um com 495, … e mais uma vez, a soma com 6.986 folhas. Uma caixa de clips com 96, uma com 97, uma com 98, uma com 99, … e embaixo a soma 8.887 clips. A mesma coisa com alfinetes e lá estava a soma 10.986 alfinetes. Tudo contado unidade por unidade.

Professor, o senhor contou tudo um por um? Claro, contei e recontei. O senhor pediu para ser rigoroso. Aliás, emendou, os fornecedores ludibriam a repartição, porque nas caixas de clips constava a quantidade de cem clips e nenhuma delas tinha isso.

Quando fechei os olhos muito fortemente, abaixei o rosto e esfreguei-o com a mão espalmada de cima abaixo, devo, com o gesto, ter-lhe passado uma sensação de desconfiança. Professor, o senhor contou tudo, unidade por unidade? Repeti incrédulo e pausadamente.

Ele se empertigou, meio constrangido como se tivesse sido pego em flagrante delito e confessou: Há uma coisa, senhor Fiscal, que não contei um por um. E que foi, depois de ter contado clipes? Grampos para grampeador. Quando vi que cada caixa tinha vinte e cinco mil grampos eu desisti. Grampos para grampeador, isso não contei um por um.