O encontro (Bruno Feliciano Haab)

Se ainda escrevesse o meu diário, poderia hoje escrever uma bela página nele, e creio que a escreveria mais ou menos assim: “Querido Diário: Há tempo que não te brindava com algo magnânimo. Escuta-me como me escutavas na adolescência.

O dia de hoje, apesar de iniciar triste e monótono, pela meia tarde mudou de indumentária e se apresentou com roupagem de inefável sentido espiritual. Como explicar uma tão rápida mudança no meu cenário espiritual? Que força telecinética pode brotar do invisível contido no visível, capaz de operar tais maravilhas?

Todas as perguntas que se jogam contra este mundo escuro e incansável ficam definitivamente sem retorno, restando-nos apenas a constatação de que, de fato, uma mudança gloriosa se opera sempre em nossa alma.
Assim como o universo está pleno de mistérios, estes, aliás, na proporção direta de nossas limitações, assim também há encontros que acontecem numa bruma mística de tão extraordinário nível para as pessoas envolvidas, e tão naturalmente vão-se desenvolvendo, como se fossem algo ensaiado milhares de vezes, tal como se costuma apreciar nos filmes românticos, onde a imaginação criadora dos artistas nos encanta e nos comove intensamente. O encontro de hoje foi assim, assim sem palavras, fixando-se, ao final, na memória, em forma de aromas e cores, em forma de matas e planícies verdes, em forma de subidas e descidas, em forma de rochas e precipícios…

Pois, lá pela meia tarde, ia eu viajando por Porto Lucena, parando vez por hora, quando propus à imaginação que divagasse mansamente a fim de sorver melhor a tudo que me rodeava. Era uma tarde maravilhosa, desse maravilhoso fagueiro e embasbacador, o céu completamente azul, o ar parecia um ar especialmente condicionado, o sol nem quente e nem frio e o vigor da primavera despontando em todas as direções. Acrescentei ao cenário um pouco de etéreo e retoquei rapidamente todos os lugares, o que me custou um lufa-lufa incrível, pois o que tive de recolocar de árvores e de extensas florestas não era tarefa para qualquer um. Bem, lá se foi a imaginação, ao meio dessa pujante natureza, e pousou num sitiozinho qualquer… ah, eu quisera ser romancista, eu quisera ser mágico para conservar úmidas as mãos com as águas do Rio Uruguai e senti-las majestosas como ele próprio o é. Ah, eu não quero esquecer jamais as inconfundíveis corredeiras e o seu inimitável cantar em “bocca chiusa”, que enche a alma do verdadeiro sabor do eterno, do imutável, de doce nostalgia do perene… num lugar único assim, em alguns metros quadrados, infinitamente insignificantes no grande mapa mundi, lá eu encontrei a mais bela das belas, a mais fecunda das férteis, a mais sábia das gênias… nos encontramos, nos respiramos, nos fundimos e nos esquecemos… ah, momentos ditosos, misto de sonho e céu! Sim, eu vi e senti a essência da vida.

Muitos grandes nomes tentaram fixá-la no papel, mas não passaram de vãs tentativas, porque as palavras são apenas palavras; outros, todavia, adaptaram-nas magistralmente: “Árvores frondentes e undiflavadas de sol, onde os pássaros cantam; rios gorgolejantes de cristais sonoros; vivos e iluminados vergéis em flor, campos verdes, afogados na verdura tenra, como estofos de veludos e sedas rutiiosas e orientais…” (Cruz e Souza: Missal). “Espertos regatinhos fugiam rindo com os seixos. Pelas encostas dos vales poderosamente cavados, desciam lépidos bandos de árvores” (Eça de Queiroz).

Setembro tem o mérito de nos trazer a primavera, e seus efeitos extasiantes nos tornam venturosamente estóicos diante do mundo-máquina. Ela é como o instinto de beleza da Natureza, ela enfeita e colore e gorjeia e canta e zumbe e… e ela também deixa bem públicos e bem à vista de todos os impunes crimes do homem… Sim, estão lá… olhai ao longo das montanhas… olhai aquela terra gemebunda… ela ainda espera ser novamente coberta de matas … olhai ao longo dos rios, completamente desmoralizados, sem aquela peça indispensável à imaginação e ao efetivo usa…

De Roncador a Vera Cruz há uma série de lugares de onde se descortinam vistas simplesmente paradisíacas, sempre enriquecidas pela lascidão das sinuosas e embevecidas águas uruguaias.

De Bom Princípio Baixo, olhando-se para o Sul, os olhos se enchem com a volúpia das ondulações, ora bruscas, ora suaves, ora tenebrosas e ora amenas… o conjunto insinuando aqui purezas, acolá sensualidades, mais ao longe denovo o místico. Tudo isto representa um ágape delicioso para os espíritos férteis; principalmente a imaginação dos espíritos amantes da natureza. Ah, tudo isto e principalmente o que é inefável, enchem a alma humana, seja ela do naturalista, do filósofo, do ecologista ou do poeta, seja ela também do observador anônimo, desde que racional, porque se sente integrada nesta imensa sinfonia do Criador, se sente parte valiosa desse incomensurável palco…

E pensar que também existem espíritos brutais, insensíveis, como se fossem constituídos de ferro, fogo e enxofre, aos quais toda essa beleza não significa nada mais e nada menos do que um miserável cifrão, o cifrão do depravado deus da Fortuna… aos quais a visão das florestas os fere profundamente, porque no lugar delas não existem máquinas, máquinas que fazem dinheiro… e se tivessem um condão, mágico, num relance todo esse “tesaurum naturae” se transformaria em malfadada monocultura.

Homens sem talento, aos quais está entregue um fator de segurança e sobrevivência da humanidade toda, não percebeis que é impossível ingerir ouro? Não vedes que, enquanto empanturrais as algibeiras, na mesma proporção se esvaziam as vossas almas e vos igualais aos irracionais?

Meu Querido Diário, como é prostrador ter que assistir manietado o desabar das árvores, muitas delas seculares, testemunhas vivas do nosso passado real! O que mais pode dizer além de entoar as lamentações de Geremias? Talvez o Todo Poderoso nos possa ouvir se rezarmos assim: Perdoai-lhes Senhor, porque não sabem o que fazem”.

Bruno Feliciano Haab – Santa Rosa (RS)