Histórias de fiscais

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Todos contam sua história, também vou contar a minha:

Sou um Fiscal de Contribuições Previdenciárias aposentado, egresso do ex-IAPI onde entrei mediante concurso. Sempre procurei o diálogo com os Empregados e com os Empregadores, por ser esta a maneira mais fácil de se obter melhores resultados.

— Em 1968 eu estava lotado em Ribeira, o mais antigo bairro comercial e industrial de Natal. Certo dia, iniciei os trabalhos de fiscalização da rua 15 de Novembro, entrando numa oficina de consertos de máquinas de escrever e somar e calcular. Dois empregados que prestaram declarações e assinaram o formulário usado na época. Quando eu estava com os dados prontos para o levantamento, chegou o Empregador — O Sr. Ignácio — que, a princípio, se mostrou aborrecido, mas acabou concordando com tudo, inclusive com o pagamento do débito em 12 parcelas. Nessa época, os débitos pequenos eram parcelados pelo próprio Fiscal e o Empregador recolheu logo a primeira parcela.

— No dia seguinte, na mesma hora, entrei numa oficina de fabricação de portas e grades de ferro, cujo Empregador se chamava “Raimundo” e estava ausente. Procedi de igual modo, os 3 empregados assinaram a declaração de tempo de serviço e eu estava fazendo as minhas anotações, sentado num tamborete, quando entra o Empregador, Sr. Raimundo, totalmente aborrecido, entre outras coisas disse que não pagava um tostão, que eu me retirasse dali pois não queria nem me ver, pois eu estava invadindo a sua oficina. Procurei convencê-lo da obrigação, mas ele cada vez ficou mais furioso. Foi lá no cofre de onde retirou um revólver e botou na cintura, depois tirou e botou no bolso, sempre agressivo, que não pagava nada e que eu me retirasse. Ainda procurei convencê-lo sem resultado, mas ainda o avisei de que ia mandar o débito pelo Correio com o indispensável Auto de Infração e fui embora.

— No dia seguinte, caminhava eu pela Av. D. de Caxias, em direção à Rua 15 de Novembro, quando senti aquela mão pesada segurar o meu braço direito onde carregava a pasta com documentos. Quase desmaiei ao verificar que era o Sr. RAIMUNDO, que foi dizendo “quero falar com o Senhor”. Não sei como ainda respondi “pois não” e ele foi dizendo “quero falar com o senhor, mas é lá na oficina” e assim saiu segurando o meu braço por dois quarteirões, sem mais uma palavra. Consegui passar a pasta para a mão esquerda, pois poderia ser necessária uma reação de minha parte. Ao chegarmos na oficina, puxou um tamborete e disse “sente aí”, enquanto eu raciocinava “chegou a minha hora”. Então, ele perguntou: posso pagar o meu débito em parcelas? Bastante aliviado, respondi que “sim” e que eu mesmo tomaria todas as providências e ele concordou.

— Só depois vim a saber que a razão dessa virada de posição do Sr. Raimundo foi porque o vizinho Ignácio, quando soube da grosseria dele comigo, foi lá na oficina e deu-lhe o maior batido, dizendo-lhe, entre outras coisas, como é que ele fazia uma grosseria dessa com um fiscal que era gente boa e exigiu que ele fosse me procurar, pedir desculpa e pedir o parcelamento do débito. E esta é a minha história.