Minha baia verde – Maria Pedrita dos Santos – PA

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A  viagem a serviço abrangia duas cidades: Breves e Portel. Até Breves a viagem foi feita de avião. Breves realmente não tem atrativo, não tem charme. Toda ela se resume na fachada com a igreja, a praça, a prefeitura. Lembra uma cidade cinematográfica.

Um rio barrento lava a frente da cidade.

Dois quarteirões depois ela vai se rarefazendo.

Minha colega de viagem localizou uma velha amiga na cidade e isso amenizou a calmaria de nossa permanência ali. Era na casa dessa amiga que jantávamos diariamente, só retomando bem tarde para o hotel.

Terminado o serviço da Prefeitura de Breves, marcamos a ida a Portel, por via marítima, é claro.

A embarcação, bem pequena, ia lotada.

Por uma questão de hábito, o caboclo já leva a rede no ombro para atá-la sobre as cadeiras, tão logo chegue.

Quem se atrasar vai em pé. E a luta. As cadeiras, se chegar cedo, a rede, se quiser dormir; em pé por falta de espaço, de assento.

Sentadas, minha colega e eu ficamos sonolentas devido ao calor e ao som do tum, tum, tum da embarcação.

A embarcação tomou um canal defronte de Breves, tão estreito que parecia encostar na vegetação pendente das margens.

Depois de algumas horas nos deparamos com um mundo de água, talvez uma baía.

Interrogadas, as pessoas davam nomes diferentes a tão belo acidente geográfico. Era baia verde, baía melgaço, etc.

O nome realmente não interessa, mas que era verde, era mesmo.

O sono passou diante daquela maravilha. O sol completava o espetáculo quando seus raios em contato com a água verde, dava a impressão de alfinetinhos brilhantes.

Bem longe uma barra branca — eram as praias que contornam a cidade.

Por volta das 18 horas chegamos à Portei.

A mesma característica de Breves — a igreja, a prefeitura, fazendo a fachada da cidade.

Uma pequena diferença: a luz elétrica de Portei só vai às 24 horas. Procuramos um hotel, o melhor da cidade.

Um casarão de madeira de dois pavimentos.

A escada que levava ao pavimento superior tinha os degraus tão estreitos que um pé n2 36 tinha que caminhar como papagaio.

O quarto, com 2 camas e um ventilador que pouca serventia teria diante do calor sufocante.

Armário? Uns pregos espalhados pelas paredes.

No andar de cima, uma bacia sanitária e um lavatório num cubículo fechado, resolveriam os problemas mais urgentes durante a noite.

Os banheiros, bem rústicos, ficavam no andar de baixo e do lado de fora do casarão.

As refeições estavam incluídas nas diárias e eram feitas em uma mesa bem ao estilo antigo, retangular, ao redor da qual sentavam o juiz, o promotor, o advogado a serviço, os fiscais da previdência.

O nosso grande problema surgiu aí: minha colega de serviço em tratamento de alergia teve que ficar com fome.

Devido a um problema de abastecimento não havia carne na cidade. O hotel servia galinha e ovos, isso em dias alternados.

Irene estava proibida de comer galinha e ovos.

Diante do impasse não tivemos outra alternativa: no dia seguinte fomos à Prefeitura, fizemos o levantamento necessário e ao fim da tarde retornamos para Breves.

O retorno foi mais agradável numa embarcação bem grande, moderna, com direito a camarote com ar condicionado.

Breves nos esperava para terminar os trinta dias determinados pela fiscalização.