O pai e o relógio

Ary Delgado Belo Horizonte – MG

O título desta crônica há de causar estranheza a quantos gastarem alguns minutos para lê-la, pelo que representa a trilogia que a compõe.

Muita gente poderá deduzir tratar-se da relação “fiscal tempo e comando”, mas, ficará longe da realidade.

Em minhas andanças por estas Minas Gerais, na lida como Inspetor-Fiscal, aportei, certa feita, na cidade natal de um FCP.

Preciso que se diga, fazendo-se justiça ao inspecionado, tratar-se de um bom fiscal, que dedicava tempo integral ao nosso então I.A.P.I.

O moço era sacudido no trabalho. Fazia das tarefas diuturnas sua religião. Desenvolvia serviço apreciável, em quantidade. Por isso, de pasta preta na mão, via de regra, pesando vários quilos, saia de casa logo após o café da manhã, pondo-se a trabalhar na árdua tarefa de conferir recolhimentos previdenciários, checando os RE — recibo a empregador — com as FP — folhas de pagamento — examinando depois os lançamentos contábeis, de preferência nos livros Caixa e Diário. Esse trabalho, mais técnico do que fiscalizador ou investigador, era entremeado com a verificação física — que denominávamos de “corpo a corpo”, isto é, fiscal versus empregador e empregados, de onde nasciam os arbitramentos de débitos.

Nessa lida, o FCP ocupava-se até doze horas na rua, o que prova cou-me a escrever esta crônica, dado o inusitado do acontecido entre mim e o pai do fiscal trabalhador.

Ao chegar a essa localidade, sabedor de que o fiscal residia com os pais nessa sede de ZF — zona fiscal. Era o endereço que eu trazia na DTS — determinação de serviço — a mim dirigida pela chefia.

Recordo-me com saudades! … Desci do trem, a saudosa e heróica “Maria Fumaça”, e me dirigi à casa do FCP, situada bem no centro da pequena cidade interiorana. Era uma mansão com aparência de opulência capitalista. Localizava-se na praça central. Exibia ares de nobreza, era habitada por fazendeiro do tipo “coronel” do interior; era a vivenda do pai de nosso colega FCP.

Aí, é que sucedeu o inesperado. O coronel Castro, homem simples, mineiro tradicional, desconfiado, calado e arredio no diálogo, recebeu-me à porta, olhando-me de cima abaixo, deixando transparecer certa preocupação com minha presença. Principalmente, quando me anunciei como Inspetor que iria verificar os trabalhos do filho dele.

—      Bons dias, moço! Que deseja vassuncê? Tão cedo ainda?

—      Sou Inspetor Fiscal do I.A.P.I. Quero falar com seu filho. O que é fiscal do Instituto.

Ao que, o velho adiantou:

—      Vosmicê deu com o nariz na porta, só Inspetô! Ninico deixou a cama, forrou o bucho malemá e já disparou pro trabáio! Mas, não se desaponte! Vou mandá chamá ele; deve de tá chegando no banco. É que hoje chega o cheque que os chefe manda. Pra recebê o “brodo” ele nem toma café direito. Bródo aqui, sê moço, quer dizer dinheiro.

E continuou:

—      Sente cá comigo, que a mesa tá posta. Vamos tomá café com mistura. Tem brôa que a muié faz; biscoitão de porvío, páu a pique e, inté leite com farinha de mio. Não se acanhe. Entra pra cá e vamos forrar o estômago!…

Aquiesci ao convite. Depois de vinte e quatro horas de trem, estou varado de fome.

Durante o café, o velho pai do FCP, preocupado com meu trabalho e o desempenho do filho-fiscal, não parava de falar, elogiando a cidade, o povo e, em destaque, seu filho Ninico (apelido de família).

—      Ninico é um boi pra trabalhá! Só Inspetô! Sai cedo e só vorta de noitão! É uma máquina; trabáia das déis até doze horas sem pará!…

Delicadamente, cortei o discurso do pai “coruja”, ardoroso admirador do filho-fiscal.

—      Sr. Castro, não se aflija tanto. A ficha do Ninico é das melhores. Meu serviço é acompanhá-lo a uma meia dúzia de empresas, e fazer relatório à Chefia. Pelo que sinto, o Ninico é mesmo trabalhador.

O velho, ao invés de calar-se, tomou-se de mais entusiasmo, dobrando os elogios ao FCP. E extrapolou os elogios com esta afirmativa:

Oh, só meço! Meu filho sai de kinhanzinha, trabáia até doze horas por dia. A mãe dele chega a “raiá” com ele “minino, num exagera tanto no serviço! E sempre diz um ditado certo: “meu fio! trabáio é meio de vida, não de morte!… E a vida é uma só! Manera fio! Mas, ele está na mesma, num larga aquela pasta preta nem pra armoçá!…

Eu o apoiei, por comodidade e compreensão. Pai interiorano, que nem o meu, admirador do filho, único da família funcionário de remuneração gorda, como eles mesmo diziam.

—      De fato, senhor Castro! Nós sentimos que sua produção como fiscal novato, é grande e correta. É bom fiscal, em primeira análise.

Como disse linhas atrás, o velho pai do FCP não se deu por satisfeito, soltando o grito da vitória com relação ao filho:

—      Sê Inspetô! Meu fio trabáia doze horas de relógio por dia, marcadinhas! E, não é desses “relóginhos” de purso, não! É daqueles “relogião” de parede! Que nem aquele ali da sala…

Com essa, fecha-se a trilogia “FCP, pai e relógio”.

Daí, invadir nossa mente uma dúvida:

— Será que nossos chefes de grupo-fiscal usavam relógio de parede, ou de pulso!… Porque, às vezes se ouvia alguém dizer. “Fiscal é “boa vida”! Passeia muito e trabalha pouco!…

Acho que não! Fiscal sempre carregou os Institutos nas costas, garantindo a estabilidade de sua arrecadação. Modéstia à parte!… Que o digam os chefes dos Serviços da Dívida Atival…”

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