Sempre podemos ser úteis (Elizabete Regina da Silva Bege – Florianópolis/SC)

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Dezembro de 1988. Eu e meu colega Aládio formávamos uma Junta Fiscal para realizar a operação conhecida por “porta-a-porta”, onde verificávamos os empregados sem registro e as falhas de recolhimento das contribuições previdenciárias, em empresas localizadas na região de Meleiro e proximidades de Criciúma, no sul de Santa Catarina, onde éramos sediados.

Tínhamos muitas visitas a realizar. O trabalho era interessante e estava produzindo bons resultados. Eu, porém, estava sentindo certa dificuldade, devido ao estágio avançado da gestação do meu segundo filho. Não raro o Aládio tinha que parar o carro e me socorrer, pois os solavancos nas estradas sem calçamento me deixavam nauseada. Ele já havia sido patrulheiro do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem-DNER e possuía treinamento para atendimento de partos em viagem, por isso, sempre me tranquilizava e garantia que saberia como agir em caso de qualquer imprevisto. Também me incentivava, elogiando meu bom trâmite no trato com os contribuintes. Mesmo assim, eu me sentia constrangida por não saber como retribuir todo o auxílio que ele vinha me prestando.

Não deixou de ser um período interessante; muitos contribuintes olhavam intrigados para a minha barriga e confessavam estar admirados com a existência de Fiscal-Mulher e ainda por cima grávida. Alguns consideravam isto como prova de finalmente ocorrer a moralização do serviço público, pois até então pensavam que as mulheres funcionárias (principalmente as grávidas) ficavam apenas fazendo “crochê” dentro das repartições. Nestas horas eu me sentia muito gratificada por estar contribuindo com a mudança da imagem do servidor público perante o contribuinte.

Numa segunda-feira realizamos visita a uma indústria de copos plásticos, recém-inaugurada, e constatamos a existência de mais de cem empregados sem registro. Marcamos encontro com o responsável pelo setor de pessoal, cujo escritório localizava-se em Criciúma, dando-lhe prazo para a regularização até sexta-feira daquela mesma semana. Enquanto isto, efetuamos outras visitas.

Chegou sexta-feira! Aládio e eu nos dirigimos à empresa e fomos encaminhados ao setor de pessoal. O titular não estava no momento, mas seu substituto nos recebeu muito bem e indicou o local onde estavam as Carteiras de Trabalho e Registros, para que pudéssemos ir adiantando a verificação. Em meio ao trabalho, fomos surpreendidos pela chegada do Titular do Setor, que, aos berros, dirigiu impropérios de cunho pessoal ao Aládio, além de ameaçar chamar a polícia por estarmos invadindo propriedade particular. Meu colega citou os fundamentos legais que nos permitiam estar realizando aquela verificação, mas não adiantou. Tentei intervir e acalmar os ânimos, explicando que já havíamos conversado antes com o substituto e, portanto, não estávamos agindo com abuso de autoridade, como ele definiu, embora tivéssemos amparo legal para, mesmo sem essas formalidades, tomarmos aquelas medidas e até outras, como lavrarmos um Auto de Infração, tendo em vista que ele estava obstando nossa ação fiscalizadora. Tudo em vão. O rapaz estava irredutível. Disse que não tinha nada contra mim, por ser “mulher”, mas que aquilo era assunto para “macho” e que queria resolver aquela situação ali mesmo, no “punho”, com o Aládio.

A situação estava muito tensa. Olhei para meu colega e reparei que ele já estava ficando vermelho, no limite de seu autocontrole. Pensei rápido: — Preciso ajudá-lo; não podíamos continuar ali, não havia condições de diálogo e aquele rapaz era um simples funcionário da empresa. Nosso assunto agora não deveria mais ser com ele e sim com o proprietário da empresa. Caso não houvesse acerto, aí sim partiríamos para as medidas legais cabíveis. Tratei de tirar meu colega dali, pedindo-lhe calma e que não desse ouvidos àquelas ofensas, embora sentisse que seus brios estavam muito feridos. Descemos para o andar onde se localizava o escritório do proprietário e pedi à secretária que nos conduzisse ao mesmo de imediato, pois, se não fôssemos atendidos, iríamos autuá-los com base no ocorrido no setor de pessoal.

Felizmente o proprietário da empresa apareceu “incontinenti” e conduziu-nos à sua sala. Fechou a porta e pediu-nos para narrar o ocorrido. Meu colega ainda estava muito nervoso e tomei conta da situação, explicando o que havia acontecido e as implicações legais possíveis. Ele escutou com atenção e agradeceu-nos muito por termos primeiramente lhe procurado, antes de tomarmos outras medidas. Explicou-nos, primeiramente, que estava tendo problemas muito sérios com aquele rapaz. Ele era filho de um dos sócios, mas devido ao seu temperamento agressivo, os demais membros da sociedade decidiram desligá-lo da empresa. Este fato lhe havia sido comunicado momentos antes de nossa visita e acabamos recebendo toda a revolta contida, além de uma atitude antiética de prejudicar propositadamente a empresa, tentando fazê-la incorrer em crime perante a Previdência Social, como forma de vingança pela demissão considerada injusta. Também explicou que naquele momento o rapaz já deveria ter pego suas coisas e ido embora, pois era exatamente o que deveria estar fazendo quando nos avistou no escritório.

Realmente, quando retomamos ao local onde estávamos trabalhando, acompanhados pelo proprietário da empresa, o rapaz já não estava mais e pudemos concluir nosso serviço tranquilamente. Obtivemos um ótimo resultado: todos os funcionários haviam sido registrados e alguns valores que estavam em atraso foram recolhidos. O relatório de nossa Junta Fiscal foi bastante produtivo.

Ao final daquela sexta-feira, quando íamos embora, meu colega me fez parar no meio da rua e disse que tinha algo muito importante a me dizer. Comentou o tenso ocorrido e me agradeceu inúmeras vezes pela calma e bom senso com que eu tinha conduzido a situação, evitando que o episódio tomasse outro rumo, e ajudando-o a engolir tantos “sapos” em nome da nossa ética profissional, salientando que sem a minha presença teria sido muito difícil manter aquela postura, pois nunca havia sido tão ofendido na vida. Do que me disse, gravei uma frase muito importante para mim: — Bete, nessa vida a gente sempre pode ser útil. Sempre temos algo para contribuir.

Fui para casa com o ego em festa. Finalmente havia tido a oportunidade de retribuir, pelo menos em parte, tudo o que o meu colega havia feito por mim durante aquele período.

Chegou o sábado. Coloquei meus relatórios em dia. Missão cumprida. Agora vamos relaxar. Opa, algo está acontecendo… Meu bebê parece que quer chegar antes da hora. Não, não pode ser, ainda falta mais de um mês para o prazo final. E domingo, 17:00hs. Meu bebê quis chegar mais cedo mesmo. E prematuro, mas muito forte e bonito. Dei-lhe o nome de Rodrigo.

Segunda-feira. Que surpresa bonita! Meus colegas fiscais trouxeram flores e um lindo cartão. Mamãe e bebê passam bem. Minha família está em festa. Meu colega Aládio comenta ainda na Maternidade: — E pensar que na sexta-feira ainda estávamos trabalhando… Seu bebê quase nasceu no meu carro, porém foi você quem mais foi ÚTIL no nosso último dia de trabalho. Viu como sempre temos algo com que contribuir?

Muito obrigado, meu caro colega Aládio, não só por tudo que fez por mim naquela fiscalização, mas por ter me permitido aprender mais esta lição de vida.

 

Elizabete Regina da Silva Bege – Florianópolis (SC)