O estranho caso da marcenaria clandestina

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Nuno da Cunha Lobo Souto Maior- RJ

Era novo na fiscalização. Tudo novidade, uma ânsia de aprender, de trabalhar e desbravar os mistérios da nova atividade. Havia pouco tempo sido transferido de São Paulo para o Rio de Janeiro, cidade onde foi criado. Morava precisamente em Cascadura, um subúrbio da Estrada de ferro da Central do Brasil, até hoje meio parado no tempo.

Vizinho de sua residência, um jovem comerciante de um armazém de secos e molhados, Cesar, que sabendo da condição de fiscal do IAPI trouxe uma informação meio confusa. Ora era uma marcenaria, ora era uma oficina e noutra ocasião informava que era uma loja. A característica mais interessante era o horário de funcionamento. Ao anoitecer, curiosamente, começavam a aparecer os primeiros trabalhadores daquele estabelecimento misterioso. Misterioso, sim de vez que não se davam com nenhum dos comerciantes vizinhos, que pouco ou nada sabiam do que se passava naquela loja de três portas de aço, sempre cuidadosamente cerradas, aparentando um certo abandono. As famílias em redor, estas então, nada sabiam informar do que se passava lá dentro. Mistério.

Com a pouca experiência na fiscalização, mesmo assim, deu para notar que havia uma falha naquela denúncia. É que não parecia possível, viável comercialmente, tal tipo de comércio/indústria com tais características de funcionamento. Isto foi debatido com o informante, que continuava insistindo no funcionamento noturno daquela marcenaria. Garantia que havia atividade lá dentro, sempre encoberta pelas trevas da noite, sem muito barulho, não havendo hora certa para encerrar o expediente noturno. O mais curioso é que só havia homens adultos no serviço. Nada de mulheres e nunca foi visto um menor de idade entre eles. Uns iam de carro, possivelmente os donos, enquanto a maioria saia a pé, em busca de ônibus ou para pegar o trem em Cascadura, que era relativamente perto. A vontade era deixar-pra-lá, não crendo muito naquelas informações desencontradas, fantasiosas e que não casavam com a realidade. O Cesar devia de estar com brincadeira.

Seis meses depois aproximadamente, volta o Cesar a me perguntar se já tinha fiscalizado tal oficina, que continuava em funcionamento com as mesmas características misteriosas. Insistia em querer resolver aquela situação que lhe aguçava a curiosidade. Trouxe a novidade de que uma vez tentou entrar lá, sendo barrado pelo vigia, na porta, sem maiores explicações, mesmo dizendo-se vizinho. Mais espicaçado ficou em suas dúvidas. Certamente coisa boa não se passava lá dentro.

Tanto insistiu que o fiscal levou o problema à sua chefia imediata, o Giusti, coroa vivido e fiscal veterano como poucos. O que foi apurado no Grupo Fiscal pouco esclareceu. Não constava nenhuma empresa no endereço indicado. Veio a lógica de que talvez fosse a sua atividade comercial, logo com vínculo IAPC, portanto ausente de nossos arquivos e fora do âmbito de nossa fiscalização. Ficou o chefe de comunicar-se com suas amizades nos comerciários para confirmar suas suspeitas. Estávamos na Marechal Câmara e o IAPC sediava-se na Avenida Rio Branco, relativamente perto.

Mais alguns meses se passam e o Giusti informou que não havia qualquer estabelecimento comercial no endereço fornecido. Havia alguns anos que naquela loja se instalara um pequeno bazar, que fechara suas portas sem que outro se instalasse lá. O local não condizia com filiação ao IAPB nem com transportes e cargas, que sequer foram consultados de possível vínculo de atividade.

Por esta ocasião, cada fiscal era o responsável por determinada Zona Fiscal. Se estava na sua ZF o fiscal tinha dever de solucionar todo e qualquer problema. Vai lá, disse Giusti, e veja o que há.

Aí já era uma ordem da chefia a ser cumprida e não mais uma curiosidade a ser satisfeita. Tanto a fiscal quanto a do informante Cesar, que queria saber o que se passava naquele misterioso local, sempre com as portas fechadas.

Primeiramente, uma visita de rotina, já na função específica de fiscalização, onde as portas foram encontradas ainda fechadas e onde ninguém havia para receber a NAE, Notificação de Apresentação de Elementos, precursora, e que foi deixada na caixa do relógio de luz. Na vizinhança consultada apenas foi colhida a informação já sabida que só havia gente lá a noite. Havia dia da semana com maior ou menor número de pessoas denotando pouca regularidade empresarial. O ambiente da empresa traia alguma coisa diferente, de misterioso. Era loja com três portas de aço evidenciando não terem sido abertas há muito tempo. O acesso para o interior só poderia ser por um portãozinho lateral, barrando o corredor estreito e comprido. Lá no fundo, uma porta lateral conduzia ao interior. E nada de serragem ou cavaco de madeira. Tudo indicando o funcionamento noturno da marcenaria sui generis, determinada noite, em dia da semana de maior frequência, na data da NAE para a visita fiscal, chegou lá o fiscalizador em seu Austin verde para devida verificação. De fato, alguns carros denotavam existência de gente no interior da loja. A hora era chegada. Salta do carro, de terno e gravata como recomendavam as instruções em vigor, e dirige-se ao portãozinho da entrada.

Lá estava um senhor de meia idade também de paletó e gravata. Deveria ser o vigia que barrara o informante Cesar em suas averiguações. Saudado como manda a boa educação, o vigia pergunta, “se era irmão”, e de onde era.

Identificada a função fiscal e os motivos daquela visita, saiu um sorriso, quase uma gargalhada do vigia. A explicação veio logo depois. Disse o vigia:

-Foi o senhor que deixou aquela intimação? E tornou a rir.

Era ali, rua do Souto, quase esquina da rua Padre Telêmaco, instalada uma oficina, ou loja, de Maçonaria, dirigida pelo hoje finado Souza Marques, conhecido educador e diretor de afamado colégio em Cascadura, atingindo atualmente nível de faculdade de medicina, entre outros.

E o fiscal que não era irmão não pode entrar.